domingo, 13 de maio de 2012

Algumas reflexões sobre Transtorno de Pânico


Algumas reflexões sobre o Transtorno de Pânico

Sonia Maria Marchi de Carvalho
Psiquiatra, analista membro da AGAP/IAAP
São Pedro, outubro/09

Introdução

Quando fui convidada para aqui estar e falar sobre o Pânico, vieram-me à mente vários aspectos que norteiam a nossa abordagem dessa condição extremamente ‘desagradável’ e que motiva as pessoas a procurar nossa clínica.
Invariavelmente, todas as pessoas abatidas por uma crise de pânico revelam grande sensação de fragilidade, desamparo, impotência, diante de ‘algo súbito e agudo’ que as assola tão urgentemente que vão ao pronto socorro, de onde saem sem qualquer diagnóstico médico que possa lhes dizer, ou localizar 'dentro do corpo', alguma ‘doença’.  Geralmente, escutam que não têm ‘nada’, que não estão sofrendo de um ataque do coração, que não há nada de errado com o organismo, mas talvez stress e falta de repouso. Hoje é menos freqüente que não recebam o diagnóstico de ‘crises de pânico.
As descrições das crises variam e giram em torno da sensação de morte iminente, aceleração súbita e inexplicável dos batimentos cardíacos, sudorese intensa, mal estar físico geral, que acontece mesmo durante estados de repouso. Há ainda a dificuldade em ficar sozinhos. A crises duram em média 20-30 minutos.  É comum que após algum tempo, passem a apresentar o medo antecipatório das crises. O resultado é uma condição incapacitante com conseqüente perda da autonomia e dependência.
Vejamos o que o CID-10 nos diz a respeito do transtorno de pânico.
O CID-10 entende o Pânico como um transtorno ansioso que não é desencadeado de modo exclusivo pela exposição a uma situação determinada, como acontece, por exemplo, nas fobias. O diferencial para o CID-10 é seu caráter imprevisível e não-dependente de situações que disparem as crises. Quando isso acontece, temos o pânico com agorafobia, por exemplo, crises ao sair para uma viagem de avião ou trem. As fobias todas podem desencadear crises de pânico.
Tenho me encontrado com a assim denominada Síndrome do Pânico em diferentes etapas do processo de análise: pessoas que chegam apresentando as crises e que procuram a terapia por essa razão, pessoas que já se acostumaram com as crises e já as aceitaram, e aquelas que chegam por outros motivos, e algumas pessoas que começam a desenvolver crises semelhantes ao pânico após um período de análise. Tentarei delinear uma reflexão embasada nesses encontros, sabendo que nunca conseguiremos esgotar o tema.
Há um aspecto mais coletivo do Pânico que tocarei apenas de leve, somente para sugerir futuras reflexões, aspecto esse que está ligado ao comportamento de pânico do tipo ‘reação em massa’, como as encontradas na violência, nas guerras, ou nas situações de crises econômicas, como a recentemente criada pelas especulações financeiras, e que geraram um ‘pânico’ no mercado.

Abordagem Teórica

Sabemos com Jung, que não é possível uma sistematização ‘de fora’ que explique a dinâmica que acontece em cada processo individual.  Desse modo, optamos por abordar alguns aspectos do mito e da clínica, conscientes sempre da impossibilidade de se esgotar uma condição. No dizer de Walter Otto, se explicamos um Deus é porque ele não é um deus.
Aceitamos a condição da irracionalidade. À partir do que aprendemos na clínica e com o progressivo desabrochar das dinâmicas que encontramos, com o aparecimento de algum sentido e o confronto com a necessidade de respeito à presença do grande Outro - nunca traduzido ou reduzido a uma explicação – é que comprovamos a importância de uma relação adequada com o ‘imponderável’. O imponderável parece ser a condição patognomônica contida em Pã. Somos convidados à visitação de suas paragens.  A leitura e re-leitura sempre deixarão algo em aberto, assim esperamos, fazendo justiça ao irracional.
Colocados os limites, então nos aventuramos em nossa reflexão, que se dirige mais à compreensão da atitude consciente da pessoa sofrendo do pânico do que ao irracional, aprioristicamente irredutível.
Pã é um “deus, que de acordo com o sentir dos Gregos era “a causa presente-ausente de tudo o que não tem causa, a razão daquilo que não tem razão em particular; duas totalizações paradóxicas nas quais uma coletividade pacífica se muda, subitamente, numa horde selvagem”.[1]
Com é nosso costume, procuramos na etimologia e mitologia e sabemos que ‘pânico’ é uma palavra que deriva do deus grego Pã.
Vejamos um pouco seu mito.

O Mito

Pã, a quem os gregos adoravam e chamavam de o Grande Todo, deus dos pastores e dos rebanhos.
Segundo a mitologia, Pã era filho de Hermes e da ninfa Dríope. Dizem que era tão feio ao nascer — o corpo inteiramente recoberto de pêlos, metade humano, metade bode, chifres na testa, barba e cauda — que a mãe, em desespero e medo, fugiu para bem longe. Hermes o teria levado para o Olimpo para divertimento dos deuses.
Pã freqüentava os pastos e os bosques da Arcádia e era a personificação da fertilidade e do espírito fálico e selvagem da natureza indomada. Entretanto, ocasionalmente era gentil com os homens cuidando dos rebanhos e das colméias.
Tomava parte nos festejos das ninfas dos montes e auxiliava os caçadores a encontrarem suas presas. Dizem que certa ocasião perseguiu a casta ninfa Siringe até o rio Ládon. Para fugir dos abraços de Pã, a ninfa se transformou num feixe de caniços. Como não a encontrasse, cortou os caniços e inventou a flauta de sete tubos, que desde então foi chamada com o nome da famosa virgem ou como a flauta de Pã. 

