A Fotografia em dois tempos: Henri Cartier Bresson e Diane Arbus
Sonia Maria Marchi de Carvalho, Arquitec 5N - Março/2008
“Aprendo
a ver. Sim, estou no começo. Ainda vai mal. Mas quero dedicar a isso meu tempo”.
R. M. Rilke
O filme grego “Noivas” tem em Norman
uma de suas personagens principais: fotógrafo, teve suas fotos recusadas por um
jornal por serem ‘muito pessoais’ já que o momento de guerra pedia fotos mais sensacionalistas,
menos poéticas, ou que levassem a sentir e pensar a guerra. Desiludido, Norman decide abandonar a
fotografia e retornar aos EUA. No navio
encontra Niki e as outras ‘noivas’, que estão indo para América para casar com
alguém que nunca viram. Niki vê as fotos de Norman e o Amor
devolve-lhe o dom: ele fotografa as mulheres (700?), da terceira classe do navio, em seus vestidos de noiva. Norman recupera seu registro de mundo e, ao chegar aos
EUA, publica as fotos, denunciando o drama vivido por elas.
Conto essa história porque esse
filme reacendeu o impulso de me aventurar na fotografia: ao vê-lo olhando as
cenas das crianças junto à ‘Árvore dos Desejos’, seu contato amoroso com a realidade
que observava, e fixava através câmera, constatei uma linguagem cujo significado
etimológico diz tudo: a grafia da luz! Lugar
de poesia, onde olhar e coração têm passagem comum e silenciosa. Nada mais eloqüente e silencioso que uma
fotografia! Eu que sempre adorei o
silêncio, e também a comunhão com o mundo, pensei - “Eis um canal!”.
Falar sobre mestres da fotografia
requer humildade! Vamos ver se consigo
‘brincar’ com as imagens, lembrando que todo testemunho é um pouco um
testemunho de si mesmo!
Henri
Cartier Bresson
"A gente olha e pensa: Quando aperto? Agora?
Agora? Agora? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo,
tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo ou o perdemos, e não
podemos recomeçar. O desenho é uma meditação, enquanto que a foto é um tiro.
Você pode apagar um desenho e fazer outro, você não está lutando contra o
tempo. Mas, com a fotografia, há uma espécie de angústia constante, pelo fato
de você estar presente em um momento que não mais se repetirá. Mas é uma
angústia muito calma”.
Behind the Gare Saint Lazare,1932.
Essa foto me impressionou pelo
momento mágico que Bresson conseguiu capturar: o toque do pé no chão. A impressão que tenho é que a cena foi
congelada, segundos antes da água se turvar, o que alteraria o espelho
natural!
O céu refletido dá a impressão que o
homem ‘salta’ para essa imensidão especular, um paralelo do mundo concreto da
cidade, que ali, também refletida na água, compõe o pano de fundo.
Há uma tensão e expectativa que une
o lúdico com o desconhecido: do salto leve, mergulhará ele na água ou no
céu? Há a sugestão de um caminhar que
seguirá solto no espaço, assim como a impressão de que ele afundará dentro de -
um lago?
‘Caminhar’, metáfora do viver,
revela aqui seus prazeres, riscos, suas surpresas, seus espelhamentos...
Não tenho dúvida que poder captar as dimensões
da existência era atividade extremamente lúdica para Bresson. Um simples dia de
chuva e suas poças transformam-se, em suas mãos, numa oportunidade de se pensar
nosso viver!
Essa imagem me remeteu a outro
espelho, o “Mar Português”, de Fernando Pessoa:
“...
Quem quer passar além do Bojador
Tem
que passar além da dor.
Deus
ao mar perigo e o abismo deu,
“Mas
nele é que espelhou o céu”.
Adorei essa foto! Acho que foi por isso que a escolhi para
iniciar esse exercício...
Arizona, 1947
A paisagem dessa foto é a vastidão
do deserto americano, lugar de passagem da famosa rota 66 e de todo o
imaginário que o cinema explorou.
O deserto está presente nos mais antigos westerns e em outros filmes que marcaram
época como: ‘Easy Rider’, ‘Paris, Texas’,
‘Thelma and Louise’, e mais recentemente, ‘No country for Old Man’. Em
todos os filmes, a paisagem inóspita é uma personagem vital, compõe a história
e a alma americana.
