O Tempo e a Alquimia
Descrito ora
como devorador, em seu aspecto de Kronos, ora como momento oportuno, Kairos
, o Tempo sempre fascinou e desafiou quem dele se aproxima.
A música
abaixo, de Caetano Veloso, não é à toa chamada de ‘Oração ao Tempo’ – é necessário que tenhamos uma atitude devotada ao encontrar tão grande mistério a nos
rodear.
Olhe as
frutas no quintal. Duras e literalmente verdes, amadurecem devagar, e
acompanhamos sua maturação pelas cores que vão adquirindo: amarelo, rosa,
vermelho, no caso, por exemplo, do caju.
Adquirem mais sabor com o passar do tempo, adocicado, e estão prontas para serem comidas: é sua estação!
Adquirem mais sabor com o passar do tempo, adocicado, e estão prontas para serem comidas: é sua estação!
Tempo
gestacional: uma nova vida se prepara, se forma e, no tempo das águas que
correm, está pronta para vir ao mundo. Grita que chegou!
O Tempo
revela o movimento de um estado para outro - uma transformação? – mostra o
trânsito daquilo que chamamos ‘vida’.
Existem frutos que ficam verdes e duros
durante toda estação, nunca são apanhados e comidos, sua casca voltando a terra,
sobras para os passarinhos, sementes germinadas nos fios de alta tensão. O
Tempo está em todo lugar.
Alguns
frutos ficam amadurecidos no pé, são devorados por bichos, outros caem no chão
sem serem vistos, apodrecem e fertilizam a terra. Nessa hora são marrons, um
vermelho que já foi, fim de outono, começo do fim, início de uma outra coisa.
Quando
canta, o poeta faz um pedido, quer mais tempo, a tempo de ver a estação crescer
e passar?
A marcação
do tempo: alguém toca música, você sabe o ritmo que possui? Um ritmo que desenha o
destino, a marcação do tempo, a entrada no aqui e agora. A fixatio.
Entrar em
acordo com o Tempo e respeitar suas estações, será que ainda tenho essa
obediência, ou na pressa de meus anseios atropelo os refrões que me compõem?
É o Tempo
quem define a cor, quem dá luz ao que está dentro, que é transparente em si
mesmo, deixando a cor brilhar para anunciar o fruto. São os outros que lhe
provam o gosto.
Doce,
amargo, azedo, salgado, amarrento, fiapento, ácido, saboroso, delicioso,
gostoso, no ponto, um pouco verde, apimentado, passado, estragado... Todos, sinais
do Tempo.
E a mim?
Qual minha relação com todos esses sabores, cores, amores, que amadurecem, às vezes não, com a passagem dos anos?
Fotografias
amareladas, a prata que fixou para sempre o momento que passou.
E nunca se sabe o que de novo virá da estação. Sabe-se apenas que é tempo de morangos! A safra do vinho promete! A chuva foi farta para o suco! Ou não foi safra propícia...
E nunca se sabe o que de novo virá da estação. Sabe-se apenas que é tempo de morangos! A safra do vinho promete! A chuva foi farta para o suco! Ou não foi safra propícia...
“Tambor de
todos os ritmos”, não permanece num mesmo (mono)tom!
Como o coração, é irregular na regularidade, e quando pára, o seu som é único som, o de uma linha reta, um contínuo: morreu, não tem mais altos e baixos...
Como o coração, é irregular na regularidade, e quando pára, o seu som é único som, o de uma linha reta, um contínuo: morreu, não tem mais altos e baixos...
Um coração
que ‘não bate, nem apanha’, perdeu seu ritmo, está descompassado, e por isso
pede socorro. Está fora do Tempo. Arritmia: tambor que bate sem compor.
A 'oração do
coração' nos pede que o Tempo seja sentido como dádiva e não como algo à vencer.
Tempo para sentir, tempo que direciona e amadurece uma resposta, uma atitude, o ser.
Tempo para sentir, tempo que direciona e amadurece uma resposta, uma atitude, o ser.
Não é a toa
que para os antigos a ‘pressa’ era vista como vindo do diabo, do coisa-ruim.
Obedecer a a pressa retira todo o saborear, o sentir o Tempo com todos os seus matizes e nuances de cores e sabores.
O Tempo assim adquire sua pior face: a da velocidade excessiva. Tudo fica insosso.
Que eu saiba viver no Tempo, que eu saiba deixar o Tempo correr, que eu saiba me misturar com ele, até virar única com ele, até sumir...
“Que eu espalhe benefícios”, que outros possam se nutrir de mim.
Canibalismo ao contrário, vida que gera vida, destino de todos e de cada um.
Obedecer a a pressa retira todo o saborear, o sentir o Tempo com todos os seus matizes e nuances de cores e sabores.
O Tempo assim adquire sua pior face: a da velocidade excessiva. Tudo fica insosso.
Que eu saiba viver no Tempo, que eu saiba deixar o Tempo correr, que eu saiba me misturar com ele, até virar única com ele, até sumir...
“Que eu espalhe benefícios”, que outros possam se nutrir de mim.
Canibalismo ao contrário, vida que gera vida, destino de todos e de cada um.
Oração ao Tempo
Caetano
Veloso
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...