"E nos contou como, em um dia Sirinx
De Pã fugiu, temendo, apavorada.
Desventurada ninfa! Pobre Pã!
Como chorou, ao ver que conquistara
 Da brisa apenas um suspiro doce! ”       (Keats)

É de seu nome que deriva a palavra pânico, pois o irreverente deus se divertia assustando os caminhantes solitários das florestas com gritos assustadores. Embora desprezado pela maioria das divindades, quase todos os outros deuses exploravam seus poderes.
Tornou-se símbolo do mundo por ser associado à natureza e simbolizar o universo. Está associado à astúcia bestial. Pan significa TUDO e esse nome está associado à energia genésica do universo e da vida. Destituído da sensualidade primária, ele personificará o Grande Todo.
Os latinos chamavam-no também de Fauno e Silvano.
“Os faunos são figurados como gênios dos campos meio homens e meio-bodes Estes se assemelham, por sua vez, aos sátiros helênicos, demônios campestres igualmente duplos – homens-cavalos ou homens-bodes.”
“Todos esses seres costumam serem associados ao antigo deus grego Pã, também de fisionomia híbrida e relacionado à fertilidade. Amam o vinho, a dança, a música e principalmente o sexo, fatores esses que lhes permitem integrarem-se ao cortejo de Dioniso.
“Por outro lado, e contraditoriamente, tais entes detêm certo poder sobrenatural.”
“Esse poder se manifesta, por exemplo, pelos dons artísticos – como o da música e o da dança – e oraculares associados, sobretudo aos sátiros e a Pã, além de sua longevidade incomum, e pela ascendência divina que por vezes lhes é atribuída”.[2]
Em sua obra, Plutarco conta que, ao largo das ilhas do mar Egeu, nos tempos do imperador Tibério, a tripulação de um navio ouviu uma estranha voz que gritou por três vezes: "O grande Pã morreu". Em seguida, ouviram-se lamentos e gemidos. Nesse exato momento, o cristianismo nascia na Judéia.

O mito na clínica

Tentaremos agrupar alguns elementos encontrados no mito para nortear nossa reflexão com os aspectos da clínica:

- Abandono, terror e rejeição associados a sua aparência;
- Protetor dos campos e pastagens, deus da natureza;
- Quando é amigo dos homens cuida dos rebanhos e das colméias;
- Metade homem, metade animal, não pertence a uma categoria fixa;
- Provoca risos nos deuses/é usado e abusado por eles;
 - Associado à dança, à música (Flauta) e ao cortejo de Dioniso;
- Astúcia;
- Energia genésica/sexualidade/fertilidade;
- Associado à idéia de ‘TUDO’ e ‘TODO’;
- Dom oracular;
- Sua morte está associada ao final do paganismo e início do Cristianismo.

