Algumas reflexões sobre o
Transtorno de Pânico
Sonia Maria Marchi de
Carvalho
Psiquiatra, analista membro
da AGAP/IAAP
São Pedro, outubro/09
Introdução
Quando fui convidada para aqui estar e falar sobre o Pânico, vieram-me
à mente vários aspectos que norteiam a nossa abordagem dessa condição extremamente
‘desagradável’ e que motiva as pessoas a procurar nossa clínica.
Invariavelmente, todas as pessoas abatidas por uma crise de pânico revelam grande sensação de fragilidade, desamparo, impotência, diante de ‘algo
súbito e agudo’ que as assola tão urgentemente que vão ao pronto socorro, de onde
saem sem qualquer diagnóstico médico que possa lhes dizer, ou localizar 'dentro
do corpo', alguma ‘doença’. Geralmente,
escutam que não têm ‘nada’, que não estão sofrendo de um ataque do coração, que não
há nada de errado com o organismo, mas talvez stress e falta de repouso. Hoje é
menos freqüente que não recebam o diagnóstico de ‘crises de pânico.
As descrições das crises variam e giram em torno da sensação de morte
iminente, aceleração súbita e inexplicável dos batimentos cardíacos, sudorese
intensa, mal estar físico geral, que acontece mesmo durante estados de repouso.
Há ainda a dificuldade em ficar sozinhos. A crises duram em média 20-30 minutos. É comum que após algum tempo, passem a
apresentar o medo antecipatório das crises. O resultado é uma condição
incapacitante com conseqüente perda da autonomia e dependência.
Vejamos o que o CID-10 nos diz a respeito do transtorno de pânico.
O CID-10 entende o Pânico como um transtorno ansioso que não é
desencadeado de modo exclusivo pela exposição a uma situação determinada, como
acontece, por exemplo, nas fobias. O diferencial para o CID-10 é seu caráter
imprevisível e não-dependente de situações que disparem as crises. Quando isso
acontece, temos o pânico com agorafobia, por exemplo, crises ao sair para uma
viagem de avião ou trem. As fobias todas podem desencadear crises de pânico.
Tenho me encontrado com a assim denominada Síndrome do Pânico em diferentes
etapas do processo de análise: pessoas que chegam apresentando as crises e que
procuram a terapia por essa razão, pessoas que já se acostumaram com as crises
e já as aceitaram, e aquelas que chegam por outros motivos, e algumas pessoas que
começam a desenvolver crises semelhantes ao pânico após um período de análise. Tentarei
delinear uma reflexão embasada nesses encontros, sabendo que nunca
conseguiremos esgotar o tema.
Há um aspecto mais coletivo do Pânico que tocarei apenas de leve,
somente para sugerir futuras reflexões, aspecto esse que está ligado ao
comportamento de pânico do tipo ‘reação em massa’, como as encontradas na
violência, nas guerras, ou nas situações de crises econômicas, como a recentemente
criada pelas especulações financeiras, e que geraram um ‘pânico’ no mercado.
Abordagem Teórica
Sabemos com Jung, que não é possível uma sistematização ‘de fora’ que
explique a dinâmica que acontece em cada processo individual. Desse modo, optamos por abordar alguns
aspectos do mito e da clínica, conscientes sempre da impossibilidade de se
esgotar uma condição. No dizer de Walter Otto, se explicamos um Deus é porque
ele não é um deus.
Aceitamos a condição da irracionalidade. À partir do que aprendemos
na clínica e com o progressivo desabrochar das dinâmicas que encontramos, com o
aparecimento de algum sentido e o confronto com a necessidade de respeito à presença
do grande Outro - nunca traduzido ou reduzido a uma explicação – é que
comprovamos a importância de uma relação adequada com o ‘imponderável’. O
imponderável parece ser a condição patognomônica contida em Pã. Somos convidados
à visitação de suas paragens. A leitura
e re-leitura sempre deixarão algo em aberto, assim esperamos, fazendo justiça
ao irracional.
Colocados os limites, então nos aventuramos em nossa reflexão, que se
dirige mais à compreensão da atitude consciente da pessoa sofrendo do pânico do
que ao irracional, aprioristicamente
irredutível.
Pã é um “deus, que de
acordo com o sentir dos Gregos era “a causa presente-ausente de tudo o que não
tem causa, a razão daquilo que não tem razão em particular; duas totalizações
paradóxicas nas quais uma coletividade pacífica se muda, subitamente, numa
horde selvagem”.[1]
Com é nosso costume, procuramos na etimologia e mitologia e sabemos
que ‘pânico’ é uma palavra que deriva do deus grego Pã.
Vejamos um pouco seu mito.
O Mito
Segundo
a mitologia, Pã era filho de Hermes e da ninfa Dríope. Dizem que era tão feio
ao nascer — o corpo inteiramente recoberto de pêlos, metade humano, metade
bode, chifres na testa, barba e cauda — que a mãe, em desespero e medo, fugiu
para bem longe. Hermes o teria levado para o Olimpo para divertimento dos
deuses.
Pã
freqüentava os pastos e os bosques da Arcádia e era a personificação da
fertilidade e do espírito fálico e selvagem da natureza indomada. Entretanto,
ocasionalmente era gentil com os homens cuidando dos rebanhos e das colméias.