Selvagem e de difícil ocupação, o
deserto é local de liberdade, oportunidade de solidão, lugar para o que
quisermos de bom e de mau, lugar de arbítrio. É lugar de desafio: sua travessia
é um longo teste de resistência e de sobrevivência, biológica e ética. É lugar de encontro com o desconhecido de nós
mesmos. Como o próprio nome parece sugerir – ari-zona – estamos no árido!
“Mesmo sem aparecer ninguém, ou
exatamente por isso, é a solidão que corta essas paisagens, e não poderia ser diferente já que em um país tão grande como os
Estados Unidos, tanto espaço, é esse desamparo o que
mais comove. Os EUA, país com grande carga simbólica, onde sempre foi fácil criar lendas e forjar ícones, desde sua
independência, e até antes, conseguiu atrair diversos povos em troca de um
admirável mundo novo com trabalho, dinheiro e promessas. Essas esperanças e as
conseqüentes desilusões são o motor principal de todo o imaginário americano”. [1]
No primeiro plano, encontramos o
automóvel, mais novo que o trem, porém despedaçado. Logo atrás, mais destroços e, ao fundo, vemos
o trem vencendo as distâncias de maneira destemida e objetiva, num ‘non-stop
movement’.
Sua linha contínua é paralela à do
horizonte mais além: somos convidados a olhar um ‘horizonte que se move’, da
esquerda para a direita, ao invés do ‘apenas’ e natural ‘olhar à frente’, como
espontaneamente acontece quando olhamos o horizonte. Ao invés de uma contemplação natural e
pacífica da natureza, somos remetidos ao horizonte dinâmico da civilização e ao
avanço da tecnologia que tanto caracterizaria os EUA nas décadas posteriores a
essa foto.
Mas, não podemos esquecer que
Bresson é europeu e vê as coisas de
um ângulo diferente. Há um quê de ironia a respeito das vantagens e superioridade da tecnologia, portanto do homem,
sobre a natureza.
Completamente destroçado e no
primeiro plano da foto, o estado do carro sugere que o Tempo vence até as mais
avançadas e refinadas invenções humanas, enquanto que o deserto sobrevive ao
carro, ele permanecerá...
Só o trem avança contra o Tempo,
esse inexorável... Quem é ele?
E me lembro de Raul Seixas:
“Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão
Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar
Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons
Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral
Amém”.
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão
Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar
Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons
Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral
Amém”.
“Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se... ofende os que desejam ir para onde lhes aprouver, não para um túmulo de massa, um povo de pensadores”.
Volker Braun, 1965
A imagem dos
três homens de pé tentando ver por sobre o muro tem, para mim, um quê de humor
que tentarei seguir para descrever a cena.
Não sei bem por quê eles ali em cima me
lembram cenas circenses. Algo assim como Davi X Golias, ou o Bobo da Corte.
Talvez porque só o grotesco, o impossível e o absurdo dos palhaços dêem conta
da violência, como é a do autoritarismo, seja de direita ou esquerda. Mas, não importam
os obstáculos, o homem (ou a vida?) vai tentar todos os meios para
superá-la.
A linha
diagonal que os prédios formam, vinda lá do fundo em direção a margem direita,
mostra claramente que a seqüência de prédios continua, mas é interrompida na
margem da foto.
Bresson faz a linha horizontal do
muro coincidir com a diagonal dos prédios exatamente na margem direita,
reforçando essa impressão de interrupção: a construção do muro foi a reação
abrupta e violenta da Rússia comunista no pós-guerra.
Os três homens de pé me fazem pensar
na Inglaterra, EUA e França, os três outros ocupantes da Alemanha no
pós-guerra. A três potências ocidentais vencedoras encontravam agora a parede
comunista... Iniciava-se a Guerra Fria.
Toda a cena está carregada de muita
perplexidade, o que nos aproxima um pouco daquilo que a população deve ter
sentido na madrugada do dia 13 de agosto de 1961, quando o muro foi construído.
Não há mais ninguém nas ruas, nem nas janelas, o que reforça a sensação de
recolhimento e constrangimento, além do medo.
Os homens alinham-se e parecem
utilizar a vertical do prédio, à esquerda, para somarem-se e sentirem-se
maiores que o muro. De fato, temos a
impressão que eles conseguem ver além da altura do muro, num tocante gesto de
‘ver além do bloqueio’. Talvez numa
tentativa de ‘se esticar’ além da cisão que vivia a cidade-símbolo de um país já destroçado.
As dimensões das construções e o
tamanho do homem, a ausência de pessoas ao redor, tudo deixa uma impressão
esmagadora: um muro os separa?! Os detém?! Tem toda essa força?!