O Pânico é uma experiência numinosa, estamos diante de um evento tremendo, que faz tremer toda a base da vida da pessoa: o corpo subitamente torna-se portador de uma experiência global da irracionalidade nua e crua de ‘um outro’, estranho e aterrorizador. A eclosão do pânico é a experiência da presença absoluta do desconhecido, expressa pelo terror.
Iniciaremos nossa abordagem pelo nascimento e abandono de Pã, o terror de sua compleição física.
Ele é um choque, e é abandonado. Sabemos que aqui estamos diante da experiência arquetípica tão comum que nos mostram os mitos: o tema do abandono e a criação e educação por outros que não os genitores, no caso, pelas ninfas, a habitação nas cavernas, etc.
O fato de Pã não ser um olímpico, nem um mortal, nos coloca diante da delicada questão do não-lugar, tão bem visualizado pela sua forma, metade homem, metade animal.
Se por um lado, Pã, assim como outros seres mitológicos semelhantes , nos lembra quais intensidades nos dominam e nos denominam – os instintos e o espírito – ele também nos faz conscientes de um não-lugar, tão característico da condição existencial humana. Enquanto Pã não é nem olímpico, nem mortal, quem somos nós enquanto seres e filhos da natureza? O que exatamente inaugura a condição ímpar de sermos como somos? A que se destina? Existe algum sentido?
Em todas as situações em que me deparei com pessoas sofrendo do Pânico, observei questionamentos existenciais que as atravessavam, sem qualquer atenuação, até a completa transformação da atitude que bloqueava o funcionamento do Si-mesmo.
A filosofia trata do não-lugar como a condição sine qua non da existência humana, lugar que o filósofo Juliano Pessanha descreve com uma imagem contundente: que somos como uma aranha fixa em sua teia, cujos fios não estão fixos em lugar nenhum. As angústias e intuições associadas a esse não-lugar adquirem o caráter de crises de pânico como as descritas nos manuais.
Esse não-lugar apriorístico e condição sine qua non do ser humano, pode ser vivido de maneira ‘pior’ ou ‘melhor’ dependendo do acolhimento que a nova vida tem.
Lemos em sua tese de mestrado, que o mundo instituído ao recusar
(1)    a poesia e o estranhamento do novo que o nascimento de uma nova criança inaugura, e que rompe com a continuidade do mundo conhecido até então,
 Ou, (2) ao recusar a descoberta que essa faz do mundo recriando-o e re-inaugurando-o, deixa o Si-mesmo  ‘preso’ num lugar que não é o abismo do vácuo, e também não é o mundo, mas uma ‘fenda’. E nessa condição se perguntará como é possível a vida.
Novamente aqui, essa situação existencial adquire os contornos do pânico.
Muito semelhante a Jung, o autor sugere que se explore esse não-lugar, essa fenda, para a partir dali encontrar a história que inaugure sua vida. Segundo ele, “o homem precisa ser incitado a sair de si, a cancelar o eu e deixar-se escavar pela fenda, pelo corpo, pela terra, pelo outro, pela morte. Incitá-lo a uma outra saúde. Uma saúde ampla que hospede alteridades banidas.”[3] A alteridade banida, no caso que discutimos, é Pã.
“O humano não pertence nem só ao buraco onde não aparece e nem ao instituído onde desaparece. Entre o ser domado e o não-ser se abre a região comovida do agradecimento e do encontro.” [4]
Vejamos um pouco como a clínica vê a natureza desse encontro que no caso de Pã, não ocorreu.
Sabemos pelas teorias das relações objetais que a sensação de desamparo e a primeira experiência da gravidade vivida pelo ser humano ao nascer podem ser fatores facilitadores do desenvolvimento de crises de pânico no futuro, associadas que estão às angústias impensáveis, descritas por Winnicott.
O autor inglês descreve com detalhes a importância da relação mãe-filho, que ele denominou de holding para a formação e criação de um ‘ambiente’ que irá permitir a estruturação do psiquismo da criança e seu progressivo amadurecimento. Sabemos com Jung, que nessa etapa a mãe – definida como toda a estrutura que cuida do bebê - constela o arquétipo central do Si-mesmo.
A clínica confirma esses achados, e no relato das vivências fundantes com as figuras parentais encontramos situações que esclarecem perfeitamente essas crises.
Encontramos ‘marcas’ que ‘fundamentam’ o pânico, cuja ‘impressão’ na psique é a de súbito vácuo, memória de um momento onde uma experiência de separação e abandono foi vivida, quando o bebê ainda não possuía maturidade suficiente e se viu só diante do mundo, e paradoxo, um mundo que ainda não existia, ou seja, se viu diante do ‘nada’.
À perda da mãe, definida aqui pela perda do investimento afetivo, segue-se a instalação do traumático, e a conseqüente perda do mundo, porque a ‘constituição’ do mundo e a ‘passagem para’ o mundo, ainda não haviam sido amadurecidas.
Esse ‘tipo’ de pânico está vinculado ao horror do vácuo, ao não-lugar, pois se já não há mais a mãe, e ainda não há o bebê (enquanto unidade psicossomática) nem o mundo plenamente constituído, onde habitar? Ou melhor, quem habita? E, o que habita?
A formação do Self também acontece nos embates do instinto e sua satisfação, o que gera o repouso que possibilita a progressiva integração e formatação do ‘si-mesmo’. A satisfação incompleta, ou mal sincronizada, não permite esse estado de repouso tão necessária à formação do Si-mesmo.  É comum encontrarmos a dificuldade em relaxar e repousar nas pessoas que sofrem de crises de pânico, e pensamos que aqui há a falta é a de experimentar estados caóticos sustentados no tempo.  Essa ‘duração’ no tempo é o que permite a criação da ‘base’ que estruturará toda a personalidade, lugar para onde ela poderá futuramente ir e voltar, e vivenciar os estados caóticos sem ficar preso à agonia interminável do não-ser.
Poderíamos pensar na imagem de Pã, metade homem metade animal, como a de um Self que ainda é ‘meio alguma coisa, meio outra’ e está existencial e funcionalmente ‘preso’, ‘entre’, um mundo e outro, como sempre estaremos, mas que não está completamente formado, não completamente nascido para o mundo, e aquilo que em outros é mais ‘ameno’, nele é carne crua: experimenta o absurdo da estrutura primitiva como seu próprio corpo e pele, sentindo-se um estranho em sua própria essência, sentindo a vida como possível apenas para outros. Vida aqui definida como uma vida sem ‘crises de pânico’.