Tomava
parte nos festejos das ninfas dos montes e auxiliava os caçadores a encontrarem
suas presas. Dizem que certa ocasião perseguiu a casta ninfa Siringe até o rio
Ládon. Para fugir dos abraços de Pã, a ninfa se transformou num feixe de
caniços. Como não a encontrasse, cortou os caniços e inventou a flauta de sete
tubos, que desde então foi chamada com o nome da famosa virgem ou como a flauta
de Pã.
"E nos contou como, em um dia Sirinx
De Pã fugiu, temendo, apavorada.
Desventurada ninfa! Pobre Pã!
Como chorou, ao ver que conquistara
Da brisa
apenas um suspiro doce! ”
(Keats)
É de
seu nome que deriva a palavra pânico, pois o irreverente deus se divertia
assustando os caminhantes solitários das florestas com gritos assustadores.
Embora desprezado pela maioria das divindades, quase todos os outros deuses
exploravam seus poderes.
Tornou-se
símbolo do mundo por ser associado à natureza e simbolizar o universo. Está
associado à astúcia bestial. Pan significa TUDO e esse nome está associado à
energia genésica do universo e da vida. Destituído da sensualidade primária,
ele personificará o Grande Todo.
“Os faunos são figurados como
gênios dos campos meio homens e meio-bodes Estes se assemelham, por sua vez,
aos sátiros helênicos, demônios campestres igualmente duplos – homens-cavalos
ou homens-bodes.”
“Todos esses seres costumam
serem associados ao antigo deus grego Pã, também de fisionomia híbrida e
relacionado à fertilidade. Amam o vinho, a dança, a música e principalmente o
sexo, fatores esses que lhes permitem integrarem-se ao cortejo de Dioniso.
“Por outro lado, e
contraditoriamente, tais entes detêm certo poder sobrenatural.”
“Esse poder se manifesta, por
exemplo, pelos dons artísticos – como o da música e o da dança – e oraculares
associados, sobretudo aos sátiros e a Pã, além de sua longevidade incomum, e
pela ascendência divina que por vezes lhes é atribuída”.[2]
Em
sua obra, Plutarco conta que, ao largo das ilhas do mar Egeu, nos tempos do
imperador Tibério, a tripulação de um navio ouviu uma estranha voz que gritou
por três vezes: "O grande Pã morreu". Em seguida, ouviram-se lamentos
e gemidos. Nesse exato momento, o cristianismo nascia na Judéia.
O
mito na clínica
Tentaremos
agrupar alguns elementos encontrados no mito para nortear nossa reflexão com os
aspectos da clínica:
-
Abandono, terror e rejeição associados a sua aparência;
-
Protetor dos campos e pastagens, deus da natureza;
-
Quando é amigo dos homens cuida dos rebanhos e das colméias;
-
Metade homem, metade animal, não pertence a uma categoria fixa;
-
Provoca risos nos deuses/é usado e abusado por eles;
- Associado à dança, à música (Flauta) e ao
cortejo de Dioniso;
-
Astúcia;
-
Energia genésica/sexualidade/fertilidade;
-
Associado à idéia de ‘TUDO’ e ‘TODO’;
-
Dom oracular;
-
Sua morte está associada ao final do paganismo e início do Cristianismo.
O
Pânico é uma experiência numinosa, estamos diante de um evento tremendo, que
faz tremer toda a base da vida da pessoa: o corpo subitamente torna-se portador
de uma experiência global da irracionalidade nua e crua de ‘um outro’, estranho
e aterrorizador. A eclosão do pânico é a experiência da presença absoluta do
desconhecido, expressa pelo terror.
Iniciaremos nossa abordagem pelo nascimento
e abandono de Pã, o terror de sua compleição física.
Ele é um choque, e é abandonado. Sabemos que aqui estamos diante da
experiência arquetípica tão comum que nos mostram os mitos: o tema do abandono
e a criação e educação por outros que não os genitores, no caso, pelas ninfas,
a habitação nas cavernas, etc.
O fato de Pã não ser um olímpico, nem um mortal, nos coloca diante da
delicada questão do não-lugar, tão bem visualizado pela sua forma, metade
homem, metade animal.
Se por um lado, Pã, assim como outros seres mitológicos semelhantes ,
nos lembra quais intensidades nos dominam e nos denominam – os instintos e o
espírito – ele também nos faz conscientes de um não-lugar, tão característico
da condição existencial humana. Enquanto Pã não é nem olímpico, nem mortal, quem
somos nós enquanto seres e filhos da natureza? O que exatamente inaugura a
condição ímpar de sermos como somos? A que se destina? Existe algum sentido?
Em todas as situações em que me deparei com pessoas sofrendo do
Pânico, observei questionamentos existenciais que as atravessavam, sem qualquer
atenuação, até a completa transformação da atitude que bloqueava o
funcionamento do Si-mesmo.
A filosofia trata do não-lugar como a condição sine qua non da existência humana, lugar que o filósofo Juliano
Pessanha descreve com uma imagem contundente: que somos como uma aranha fixa em
sua teia, cujos fios não estão fixos em lugar nenhum. As angústias e intuições associadas
a esse não-lugar adquirem o caráter de crises de pânico como as descritas nos
manuais.
Esse não-lugar apriorístico e condição sine qua non do ser humano, pode
ser vivido de maneira ‘pior’ ou ‘melhor’ dependendo do acolhimento que a nova
vida tem.
Lemos em sua tese de mestrado, que o mundo instituído ao recusar
(1)
a poesia e o estranhamento do novo que o
nascimento de uma nova criança inaugura, e que rompe com a continuidade do
mundo conhecido até então,
Ou, (2) ao recusar a descoberta
que essa faz do mundo recriando-o e re-inaugurando-o, deixa o Si-mesmo ‘preso’ num lugar que não é o abismo do vácuo,
e também não é o mundo, mas uma ‘fenda’. E nessa condição se perguntará como é
possível a vida.
