terça-feira, 27 de março de 2012

O Menino e o Rio


        O Menino e o Rio

        

            É um livro antigo.  Daqueles com capa de couro e as margens desenhadas, como arabescos coloridos que lembram uma confeitaria.  Um livro para crianças?  Não sei. Talvez um livro para a vida de todos.

            As histórias correm e fluem como um córrego ruidoso e as palavras, feito gotas, tocam e umedecem onde pousam, formando paisagens e recantos novos, ampliando a alma de quem as lê.  Como vapor d’água, elas flutuam no ar e a nuvem de gotículas revela milhares de arco-íris,  diamantes puros, enfeitando o que iluminam. Há frescor, intenso e novo – as palavras são partituras do mais puro Amor.

            As histórias narram o encontro de uma mulher com um menino, são histórias do que seus olhos de menino vêem e contam - o livro é a história de seu olhar. Seu filho?  Nada é dito.

            As histórias, sua narração e o caminhar que são, mostram um só corpo, uma só memória, uma só experiência, um só viver: é um andar por entre mundos, o andar tranqüilo e seguro de uma criança, como o pequeno Redentor, o Deus-menino que segue abrindo as portas e janelas de um novo sentir.

            E as palavras-paisagens que seus olhos descrevem, como límpida água, vão lavando as cores empoeiradas, realçando sabores, trazendo perfumes, elevando tons de tantas outras dimensões do sentir que a alma teme romper-se de júbilo e de dor. E o menino, sorridente e distraído, segue abrindo, falando e gesticulando, mostrando tudo, feliz, por poder ser guia no mundo das Luzes e Sombras e de tudo que nasce no Intervalo silencioso das duas.

            E ao caminhar e segui-lo por corredores sem fim, salas e mais salas, vai se esquecendo por onde se entrou, e já não faz mais sentido procurar, pois há tanto para ver... Esquece-se das Horas, o Tempo já não existe, Tudo é apenas o Testemunho daquele-que-mostra para aquele-que-visita e vê - pela primeira vez! - o que é a Infância e a Inocência. E o Sagrado de um coração...

            Então se chega ao Jardim.

            Não há limites, não há construções, apenas um imenso Jardim, onde o verde e o azul se encontram dizendo do tamanho de cada um.

            É quando se tira os sapatos, apenas isso.

            E eu vejo plenamente o Menino, seus pés descalços, seu cabelo desarrumado, seus olhos, brilhantes como o sol fresco da manhã.

            O orvalho frio da grama não incomoda seus pés, o ar gelado não machuca sua pele e o sorriso não cai de seus lábios porque o amanhecer é o mais precioso de seus bens e o que mais gosta de dividir, sendo superior a todo e qualquer desconforto. Ou dor...

            “É quando o som é mais puro e as cores, antes silenciosas, acordam, preguiçosas do sono tranqüilo da noite que já foi, e ela contam os sonhos que tiveram. Mas é preciso acordar cedo e achar o lugar certo para ouvi-las por que...”, ele diz, saindo em disparada rumo às águas que nunca param de jorrar, “... é só nessa hora que elas falam sem pensar, contando os segredos que a noite revelou e que logo o dia esconderá...” mergulhando sem hesitar na água gelada da cachoeira... 

             Mal a cabeça negra emerge, ouve-se um grito contagiante de alegria. E sua voz é como o canto de um pássaro ecoando na mata virgem: um hino puro ao Criador.