Não sabemos aqui, se o medo sentido é da vida ou da morte.
Acredito que esse tipo de pânico esteja mais associado às vivências das angústias impensáveis, primitivas, que arquetipicamente falam também do início da vida psíquica, tão turbulenta e frágil em sua condição inicial.
Dificuldades nessa fase retardam a plena constituição do Self, fazendo surgir o que Winnicott designou de falso Self e a pessoa experimenta uma constante falta de base e a sensação permanente de que pode desabar a qualquer momento.
Clinicamente, a fuga diante do filho, outro aspecto presente no mito, pode estar associada a inúmeros eventos, como um luto ou depressão na mãe e na família, no ambiente aonde chega o bebê, separação precoce, como doença ou hospitalização prolongada por parte da mãe ou do bebê, etc, situações que constelam a experiência da falta precoce de uma relação satisfatória entre mãe e filho.
Acredito que Jung e Winnicott convergem aqui sobre a importância dos fatores externos na facilitação da formação psíquica – lembramos que sem a importante e determinante ‘relação humana’, as forças arquetípicas não se humanizam, e o desenvolvimento e o amadurecimento naturais, enquanto processo de individuação, ficam prejudicados.
O abandono também pode estar apontando para uma questão arquetípica crucial: o irracional que Pã representa está fadado a ser sempre abandonado devido ao horror que provoca.  Podemos então dizer que, arquetipicamente, nós estamos fadados a responder com atitudes de fuga e rejeição a tudo aquilo que nos causa horror e temor, devido à irracionalidade mobilizada. Mesmo que não tenhamos crises de pânico como a que está descrita nos códigos internacionais de doenças, basta nos lembrarmos de reações violentas nas quais rejeitamos alguma coisa horrível para observar o fenômeno acontecendo em nós.
Nesse ponto, encontramos com outro elemento importante associado a Pã:  a energia geradora e criadora.
Como é esta experiência de nos darmos conta de geramos e somos responsáveis pelo que criamos?
No mito, a mãe de Pã, foge ao ver sua aparência grotesca.  Ela foge de seu próprio fruto.
Sem querer ampliar esse tópico para a figura humana de uma mãe, gostaria de refletir sobre nossa relação com o que criamos, não voluntariamente, mas autonomamente, nossa relação com aquilo que vem de nosso corpo, de nossos afetos, de nossos instintos, de nossos pensamentos, nossos atos, sem que o queiramos, ou seja, toda nossa produção autônoma que habita a sombra.
Díopre se espanta com o aspecto duplo de Pã, assim como nós que renegamos aquela parte grotesca de nosso ser, dizendo que não somos ou fomos nós que agimos como agimos, fenômeno tão bem descrito por  são Paulo quando diz que ‘não faz o bem que quer, mas o mal que não quer’.
A psicologia analítica é extensíssima no que se refere à necessidade de nos confrontarmos com a sombra.
Se é verdade que Pã representa para os Gregos ‘a razão do que não tem razão’, estamos fadados a sempre nos confrontarmos com o irracional. Ele impede nossa estagnação!
Tenho observado em algumas pessoas sofrendo o pânico a presença de uma rigidez intelectual disfarçada numa atitude de pseuda flexibilidade: talvez como uma forma de defesa, o psiquismo se estrutura quase que integralmente nos patamares de uma racionalidade que diz de si mesma que é ‘aberta e democrática’, mas que aprisiona o Si-mesmo numa espécie de cordialismo, não permitindo a presença de afetos dissonantes ou conflitantes a essa atitude cordial e civilizada.
Associada está uma infantilização que abruptamente  transforma-se em fúria diante de uma decepção ou frustração.
As explosões afetivas autônomas contém grau tremendo de energia que geram a própria base que a pessoa procura, mas os afetos contradizem muito o que a pessoa gosta de ser, ou de acreditar que é. Sua base, falsa, rejeita sua própria produção afetiva.
Essas explosões aparentemente não tem vínculo algum com as crises de pânico, e no entanto, as crises diminuem à medida que esses afetos são aceitos, permitindo uma expansão  do si-mesmo trazeendo um embelezamento à personalidade.
A energia criadora associada à Pã, antes restrita ao terror, manifesta-se progressivamente como uma indefinida e vaga sensação de que o que a pessoa vive é pouco: começam a perceber as múltiplas escolhas que a vida oferece, aparece a dificuldade em escolher e limitar essa multiplicidade e em descobrir o canal apropriado para a expressão de sua singularidade.  Esssa questões anunciam as novas paisagens a serem descortinadas.
Nessas situações, parece que a dinâmica de Pã é uma dinâmica iniciadora.  Seu incrustamento na vida de alguém parece dizer que algo precisa acabar para uma outra vida poder iniciar-se. As forças genésicas se manifestam e transformam o panorama psíquico.
Há  aqui o encadeamento com um outro aspecto importante de Pã que mais me surpreende: seu aspecto oracular.  Os intensos afetos antes apavorantes agora modulam uma nova postura. Dessa forma, o pânico anuncia, como um oráculo, a possibilidade e necessidade de mudança.
Observei essa dinâmica acontecendo de modo mais contundente com os usuários de maconha.
Permito-me dividir com voces duas situações-limite que incitaram as pessoas  a procurarem a análise.
Numa primeira situação, o jovem usuário fumava maconha 2 a 3 vêzes por dia. Me procurou para análise porque gostava de Jung.
Seus sonhos comumente apresentavam cenas de perseguição que geravam típicas reações de ansiedade, que o mobilizavam tanto a ponto de levá-lo a ir dormir com os pais. Devido ao conhecido potencial das drogas desencadearem crises de ansiedade, por ativarem núcleos afetivos inconscientes, sugeri que os sonhos pudessem ter ligação com o uso crônico da maconha, o que foi franca e veementemente negado.