Novamente aqui, essa situação existencial adquire os contornos do
pânico.
Muito semelhante a Jung, o autor sugere que se explore esse não-lugar,
essa fenda, para a partir dali encontrar a história que inaugure sua vida.
Segundo ele, “o homem precisa ser incitado a sair de si, a cancelar o eu e
deixar-se escavar pela fenda, pelo corpo, pela terra, pelo outro, pela morte.
Incitá-lo a uma outra saúde. Uma saúde ampla que hospede alteridades banidas.”[3] A
alteridade banida, no caso que discutimos, é Pã.
“O humano não pertence nem só ao buraco onde não aparece e nem ao
instituído onde desaparece. Entre o ser domado e o não-ser se abre a região
comovida do agradecimento e do encontro.” [4]
Vejamos um pouco como a clínica vê a natureza desse encontro que no
caso de Pã, não ocorreu.
Sabemos pelas teorias das relações objetais que a sensação de
desamparo e a primeira experiência da gravidade vivida pelo ser humano ao
nascer podem ser fatores facilitadores do desenvolvimento de crises de pânico
no futuro, associadas que estão às angústias impensáveis, descritas por
Winnicott.
O autor inglês descreve com detalhes a importância da relação mãe-filho,
que ele denominou de holding para a
formação e criação de um ‘ambiente’ que irá permitir a estruturação do
psiquismo da criança e seu progressivo amadurecimento. Sabemos com Jung, que
nessa etapa a mãe – definida como toda a estrutura que cuida do bebê - constela
o arquétipo central do Si-mesmo.
A clínica confirma esses achados, e no relato das vivências fundantes
com as figuras parentais encontramos situações que esclarecem perfeitamente
essas crises.
Encontramos ‘marcas’ que ‘fundamentam’ o pânico, cuja ‘impressão’ na
psique é a de súbito vácuo, memória de um momento onde uma experiência de
separação e abandono foi vivida, quando o bebê ainda não possuía maturidade suficiente
e se viu só diante do mundo, e paradoxo, um mundo que ainda não existia, ou
seja, se viu diante do ‘nada’.
À perda da mãe, definida aqui pela perda do investimento afetivo,
segue-se a instalação do traumático, e a conseqüente perda do mundo, porque a ‘constituição’
do mundo e a ‘passagem para’ o mundo, ainda não haviam sido amadurecidas.
Esse ‘tipo’ de pânico está vinculado ao horror do vácuo, ao não-lugar,
pois se já não há mais a mãe, e ainda não há o bebê (enquanto unidade
psicossomática) nem o mundo plenamente constituído, onde habitar? Ou melhor,
quem habita? E, o que habita?
A formação do Self também acontece nos embates do instinto e sua
satisfação, o que gera o repouso que possibilita a progressiva integração e formatação
do ‘si-mesmo’. A satisfação incompleta, ou mal sincronizada, não permite esse
estado de repouso tão necessária à formação do Si-mesmo. É comum encontrarmos a dificuldade em relaxar
e repousar nas pessoas que sofrem de crises de pânico, e pensamos que aqui há a
falta é a de experimentar estados caóticos sustentados no tempo. Essa ‘duração’ no tempo é o que permite a
criação da ‘base’ que estruturará toda a personalidade, lugar para onde ela
poderá futuramente ir e voltar, e vivenciar os estados caóticos sem ficar preso
à agonia interminável do não-ser.
Poderíamos pensar na imagem de Pã, metade homem metade animal, como a
de um Self que ainda é ‘meio alguma coisa, meio outra’ e está existencial e
funcionalmente ‘preso’, ‘entre’, um mundo e outro, como sempre estaremos, mas
que não está completamente formado, não completamente nascido para o mundo, e
aquilo que em outros é mais ‘ameno’, nele é carne crua: experimenta o absurdo
da estrutura primitiva como seu próprio corpo e pele, sentindo-se um estranho
em sua própria essência, sentindo a vida como possível apenas para outros. Vida
aqui definida como uma vida sem ‘crises de pânico’.
Não sabemos aqui, se o medo sentido é da vida ou da morte.
Acredito que esse tipo de pânico esteja mais associado às vivências
das angústias impensáveis, primitivas, que arquetipicamente falam também do
início da vida psíquica, tão turbulenta e frágil em sua condição inicial.
Dificuldades nessa fase retardam a plena constituição do Self, fazendo
surgir o que Winnicott designou de falso Self e a pessoa experimenta uma
constante falta de base e a sensação permanente de que pode desabar a qualquer
momento.
Clinicamente, a fuga diante do filho, outro aspecto presente no mito, pode
estar associada a inúmeros eventos, como um luto ou depressão na mãe e na
família, no ambiente aonde chega o bebê, separação precoce, como doença ou
hospitalização prolongada por parte da mãe ou do bebê, etc, situações que
constelam a experiência da falta precoce de uma relação satisfatória entre mãe
e filho.
Acredito que Jung e Winnicott convergem aqui sobre a importância dos
fatores externos na facilitação da formação psíquica – lembramos que sem a
importante e determinante ‘relação humana’, as forças arquetípicas não se
humanizam, e o desenvolvimento e o amadurecimento naturais, enquanto processo
de individuação, ficam prejudicados.
