segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Tempo e a Alquimia


O Tempo e a Alquimia

Descrito ora como  devorador, em seu aspecto de Kronos, ora como momento oportuno, Kairos , o Tempo sempre fascinou e desafiou quem dele se aproxima.

A música abaixo, de Caetano Veloso, não é à toa chamada de ‘Oração ao Tempo’ – é necessário que tenhamos uma atitude devotada ao encontrar tão grande mistério a nos rodear.

Olhe as frutas no quintal. Duras e literalmente verdes, amadurecem devagar, e acompanhamos sua maturação pelas cores que vão adquirindo: amarelo, rosa, vermelho, no caso, por exemplo, do caju.

Adquirem mais sabor com o passar do tempo, adocicado, e estão prontas para serem comidas: é sua estação!

Tempo gestacional: uma nova vida se prepara, se forma e, no tempo das águas que correm, está pronta para vir ao mundo. Grita que chegou!

O Tempo revela o movimento de um estado para outro - uma transformação? – mostra o trânsito daquilo que chamamos ‘vida’.

 Existem frutos que ficam verdes e duros durante toda estação, nunca são apanhados e comidos, sua casca voltando a terra, sobras para os passarinhos, sementes germinadas nos fios de alta tensão. O Tempo está em todo lugar.

Alguns frutos ficam amadurecidos no pé, são devorados por bichos, outros caem no chão sem serem vistos, apodrecem e fertilizam a terra. Nessa hora são marrons, um vermelho que já foi, fim de outono, começo do fim, início de uma outra coisa.

Quando canta, o poeta faz um pedido, quer mais tempo, a tempo de ver a estação crescer e passar?

A marcação do tempo: alguém toca música, você sabe o ritmo que possui? Um ritmo que desenha o destino, a marcação do tempo, a entrada no aqui e agora. A fixatio.

Entrar em acordo com o Tempo e respeitar suas estações, será que ainda tenho essa obediência, ou na pressa de meus anseios atropelo os refrões que me compõem?

É o Tempo quem define a cor, quem dá luz ao que está dentro, que é transparente em si mesmo, deixando a cor brilhar para anunciar o fruto. São os outros que lhe provam o gosto.

Doce, amargo, azedo, salgado, amarrento, fiapento, ácido, saboroso, delicioso, gostoso, no ponto, um pouco verde, apimentado, passado, estragado... Todos, sinais do Tempo.

E a mim? Qual minha relação com todos esses sabores, cores, amores, que amadurecem, às vezes não, com a passagem dos anos?

Fotografias amareladas, a prata que fixou para sempre o momento que passou. 

E nunca se sabe o que de novo virá da estação. Sabe-se apenas que é tempo de morangos! A safra do vinho promete! A chuva foi farta para o suco! Ou não foi safra propícia...

“Tambor de todos os ritmos”, não permanece num  mesmo (mono)tom! 

Como o coração, é irregular na regularidade, e quando pára, o seu som é único som, o de uma linha reta, um contínuo: morreu, não tem mais altos e baixos...

Um coração que ‘não bate, nem apanha’, perdeu seu ritmo, está descompassado, e por isso pede socorro. Está fora do Tempo. Arritmia: tambor que bate sem compor.

A 'oração do coração' nos pede que o Tempo seja sentido como dádiva e não como algo à vencer.

Tempo para sentir, tempo que direciona e amadurece uma resposta, uma atitude, o ser.

Não é a toa que para os antigos a ‘pressa’ era vista como vindo do diabo, do coisa-ruim. 

Obedecer a a pressa retira todo o saborear, o sentir o Tempo com todos os seus matizes e nuances de cores e sabores. 

O Tempo assim adquire sua pior face: a da velocidade excessiva. Tudo fica insosso.

Que eu saiba viver no Tempo, que eu saiba deixar o Tempo correr, que eu saiba me misturar com ele, até virar única com ele, até sumir...

“Que eu espalhe benefícios”, que outros possam se nutrir de mim. 

Canibalismo ao contrário, vida que gera vida, destino de todos e de cada um.

         Oração ao Tempo

            Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...