 Em uma ocasião, quando o jovem fumou seu cigarro, experimentou uma presença apavorante que lhe dizia que ele, o jovem, teria 3 chances de fazer algo diferente, caso contrário algo aconteceria. Na mesma semana, bebeu e fumou exageradamente e quando se apresentou a  terceira oportunidade de fumar e beber, aconteceu o que ele chamou de vivência de horror: a mesma figura apareceu às suas costas e o aprisionou com um abraço e ele experimentou um terror e pânico que não conseguia controlar, e que só suavizou-se algumas horas após o término do efeito da maconha.  Sugeri que o Pânico estava a ponto de estruturar-se se ele não re-avaliasse sua atitude frente ao inconsciente.  Feito isso, as crises não retornaram.
Num outro jovem, a crise começou quando usou a maconha antes da prática de um esporte radical.  A crise em meio à execução do esporte poderia tê-lo matado, não fosse o extremo controle que o jovem tinha adquirido em suas práticas. Posteriormente, relatou que fumava maconha antes de todas as atividades onde ele excedia o limite, e que gostava de desafiar esses limites, insistindo sempre em alcançar um novo, e sempre em situações de risco, porque ‘dava mais adrenalina’.
Nessas situações, fica claro que o pânico é uma espécie de oráculo, pressagiando algo à pessoa.  É interessante perceber que o pânico ao mesmo tempo  funciona como ‘um guardião das pastagens do inconsciente’, pastagens que estão sendo visitadas de modo  desrespeitoso.  Há algo de estranhamente ‘amoroso’, se é que podemos dizer isso, nessa situação: há uma espécie de proteção à própria pessoa em questão, que age sem saber onde está se colocando.  Pã lembra-nos do limite, pois se adentrarmos o irracional de uma forma abusiva, seremos dominados e aprisionados por ele. Paradoxalmente, ele nos paralisa para nos proteger de nós mesmos.
Pã está associado a Dioniso, deus do êxtase e do entusiasmo, tão comum nos estados alterados de consciência. No mito do deus Dioniso, encontramos a experiência de terror, que acontece pouco tempo depois dos êxtases e orgias conhecidos – as mênades ficam paralisadas pelo terror, o olhar fica estático, e são envolvidas por terrível silêncio. O terror é um aspecto importantíssimo na experiência numinosa.
Essa talvez seja uma bela imagem do quanto precisamos deixar a ingenuidade e repensar que a manifestação das forças criativas pode ser terrível experiência.
Nesse casos relatados, o pânico apareceu para aqueles que negavam o medo associado ao  limite, ou diziam-se superior a ele.
Não obstante essa vertente oracular ser clinicamente perceptível em usuários de maconha, a encontramos também num outro enquadre: algumas pessoas vivenciam as crises diante da enormidade da vida adulta, tarefa que lhes parece pouco acessível.  Nesses, a herança familiar, não só paterna e materna, mas até anterior, é carregada de medo da vida e o caminho para segurança reside em encontrar maneiras ‘normais’ de viver, como um bom casamento, um bom emprego, etc.
Essa ‘receita’, não seria de toda má se a vocação individual não tivesse outros planos... Então, a sensação e medo de ficar preso em um ambiente (elevador, banheiro) revelam a contrição da alma que anseia por novas paragens, mas que não tem força para lançar-se devido ao medo de fugir da herança parental, pois há uma espécie de sensação de traição se abandoná-la.
Numa delas, a jovem tinha formação universitária e estava agora prestes a seguir sua carreira, mas não conseguia, e atribuía a isso o fato de ter pânico.  A análise permitiu que ela vislumbrasse que escolhia o caminho de um concurso público porque acreditava que assim ‘agradaria aos pais’, pois isso lhe ofereceria segurança para o resto da vida, uma boa aposentadoria, etc. Ficou claro que a necessidade de segurança era um fator transgeracional muito marcante (seus antepassados eram imigrantes). Temos aqui o desenraizamento da família de origem como um fator trans-geracional importante de ser pesquisado.
 trans-geracional Essa pessoa optou por seguir uma antiga vocação e re-estruturou sua vida nesse novo e antigo desejo, e as crises desapareceram.
O pânico e o medo do aprisionamento eram a expressão atual de um Si-mesmo que já vivia aprisionado, no caso não no corpo físico, mas no corpo herdado de uma tradição familiar.
Mas, há aqueles casos em que a vivência de aprisionamento revela uma relação preconceituosa com o corpo, preconceito onde há também certa anterioridade: os padrões que estão relacionados ao ‘disparo’ de uma crise parecem provir de um tempo que não é o tempo histórico da pessoa em questão, e que, no entanto, os herdou para, quem sabe?, solucionar.
Na riqueza de sintomas e imagens que apresentam, encontramos imagens de solidão, de impotência, de medo extremo, fantasias de que o corpo é doente de uma forma inexplicável, há construção de defesas racionais aliadas à necessidade de controle, há também a impossibilidade de abandonar-se aos cuidados do outro, conjuntamente com o medo da perda e da separação, do abandono e da solidão.
Não raro, já que as crises são mais comuns em mulheres, notamos que o amadurecimento é mais sofrido: assumir a própria vocação, seja a profissional, seja a emocional, a sexualidade, tudo é apavorante, e as fantasias que aparecem é que se deixarem-se levar pelo que intuem ser o próprio desejo terão comportamento permissivo, devasso e chocante.
Encontramos aqui a face mais conhecida de Pã: a sexualidade e a sensualidade, quando a intensidade do desejo é apavorante.
Quando escavadas, as imagens nos levam às heranças familiares onde o corpo, a sexualidade são tabus, não raro o corpo é fonte de doenças, câncer, no corpo há algo que acontece e cresce sem você saber como... e a fuga e o pânico são iguais à fuga do corpo, um querer sair de si mesmo.
Aqui é comum encontrarmos a sexualidade como o principal tabu. Mesmo que a pessoa em questão não apresente queixas sobre a própria sexualidade, há na história familiar relatos de tabus, segredos, envolvendo histórias de paixão e sensualidade vivida numa época onde eram proibidas, mas a família não fala sobre o assunto. Essa dinâmica apareceu mesclada com o medo constante de surgir uma doença. Na situação em questão, logo que a história e os tabus puderam ser identificados e os afetos associados foram reconhecidos, as crises retrocederam.
Aqui vemos papel do enigma e do tabu, e de tudo aquilo que não falamos,atuando sobre a psique dos que estão chegando... Aquilo que é pressentido, mas não tem possibilidade de ser nomeado e falado pode gerar pânico.