O abandono também pode estar apontando para uma questão arquetípica
crucial: o irracional que Pã representa está fadado a ser sempre abandonado
devido ao horror que provoca. Podemos
então dizer que, arquetipicamente, nós estamos fadados a responder com atitudes
de fuga e rejeição a tudo aquilo que nos causa horror e temor, devido à
irracionalidade mobilizada. Mesmo que não tenhamos crises de pânico como a que
está descrita nos códigos internacionais de doenças, basta nos lembrarmos de
reações violentas nas quais rejeitamos alguma coisa horrível para observar o
fenômeno acontecendo em nós.
Nesse ponto, encontramos com outro elemento importante associado a Pã: a
energia geradora e criadora.
Como é esta experiência de
nos darmos conta de geramos e somos responsáveis pelo que criamos?
No mito, a mãe de Pã, foge
ao ver sua aparência grotesca. Ela foge
de seu próprio fruto.
Sem querer ampliar esse
tópico para a figura humana de uma mãe, gostaria de refletir sobre nossa
relação com o que criamos, não voluntariamente, mas autonomamente, nossa
relação com aquilo que vem de nosso corpo, de nossos afetos, de nossos
instintos, de nossos pensamentos, nossos atos, sem que o queiramos, ou seja, toda
nossa produção autônoma que habita a sombra.
Díopre se espanta com o
aspecto duplo de Pã, assim como nós que renegamos aquela parte grotesca de
nosso ser, dizendo que não somos ou fomos nós que agimos como agimos, fenômeno
tão bem descrito por são Paulo quando
diz que ‘não faz o bem que quer, mas o mal que não quer’.
A psicologia analítica é
extensíssima no que se refere à necessidade de nos confrontarmos com a sombra.
Se é verdade que Pã
representa para os Gregos ‘a razão do que não tem razão’, estamos fadados a
sempre nos confrontarmos com o irracional. Ele impede nossa estagnação!
Tenho observado em algumas
pessoas sofrendo o pânico a presença de uma rigidez intelectual disfarçada numa
atitude de pseuda flexibilidade: talvez como uma forma de defesa, o psiquismo se
estrutura quase que integralmente nos patamares de uma racionalidade que diz de
si mesma que é ‘aberta e democrática’, mas que aprisiona o Si-mesmo numa
espécie de cordialismo, não permitindo a presença de afetos dissonantes ou
conflitantes a essa atitude cordial e civilizada.
Associada está uma
infantilização que abruptamente
transforma-se em fúria diante de uma decepção ou frustração.
As explosões afetivas
autônomas contém grau tremendo de energia que geram a própria base que a pessoa
procura, mas os afetos contradizem muito o que a pessoa gosta de ser, ou de
acreditar que é. Sua base, falsa, rejeita sua própria produção afetiva.
Essas explosões
aparentemente não tem vínculo algum com as crises de pânico, e no entanto, as
crises diminuem à medida que esses afetos são aceitos, permitindo uma expansão do si-mesmo trazeendo um embelezamento à
personalidade.
A energia criadora
associada à Pã, antes restrita ao terror, manifesta-se progressivamente como
uma indefinida e vaga sensação de que o que a pessoa vive é pouco: começam a
perceber as múltiplas escolhas que a vida oferece, aparece a dificuldade em
escolher e limitar essa multiplicidade e em descobrir o canal apropriado para a
expressão de sua singularidade. Esssa
questões anunciam as novas paisagens a serem descortinadas.
Nessas situações, parece que
a dinâmica de Pã é uma dinâmica iniciadora.
Seu incrustamento na vida de alguém parece dizer que algo precisa acabar
para uma outra vida poder iniciar-se. As forças genésicas se manifestam e
transformam o panorama psíquico.
Há aqui o encadeamento com um outro aspecto
importante de Pã que mais me surpreende: seu aspecto oracular. Os
intensos afetos antes apavorantes agora modulam uma nova postura. Dessa forma,
o pânico anuncia, como um oráculo, a possibilidade e necessidade de mudança.
Observei essa dinâmica acontecendo
de modo mais contundente com os usuários de maconha.
Permito-me dividir com
voces duas situações-limite que incitaram as pessoas a procurarem a análise.
Numa primeira situação, o
jovem usuário fumava maconha 2 a 3 vêzes por dia. Me procurou para análise
porque gostava de Jung.
Seus sonhos comumente apresentavam
cenas de perseguição que geravam típicas reações de ansiedade, que o
mobilizavam tanto a ponto de levá-lo a ir dormir com os pais. Devido ao
conhecido potencial das drogas desencadearem crises de ansiedade, por ativarem
núcleos afetivos inconscientes, sugeri que os sonhos pudessem ter ligação com o
uso crônico da maconha, o que foi franca e veementemente negado.
Em uma ocasião, quando o
jovem fumou seu cigarro, experimentou uma presença apavorante que lhe dizia que
ele, o jovem, teria 3 chances de fazer algo diferente, caso contrário algo
aconteceria. Na mesma semana, bebeu e fumou exageradamente e quando se
apresentou a terceira oportunidade de
fumar e beber, aconteceu o que ele chamou de vivência de horror: a mesma figura
apareceu às suas costas e o aprisionou com um abraço e ele experimentou um
terror e pânico que não conseguia controlar, e que só suavizou-se algumas horas
após o término do efeito da maconha.
Sugeri que o Pânico estava a ponto de estruturar-se se ele não re-avaliasse
sua atitude frente ao inconsciente.
Feito isso, as crises não retornaram.
Num outro jovem, a crise
começou quando usou a maconha antes da prática de um esporte radical. A crise em meio à execução do esporte poderia
tê-lo matado, não fosse o extremo controle que o jovem tinha adquirido em suas
práticas. Posteriormente, relatou que fumava maconha antes de todas as
atividades onde ele excedia o limite, e que gostava de desafiar esses limites,
insistindo sempre em alcançar um novo, e sempre em situações de risco, porque ‘dava
mais adrenalina’.
Nessas situações, fica
claro que o pânico é uma espécie de oráculo, pressagiando algo à pessoa. É interessante perceber que o pânico ao mesmo
tempo funciona como ‘um guardião das
pastagens do inconsciente’, pastagens que estão sendo visitadas de
modo desrespeitoso. Há algo de estranhamente ‘amoroso’, se é que
podemos dizer isso, nessa situação: há uma espécie de proteção à própria pessoa
em questão, que age sem saber onde está se colocando. Pã lembra-nos do limite, pois se adentrarmos
o irracional de uma forma abusiva, seremos dominados e aprisionados por ele.
Paradoxalmente, ele nos paralisa para nos proteger de nós mesmos.
Pã está associado a Dioniso, deus do êxtase e do entusiasmo, tão comum
nos estados alterados de consciência. No mito do deus Dioniso, encontramos a
experiência de terror, que acontece pouco tempo depois dos êxtases e orgias
conhecidos – as mênades ficam paralisadas pelo terror, o olhar fica estático, e
são envolvidas por terrível silêncio. O terror é um aspecto importantíssimo na
experiência numinosa.
Essa talvez seja uma bela imagem do quanto precisamos deixar a
ingenuidade e repensar que a manifestação das forças criativas pode ser
terrível experiência.
Nesse casos relatados, o
pânico apareceu para aqueles que negavam o medo associado ao limite, ou diziam-se superior a ele.
Não obstante essa vertente oracular ser clinicamente perceptível em
usuários de maconha, a encontramos também num outro enquadre: algumas pessoas
vivenciam as crises diante da enormidade da vida adulta, tarefa que lhes parece
pouco acessível. Nesses, a herança
familiar, não só paterna e materna, mas até anterior, é carregada de medo da
vida e o caminho para segurança reside em encontrar maneiras ‘normais’ de
viver, como um bom casamento, um bom emprego, etc.
Essa ‘receita’, não seria de toda má se a vocação individual não
tivesse outros planos... Então, a sensação e medo de ficar preso em um ambiente
(elevador, banheiro) revelam a contrição da alma que anseia por novas paragens,
mas que não tem força para lançar-se devido ao medo de fugir da herança
parental, pois há uma espécie de sensação de traição se abandoná-la.
Numa delas, a jovem tinha formação universitária e estava agora
prestes a seguir sua carreira, mas não conseguia, e atribuía a isso o fato de
ter pânico. A análise permitiu que ela
vislumbrasse que escolhia o caminho de um concurso público porque acreditava
que assim ‘agradaria aos pais’, pois isso lhe ofereceria segurança para o resto
da vida, uma boa aposentadoria, etc. Ficou claro que a necessidade de segurança
era um fator transgeracional muito marcante (seus antepassados eram
imigrantes). Temos aqui o desenraizamento da família de origem como um fator trans-geracional importante de ser pesquisado.
O pânico e o medo do aprisionamento eram a expressão atual de um Si-mesmo
que já vivia aprisionado, no caso não no corpo físico, mas no corpo herdado de
uma tradição familiar.
Mas, há aqueles casos em que a vivência de aprisionamento revela uma
relação preconceituosa com o corpo, preconceito onde há também certa anterioridade:
os padrões que estão relacionados ao ‘disparo’ de uma crise parecem provir de
um tempo que não é o tempo histórico da pessoa em questão, e que, no entanto, os
herdou para, quem sabe?, solucionar.
Na riqueza de sintomas e imagens que apresentam, encontramos imagens
de solidão, de impotência, de medo extremo, fantasias de que o corpo é doente
de uma forma inexplicável, há construção de defesas racionais aliadas à
necessidade de controle, há também a impossibilidade de abandonar-se aos
cuidados do outro, conjuntamente com o medo da perda e da separação, do
abandono e da solidão.
Não raro, já que as crises são mais comuns em mulheres, notamos que o
amadurecimento é mais sofrido: assumir a própria vocação, seja a profissional,
seja a emocional, a sexualidade, tudo é apavorante, e as fantasias que aparecem
é que se deixarem-se levar pelo que intuem ser o próprio desejo terão
comportamento permissivo, devasso e chocante.
Encontramos aqui a face mais conhecida de Pã: a sexualidade e a sensualidade, quando a intensidade do desejo é
apavorante.
Quando escavadas, as imagens nos levam às heranças familiares onde o
corpo, a sexualidade são tabus, não raro o corpo é fonte de doenças, câncer, no
corpo há algo que acontece e cresce sem você saber como... e a fuga e o pânico
são iguais à fuga do corpo, um querer sair de si mesmo.
Aqui é comum encontrarmos a sexualidade como o principal tabu. Mesmo
que a pessoa em questão não apresente queixas sobre a própria sexualidade, há
na história familiar relatos de tabus, segredos, envolvendo histórias de paixão
e sensualidade vivida numa época onde eram proibidas, mas a família não fala
sobre o assunto. Essa dinâmica apareceu mesclada com o medo constante de surgir
uma doença. Na situação em questão, logo que a história e os tabus puderam ser identificados
e os afetos associados foram reconhecidos, as crises retrocederam.