A fuga da Terra

Talvez a imagem mais interessante que encontrei associada ao Pânico foi a imagem da Terra vista do espaço. A infinitude do universo, ou a Terra suspensa no vasto escuro do infinito, desencadeavam crises de pânico.
Nesses momentos, a pessoa se dava conta de uma ‘irracionalidade’ que fazia tremer o chão. A pessoa sente-se tão desenraizada que a imagem da Terra vista de longe dispara as crises.
É interessante que a revolução sexual, a liberdade que desfrutamos, a flexibilização das relações, a mudança dos papéis, não modificaram em nada a dinâmica do Pânico.
Individualmente, encontramos ainda tabus associados à sexualidade, mas tenho a impressão que imagens contundentes como essa apontam para um aspecto mais coletivo, na direção do poder.
Pã representa a energia genésica e está ligado às energias de criação e reprodução como vimos, o que nos leva a pensar que o pânico pode estar indicando uma inadequação da consciência no que se refere aos processos criativos do qual a sexualidade faz parte.
Sabemos que a nossa relação desrespeitosa com a natureza desenvolveu-se quando o homem dela se apossou para seu próprio benefício, um efeito colateral da cristandade que atingiu grande importância na Idade Média e Renascimento: com o desenvolvimento da razão, o homem outorgou-se o direito de ocupar e utilizar os recursos naturais, incluindo a sexualidade, para seu próprio benefício sem pensar muito profundamente no impacto que isso teria sobre a natureza, dentro e fora dele.
O Mito de Pã não oferece um pano de fundo que possibilite uma abordagem direta dessa imagem onde o planeta aparece, e penso que a própria imagem é a cena mítica moderna, após a conquista do espaço.  Afinal, o desejo de ‘sair’ da Terra tornou-se uma realidade e a imagem poderia conter alguma pista sobre a angústia, tão característica da Síndrome de Pânico.
Nunca compreendi muito bem essa dinâmica do Pânico com o planeta Terra, até encontrar num texto uma reflexão maravilhosa que divido com vocês.
Hanna Arendt em seu livro “A Condição Humana” fala, em 1958:

“Em 1957, um objeto terrestre, feito pela mão do homem, foi lançado ao universo (...). Este evento, que em importância ultrapassa todos os outros, teria sido saudado com a mais pura alegria não fossem suas incômodas circunstâncias militares e políticas. O curioso, porém, é que essa alegria não foi triunfal; o que encheu o coração dos homens(...) não foi orgulho nem assombro ante a enormidade da força e da proficiência humanas.  A reação imediata, expressa espontaneamente, foi alívio ante o primeiro “passo para libertar o homem de sua prisão na terra”.
“Essa estranha declaração refletia, sem o saber, as extraordinárias palavras gravadas no obelisco fúnubre de um dos grandes cientistas da Rússia: “A humanidade não permanecerá para sempre presa à terra”.
“A banalidade da declaração não deve obscurecer o fato de quão extraordinária ela é, pois embora os cristãos tenham chamado essa terra de “vale de lágrimas” e os filósofos tenham visto o próprio corpo do homem como a prisão da mente e da alma, ninguém na história da humanidade jamais havia concebido a terra como prisão para o corpo dos homens nem demonstrado tanto desejo de ir, literalmente, daqui a Lua”.
“Devem a emancipação e a secularização da era moderna que tiveram início com um afastamento não necessariamente de Deus, mas de um Deus que era Pai dos homens no céu, terminar com um repúdio ainda mais funesto de uma terra que era a Mãe de todos os seres vivos sob o firmamento?”
“A Terra é a própria quintessência da condição humana e, ao que sabemos, sua natureza pode ser singular no universo, a única capaz de oferecer aos seres humanos um habitat no qual eles podem mover-se e respirar sem esforço nem artifício. O mundo – artifício humano – separa a existência do homem de todo ambiente meramente animal; mas a vida, em si, permanece fora desse mundo artificial, e através da vida o homem permanece ligado a todos os outros organismos vivos.”
“Recentemente, a ciência vem-se esforçando por tornar ‘artificial’ a própria vida, por cortar o último laço que faz do próprio homem um filho da natureza.”
“O mesmo desejo de fugir da prisão terrena manifesta-se na tentativa de criar a vida numa proveta, no desejo de misturar o plasma seminal congelado de pessoas comprovadamente capazes a fim de produzir seres humanos superiores (...).”
“Esse homem do futuro parece motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um dom gratuito vindo do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar por algo produzido por ele mesmo.”[5]