Aqui vemos papel do enigma e do tabu, e de tudo aquilo que não falamos,atuando
sobre a psique dos que estão chegando... Aquilo que é pressentido, mas não tem
possibilidade de ser nomeado e falado pode gerar pânico.
A fuga da Terra
Talvez a imagem mais interessante que encontrei associada ao Pânico foi
a imagem da Terra vista do espaço. A infinitude do universo, ou a Terra suspensa no
vasto escuro do infinito, desencadeavam crises de pânico.
Nesses
momentos, a pessoa se dava conta de uma ‘irracionalidade’ que fazia tremer o
chão. A pessoa sente-se tão desenraizada que a imagem da Terra vista de longe
dispara as crises.
É
interessante que a revolução sexual, a liberdade que desfrutamos, a
flexibilização das relações, a mudança dos papéis, não modificaram em nada a
dinâmica do Pânico.
Individualmente,
encontramos ainda tabus associados à sexualidade, mas tenho a impressão que
imagens contundentes como essa apontam para um aspecto mais coletivo, na
direção do poder.
Pã
representa a energia genésica e está ligado às energias de criação e reprodução
como vimos, o que nos leva a pensar que o pânico pode estar indicando uma inadequação
da consciência no que se refere aos processos criativos do qual a sexualidade
faz parte.
Sabemos
que a nossa relação desrespeitosa com a natureza desenvolveu-se quando o homem dela
se apossou para seu próprio benefício, um efeito colateral da cristandade que
atingiu grande importância na Idade Média e Renascimento: com o desenvolvimento
da razão, o homem outorgou-se o direito de ocupar e utilizar os recursos
naturais, incluindo a sexualidade, para seu próprio benefício sem pensar muito
profundamente no impacto que isso teria sobre a natureza, dentro e fora dele.
O Mito de Pã não oferece um pano de fundo que possibilite uma
abordagem direta dessa imagem onde o planeta aparece, e penso que a própria
imagem é a cena mítica moderna, após a conquista do espaço. Afinal, o desejo de ‘sair’ da Terra tornou-se
uma realidade e a imagem poderia conter alguma pista sobre a angústia, tão
característica da Síndrome de Pânico.
Nunca
compreendi muito bem essa dinâmica do Pânico com o planeta Terra, até encontrar
num texto uma reflexão maravilhosa que divido com vocês.
Hanna Arendt em seu livro “A Condição Humana” fala, em 1958:
“Em 1957, um objeto terrestre,
feito pela mão do homem, foi lançado ao universo (...). Este evento, que em
importância ultrapassa todos os outros, teria sido saudado com a mais pura
alegria não fossem suas incômodas circunstâncias militares e políticas. O
curioso, porém, é que essa alegria não foi triunfal; o que encheu o coração dos
homens(...) não foi orgulho nem assombro ante a enormidade da força e da
proficiência humanas. A reação imediata,
expressa espontaneamente, foi alívio ante o primeiro “passo para libertar o
homem de sua prisão na terra”.
“Essa estranha declaração
refletia, sem o saber, as extraordinárias palavras gravadas no obelisco fúnubre
de um dos grandes cientistas da Rússia: “A humanidade não permanecerá para
sempre presa à terra”.
“A banalidade da declaração não
deve obscurecer o fato de quão extraordinária ela é, pois embora os cristãos
tenham chamado essa terra de “vale de lágrimas” e os filósofos tenham visto o
próprio corpo do homem como a prisão da mente e da alma, ninguém na história da
humanidade jamais havia concebido a terra como prisão para o corpo dos homens
nem demonstrado tanto desejo de ir, literalmente, daqui a Lua”.
“Devem a emancipação e a
secularização da era moderna que tiveram início com um afastamento não
necessariamente de Deus, mas de um Deus que era Pai dos homens no céu, terminar
com um repúdio ainda mais funesto de uma terra que era a Mãe de todos os seres
vivos sob o firmamento?”
“A Terra é a própria
quintessência da condição humana e, ao que sabemos, sua natureza pode ser
singular no universo, a única capaz de oferecer aos seres humanos um habitat no
qual eles podem mover-se e respirar sem esforço nem artifício. O mundo –
artifício humano – separa a existência do homem de todo ambiente meramente
animal; mas a vida, em si, permanece fora desse mundo artificial, e através da
vida o homem permanece ligado a todos os outros organismos vivos.”
“Recentemente, a ciência vem-se
esforçando por tornar ‘artificial’ a própria vida, por cortar o último laço que
faz do próprio homem um filho da natureza.”
“O mesmo desejo de fugir da
prisão terrena manifesta-se na tentativa de criar a vida numa proveta, no
desejo de misturar o plasma seminal congelado de pessoas comprovadamente
capazes a fim de produzir seres humanos superiores (...).”
“Esse homem do futuro parece
motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um
dom gratuito vindo do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar por
algo produzido por ele mesmo.”[5]
“Um dom gratuito vindo do nada, que ele deseja trocar por algo
produzido por ele mesmo” – que nos permitamos saborear essa frase, lembrando
que Pã é para os gregos ‘a razão daquilo que não tem razão’. Chegamos à
irracionalidade, no mistério, e na nossa relação com ele.
Como nos relacionamos com o dom recebido? Sabemos reconhecê-lo?
Acolhemos ou rejeitamos a responsabilidade do dom recebido da vida?
Pã representa e apresenta uma espiritualidade associada à Natureza e
que não foi perdida, mas que está à sombra.
O
paganismo nunca foi uma religião e nunca existiu a não ser em contraste com o
cristianismo. Os cristãos inventaram não só o termo como o sistema, sempre em
comparação com o cristianismo.
O termo ‘pagão’ é um termo relacional que não
existe, e o pagão só existe à partir da comparação com um cristão.
A religião greca-romana é caracterizada exatamente
por sua falta de distinção, ou de um nome para si própria. Como reação à atitude cristã, tentou-se
alguma sistematização.
O conceito cristão de ‘pagão’ foi influenciado pela
tradição judaica que necessitva separar-se de outras nações para
constituir-se. Gôyîn, do hebraico, inicialmente neutra, refere-se ao
outro, ao estrangeiro, ou outra nação que não a hebraica. Adquire conotação negativa após o período do Exílio,
para designar todos que vivem fora da Lei judaica.
No Novo Testamento encontramos a palavra grega ethne, traduzida do
hebraico gôyîn, e que no Latim é gentes e gentiles – os gentios.[6]
É interessante notar uma contradição: na passagem bíblica "Caiminho a Emaús", os seguidores de Cristo conversam com um homem que é 'estranho', 'estrangeiro', sendo inclusive assim denominado. Somente depois reconhecem Cristo naquele que sumiu...
Vejamos agora, algumas características do assim chamado ‘paganismo’.
Gostaria que voces mantivessem a atenção sobre essas características, pensando
em tudo que a nossa herança coletiva judaico-cristã abafou e que pode contribuir para
nossa atual relação desbalanceada com o inconsciente:
1) " Sua principal característica é uma forte
ligação à terra, à Natureza, tida como sagrada e viva;
2) " Há um sentimento de corresponsabilidade
entre todos os membros da comunidade, ligados por laços de parentesco ou a um
ancestral comum;"
3) " Noção cíclica do tempo, a partir dos fenômenos naturais (estações do ano, lunação,
movimentos do sol,
etc), em contraste à noção linear das culturas de matriz abraâmica;"
4) " Desenvolvimento de uma medicina natural,
baseada nas qualidades curativas das ervas, e xamânica, baseada no poder fértil
da Natureza;"
5) "Adivindade se encontra na própria Natureza
(incluindo os seres humanos), manifestando-se
através dos seus fenômenos;"
6) "A ausência da noção de pecado, inferno e
mal absoluto;"
7) " Ausência de templos, o que, no entanto,
não impede a noção de sítios sagrados, em geral bosques, poços ou montanhas.
Templos Pagãos são um desenvolvimento muito posterior;"
8) " O calendário religioso se confunde com o
calendário sazonal e agrícola, o que lhe confere um carácter de fertilidade. As
festividades acontecem nos momentos de mudança e auge de ciclos naturais;"
9) " Ausência de dogmatismos ou estruturas
religiosas padronizadas, havendo, pois, uma grande liberdade individual de
culto, assim como há rituais comunitários;"
10) "A perspectiva cíclica do tempo dá a
certeza do eterno retorno."
O encontro com a Deidade se dá sempre na comunhão
com a Natureza, e não no Outro Mundo, ou seja no presente e no aqui-agora da
experiência – em outras palavras, no planeta Terra!!
- "A partir do século IV, o Cristianismo
se tornou religião oficial em Roma. A primeira proibição efectiva dos cultos
pagãos foi decretada no Império
Romano em 392.[3]"
- "Em 435 as medidas contra
o paganismo foram reforçadas com a pena de morte para quem continuasse a fazer
rituais pagãos, que envolviam sacrificios humanos e de animais.[4].
As dificuldades da Igreja ainda cresceram com as invasões bárbaras do século V.
A maioria dos invasores eram pagãos, mas verificou-se um ponto de viragem à
volta do ano 500, quando os Francos se converteram do paganismo ao
cristianismo."
- "Com a conversão dos
Lombardos arianos e dos pagãos anglo-saxónicos em 680, o cristianismo passou a
dominar quase por completo o espaço cultural da Europa ocidental."
- "Entre os habitantes do
campo e nos estratos mais baixos da sociedade, porém, o paganismo continuou de
forma mais ou menos mitigada. Os pagãos não se tornaram cristãos do dia para a
noite."
- "Os sacerdotes cristãos
passaram a cristianizar muitas festas pagãs, dando-lhes um novo sentido. A
maioria dos templos Pagãos foram sendo derrubados e no seu lugar erigidas
igrejas da nova fé. O que a Igreja não conseguia destruir das antigas práticas
religiosas, adaptava, transformando-as em práticas cristãs."
-" Durante um longo período,
houve uma fé dupla: acreditavam em Jesus, mas não abandonavam inteiramente as
suas crenças e práticas pagãs. Isso foi mais claro nas regiões germânicas onde
a influência do cristianismo faz-se sentir nas inscrições em que se nota uma
clara mistura das duas crenças quando lemos em uma mesma pedra a invocação de
proteção ao deus e, ao mesmo tempo, ao Cristo."
- "Não vamos pensar que tal
dominação ocorreu de forma pacífica ou rápida. Na verdade, a Igreja Católica
nunca conseguiu extinguir, de fato, as crenças classificadas pagãs."