“Um dom gratuito vindo do nada, que ele deseja trocar por algo produzido por ele mesmo” – que nos permitamos saborear essa frase, lembrando que Pã é para os gregos ‘a razão daquilo que não tem razão’. Chegamos à irracionalidade, no mistério, e na nossa relação com ele.
Como nos relacionamos com o dom recebido? Sabemos reconhecê-lo? Acolhemos ou rejeitamos a responsabilidade do dom recebido da vida?
Pã representa e apresenta uma espiritualidade associada à Natureza e que não foi perdida, mas que está à sombra.
O paganismo nunca foi uma religião e nunca existiu a não ser em contraste com o cristianismo. Os cristãos inventaram não só o termo como o sistema, sempre em comparação com o cristianismo.
O termo ‘pagão’ é um termo relacional que não existe, e o pagão só existe à partir da comparação com um cristão.
A religião greca-romana é caracterizada exatamente por sua falta de distinção, ou de um nome para si própria.  Como reação à atitude cristã, tentou-se alguma sistematização.
O conceito cristão de ‘pagão’ foi influenciado pela tradição judaica que necessitva separar-se de outras nações para constituir-se.  Gôyîn, do hebraico, inicialmente neutra, refere-se ao outro, ao estrangeiro, ou outra nação que não a hebraica. Adquire  conotação negativa após o período do Exílio, para designar todos que vivem fora da Lei judaica.
No Novo Testamento encontramos  a palavra grega ethne, traduzida do hebraico gôyîn, e que no Latim é gentes e gentiles – os gentios.[6]
 É interessante notar uma contradição: na passagem bíblica "Caiminho a Emaús", os seguidores de Cristo conversam com um homem que é 'estranho', 'estrangeiro', sendo inclusive assim denominado. Somente depois reconhecem Cristo naquele que sumiu... 
Vejamos agora, algumas características do assim chamado ‘paganismo’. Gostaria que voces mantivessem a atenção sobre essas características, pensando em tudo que a nossa herança coletiva judaico-cristã abafou e que pode contribuir para nossa atual relação desbalanceada com o inconsciente:

1)     " Sua principal característica é uma forte ligação à terra, à Natureza, tida como sagrada e viva;
2)    "  Há um sentimento de corresponsabilidade entre todos os membros da comunidade, ligados por laços de parentesco ou a um ancestral comum;"
3)     " Noção cíclica do tempo, a partir dos fenômenos naturais (estações do ano, lunação, movimentos do sol, etc), em contraste à noção linear das culturas de matriz abraâmica;"
4)    "  Desenvolvimento de uma medicina natural, baseada nas qualidades curativas das ervas, e xamânica, baseada no poder fértil da Natureza;"
5)      "Adivindade se encontra na própria Natureza (incluindo os seres  humanos), manifestando-se através dos seus fenômenos;"
6)      "A ausência da noção de pecado, inferno e mal absoluto;"
7)     " Ausência de templos, o que, no entanto, não impede a noção de sítios sagrados, em geral bosques, poços ou montanhas. Templos Pagãos são um desenvolvimento muito posterior;"
8)   " O calendário religioso se confunde com o calendário sazonal e agrícola, o que lhe confere um carácter de fertilidade. As festividades acontecem nos momentos de mudança e auge de ciclos naturais;"
9)   " Ausência de dogmatismos ou estruturas religiosas padronizadas, havendo, pois, uma grande liberdade individual de culto, assim como há rituais comunitários;"
10)   "A perspectiva cíclica do tempo dá a certeza do eterno retorno."

 O encontro com a Deidade se dá sempre na comunhão com a Natureza, e não no Outro Mundo, ou seja no presente e no aqui-agora da experiência – em outras palavras, no planeta Terra!!

- "A partir do século IV, o Cristianismo se tornou religião oficial em Roma. A primeira proibição efectiva dos cultos pagãos foi decretada no Império Romano em 392.[3]"
- "Em 435 as medidas contra o paganismo foram reforçadas com a pena de morte para quem continuasse a fazer rituais pagãos, que envolviam sacrificios humanos e de animais.[4]. As dificuldades da Igreja ainda cresceram com as invasões bárbaras do século V. A maioria dos invasores eram pagãos, mas verificou-se um ponto de viragem à volta do ano 500, quando os Francos se converteram do paganismo ao cristianismo."
- "Com a conversão dos Lombardos arianos e dos pagãos anglo-saxónicos em 680, o cristianismo passou a dominar quase por completo o espaço cultural da Europa ocidental."
- "Entre os habitantes do campo e nos estratos mais baixos da sociedade, porém, o paganismo continuou de forma mais ou menos mitigada. Os pagãos não se tornaram cristãos do dia para a noite."
- "Os sacerdotes cristãos passaram a cristianizar muitas festas pagãs, dando-lhes um novo sentido. A maioria dos templos Pagãos foram sendo derrubados e no seu lugar erigidas igrejas da nova fé. O que a Igreja não conseguia destruir das antigas práticas religiosas, adaptava, transformando-as em práticas cristãs."
-" Durante um longo período, houve uma fé dupla: acreditavam em Jesus, mas não abandonavam inteiramente as suas crenças e práticas pagãs. Isso foi mais claro nas regiões germânicas onde a influência do cristianismo faz-se sentir nas inscrições em que se nota uma clara mistura das duas crenças quando lemos em uma mesma pedra a invocação de proteção ao deus e, ao mesmo tempo, ao Cristo."
- "Não vamos pensar que tal dominação ocorreu de forma pacífica ou rápida. Na verdade, a Igreja Católica nunca conseguiu extinguir, de fato, as crenças classificadas pagãs."
- "No final do século XIV, a perseguição aos "hereges" assumiu também a forma de perseguição a cultos e práticas pagãs. Durante quase 400 anos, muitas pessoas morreram acusadas de prática de bruxaria. Muitos dos acusados eram denunciados por médicos, tentando implantar a medicina científica contra os curandeiros e "bruxos" adeptos das medicinas naturais."
- "Desde finais do século VII e até 1789 - ano da Revolução Francesa - o paganismo esteve praticamente ausente nas altas esferas intelectuais e políticas do mundo ocidental", mas não necessariamente ausente do inconsciente, como demonstraram as duas grandes guerras mundiais, como fala Jung em seu trabalho ‘Wotan’, onde explicita a não-completa cristianização da Europa, a projeção disso sobre os judeus e sobre  outras minorias e a consequente prática do extermínio em massa, a outra face do pânico, “que transforma uma nação inteira numa horde selvagem...”