- "No final do século XIV, a
perseguição aos "hereges" assumiu também a forma de perseguição a
cultos e práticas pagãs. Durante quase 400 anos, muitas pessoas morreram
acusadas de prática de bruxaria. Muitos dos acusados eram denunciados por
médicos, tentando implantar a medicina científica contra os curandeiros e
"bruxos" adeptos das medicinas naturais."
- "Desde finais do século VII
e até 1789 - ano da Revolução Francesa - o paganismo esteve
praticamente ausente nas altas esferas intelectuais e políticas do mundo
ocidental", mas não necessariamente ausente do inconsciente, como demonstraram
as duas grandes guerras mundiais, como fala Jung em seu trabalho ‘Wotan’, onde
explicita a não-completa cristianização da Europa, a projeção disso sobre os
judeus e sobre outras minorias e a consequente
prática do extermínio em massa, a outra face do pânico, “que transforma uma
nação inteira numa horde selvagem...”
Que estamos observando aqui
senão o fenômeno do comportamento em massa?
Calazans em seu artigo
sobre a influência da mídia nos movimentos de massa é tocante. Descreve como um
grupo movido por um sentimento comum passa se comportar como uma horde.
Lembremos que quando é
amigo dos homens, Pã cuida dos rebanhos e das colméias. Alguém já esteve em meio a um estouro de
boiada ou num enxame de abelhas? Ou num 'arrastão'? Onde não há uma singularidade, uma responsabilidade individual, uma consciência?
Pã é representado como aquela força presente em nossas funções subcorticais, nosso cérebro reptiliano, que quando
está no comando abole todo o livre-arbítrio, a ponto de ser uma questão
jurídica sobre a responsabilidade do ato praticado ser das pessoas ou não.
Aldoux Huxley, no mesmo artigo de Calazans, diz que esse
estado é um estado de férias para a responsabilidade de nossas vidas... Ora,
percebemos que é possível que Pã coopere com o homem, mas ele, Pã, não muda
seu modo de ser por isso.
Apesar de Plutarco ter
afirmado que Pã morreu quando Cristo nasceu, a História e a clínica mostram que
não.
Há uma lenda cristã que
apresenta a morte de Pã junto com a morte de Cristo[7]. Segundo
Otto, um deus apenas substituiu o outro, mas a divindade permanece a mesma.
Para ele, três grandes
revoluções aconteceram e mudaram o mundo num mundus saecularis, lideradas por Darwin - a Teoria da evolução - , Marx,
- a natureza social do homem - e Freud, - o Inconsciente. O homem intelectual de nosso século
divorciou-se de sua identidade de homo
religious e adotou a filosofia do não-transcendente.
“O Homem não-religioso assume uma nova situação existencial: rejeita a transcendência e insiste em se olhar como o único
agente e sujeito da História. Continua a
não aceitar qualquer outro modelo de humanidade além daquela pensada e
construída por ele mesmo. O homem
fabrica ele mesmo, e ele somente o faz na medida em que se dessacraliza e
dessacraliza a natureza. O sagrado é o principal obstáculo a sua
liberdade. Ele se tornará ele mesmo
apenas quando ele for totalmente desmitificado. Ele não se tornará livre a não
ser quando ele matar o último deus.” [8]
Se a experiência clínica
tem alguma validade na atual conjuntura econômica, política e social, podemos
dizer enfaticamente com Otto que a divindade não se modificou e que os deuses
continuam ativos, como a clínica do Pânico demonstra.
E Pã continua,
incansavelmente, a nos salvar de nós mesmos...
“Pã não morreu...”
O Deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra Aos sorrisos de Apolo Os peitos nus de Ceres— Cedo ou tarde vereis por lá aparecer O deus Pã, o imortal. Não matou outros deuses O triste deus cristão. Cristo é um deus a mais, Talvez um que faltava. Pã continua a ciar Os sons da sua flauta Aos ouvidos de Ceres Recumbente nos campos. Os deuses são os mesmos, Sempre claros e calmos, Cheios de eternidade E desprezo por nós, Trazendo o dia e a noite E as colheitas douradas Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo Mas por outro e divino Propósito casual. |
O Deus Pã não morreu Ricardo Reis, Odes
[1]Dupuy, Jean Pierre. El Panico. Edit. Gedisa,
Barcelona, 1999, pag. 30, citado por Luís Humberto H. Flórez, pag.11. http://www.javeriana.edu.co/biblos/tesis/derecho/dere5/TESIS18.pdf.
Acessada em 03/10/09
1 O “Fauno” de
Mallarmé e o mito de Pã e Siringe: olhares cruzados
entrevistas entre a representação do mito sobre a origem da flauta de Pã, Relações intermidiáticas.
www.inventario.ufba.br/07/OFaunoDeMallarme.pdf - acessado em 13/09/09
entrevistas entre a representação do mito sobre a origem da flauta de Pã, Relações intermidiáticas.
www.inventario.ufba.br/07/OFaunoDeMallarme.pdf - acessado em 13/09/09
[3]
Pessanha, J.G., Instabilidade Perpètua,
Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica na PUC de São Paulo, 2009, pag.9.
[4]
Ibid, pag. 15.
[5]
Arendt, Hanna, A Condição Humana, Forense Universitária, paginas 9 e 10.
[6] Kahlos, Maijastina, Debate and Dialogue:Christian and Pagan
Cultures c. 360-430. Ashgate Publishing,University of Helsinki, Finland.
Pag.20.
[7] Otto, Walter F.. Dionysus - Myth and Cult.Spring Publications, Dallas, Texas. Pag. 10 e notas.
[8]
Ibid, Pág. 11