Que estamos observando aqui senão o fenômeno do comportamento em massa?
Calazans em seu artigo sobre a influência da mídia nos movimentos de massa é tocante. Descreve como um grupo movido por um sentimento comum passa se comportar como uma horde.
Lembremos que quando é amigo dos homens, Pã cuida dos rebanhos e das colméias.  Alguém já esteve em meio a um estouro de boiada ou num enxame de abelhas? Ou num 'arrastão'? Onde não há uma singularidade, uma responsabilidade individual, uma consciência? 
Pã é representado como aquela força presente em nossas funções subcorticais, nosso cérebro reptiliano, que quando está no comando abole todo o livre-arbítrio, a ponto de ser uma questão jurídica sobre a responsabilidade do ato praticado ser das pessoas ou não.
Aldoux Huxley, no mesmo artigo de Calazans, diz que esse estado é um estado de férias para a responsabilidade de nossas vidas... Ora, percebemos que é possível que Pã coopere com o homem, mas ele, Pã, não muda seu modo de ser por isso.
Apesar de Plutarco ter afirmado que Pã morreu quando Cristo nasceu, a História e a clínica mostram que não.
Há uma lenda cristã que apresenta a morte de Pã junto com a morte de Cristo[7]. Segundo Otto, um deus apenas substituiu o outro, mas a divindade permanece a mesma.
Para ele, três grandes revoluções aconteceram e mudaram o mundo num mundus saecularis, lideradas por Darwin - a Teoria da evolução - , Marx, - a natureza social do homem - e Freud, - o Inconsciente.   O homem intelectual de nosso século divorciou-se de sua identidade de homo religious e adotou a filosofia do não-transcendente.

“O Homem não-religioso assume uma nova situação existencial: rejeita  a transcendência e insiste em se olhar como o único agente e sujeito da História.  Continua a não aceitar qualquer outro modelo de humanidade além daquela pensada e construída por ele mesmo.  O homem fabrica ele mesmo, e ele somente o faz na medida em que se dessacraliza e dessacraliza a natureza. O sagrado é o principal obstáculo a sua liberdade.  Ele se tornará ele mesmo apenas quando ele for totalmente desmitificado. Ele não se tornará livre a não ser quando ele matar o último deus.” [8]

Se a experiência clínica tem alguma validade na atual conjuntura econômica, política e social, podemos dizer enfaticamente com Otto que a divindade não se modificou e que os deuses continuam ativos, como a clínica do Pânico demonstra.
E Pã continua, incansavelmente, a nos salvar de nós mesmos...

 “Pã não morreu...” 
O Deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres—
Cedo ou tarde vereis
por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais,
Talvez um que faltava.
Pã continua a ciar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual. 

                                               O Deus Pã não morreu Ricardo Reis, Odes

                                              
                                          


[1]Dupuy, Jean Pierre. El Panico. Edit. Gedisa, Barcelona, 1999, pag. 30, citado por Luís Humberto H. Flórez, pag.11.  http://www.javeriana.edu.co/biblos/tesis/derecho/dere5/TESIS18.pdf. Acessada em 03/10/09
1 O “Fauno” de Mallarmé e o mito de Pã e Siringe: olhares cruzados
entrevistas entre a representação do mito sobre a origem da flauta de , Relações intermidiáticas.
www.inventario.ufba.br/07/OFaunoDeMallarme.pdf -
acessado em 13/09/09

[3] Pessanha, J.G., Instabilidade Perpètua, Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica na PUC de São Paulo, 2009, pag.9.
[4] Ibid, pag. 15.
[5] Arendt, Hanna, A Condição Humana, Forense Universitária, paginas 9 e 10.
[6] Kahlos, Maijastina, Debate and Dialogue:Christian and Pagan Cultures c. 360-430. Ashgate Publishing,University of Helsinki, Finland. Pag.20.
[7] Otto, Walter F.. Dionysus - Myth and Cult.Spring Publications, Dallas, Texas. Pag. 10 e notas.
[8] Ibid, Pág. 11