Difícil não perguntar “que
fizemos?!”
As direções escritas no postinho
ficam, de repente, sem função diante do muro atrás de si...
Rue
Mouffetard, Paris – 1952
“O vinho é composto de humor, líquido e luz.”
Galileu
Essa foi
a primeira fotografia de Bresson que vi.
Ganhei-a na forma de um cartão de aniversário. Eu me apaixonei pelo orgulhoso menino
carregando as duas pesadas garrafas de vinho, tarefa leve, leve, em suas
mãos. A expressão de seu rosto revela
que ele sabe o que tem nos braços, com certeza um bom Bordeaux...
Eu não
ficaria surpresa se soubesse que, nessa idade, ele já conheça alguns dos bons
segredos do cultivo da uva, sobre a terra, sobre a temperatura do sol no verão
e no outono...
A
profundidade do campo transforma a rua em sua caminhada, que parece ser o vir
desde lá de trás até a esquina – ele está, aos poucos, deixando a infância...
Nós o
vemos chegando à esquina, onde as ruas se encontram e a visão se expande: ele
vê o mundo e pode ser visto também. As meninas, atrás, sorriem e admiram seu
grande feito.
A cena
toda festeja e celebra seu orgulho de menino que se sabe homem um dia, e as
palavras do poeta - “o menino é o pai do homem” – ecoam em meus ouvidos...
Bresson captou um momento singular: toda
força da cena concentra-se nos sentimentos desse garoto a quem tão importante
tarefa foi designada – “Prendre le vin!”
Um
vinho... Trazido com a honradez e êxtase dignos de um Dioniso...
Não
consegui encontrar o título nem a data dessa foto.
Ela me
entra com a mesma força e impacto de uma pintura abstrata. Sua textura, seus
tons de cinza, seus contrastes, o enquadramento, e a figura do jovem e da
carroça formam uma belíssima composição.
O jovem
está no centro e ao fundo da foto, dando toda a profundidade da cena, que não
fosse assim, seria bidimensional.
O que é o
homem senão a consciência da vida sobre si mesma? Bresson nos lembra que não importa o tamanho
de nossas construções é o ser humano que lhes impregna de profundidade e
sentido.
A carroça
lembra o cotidiano e suas tarefas, brevemente interrompidas para se observar –
o que? O jovem está no limite entre a
sombra e a luz e desperta a curiosidade sobre o que estaria vendo...
Brie, France, 1968
Essa foto traz tantas associações
sobre o viver e o criar, sobre caminho e caminhar, sobre o adentrar a vida e
suas composições, que fica difícil escolher o que abordar...
No primeiro plano, na base,
observamos a estrada ocupando as margens da foto de ponta a ponta. Estamos no presente, no lugar mesmo do
fotógrafo. Sua objetiva aponta o caminho
à frente: o futuro? A morte?
O estreitamento natural rumo ao
infinito e horizonte corroboram essa dupla impressão. As árvores, compondo uma espécie de túnel,
‘agasalham’ o caminhante em sua jornada.
O campo vasto e largo sugere um momento pacífico de introspecção, de
encontro com si mesmo e com o ‘Outro’, o desconhecido que se encontra ao
caminhar, e o despojamento que esse caminhar encerra, caminho que se faz ao
caminhar...
”No chão de asfalto
Eco, um sapato
Pisa o silêncio
Caminhante noturno (...)
Vai caminhante, antes do dia nascer
Vai caminhante, antes da noite morrer
Vai caminhante”.
Caminhante
Noturno – Rita Lee
Srinagar, Kashimir, 1948
Que horas serão? Final de tarde ou início da manhã?
As mãos estendidas são as de
louvação.
Mãos que se estendem ao céu para
receber a dádiva da Luz, da Terra e da Vida depositadas diante de si. As outras comungam a contemplação da natureza
em sua esplêndida luminosidade: consciência da criação da luz e do espaço, do
mundo como habitação.
No plano inferior da paisagem vemos um rio, a
terra e, acima, a silhueta da montanha riscando o céu. Água, terra, ar e fogo! O quinto elemento é o
homem!
Salientadas no primeiro plano da
foto, as mulheres estão muito bem delineadas em relação ao fundo. O resultado é
uma espécie de espelho, onde a luz marca e revela as diferenças de grandeza do
humano e da natureza: se somadas, compõem o sentido e a existência.
O fato de serem apenas mulheres (não
me parecem serem homens) reforça a impressão de identidade entre o feminino e a
devoção, característica que Bresson captou e registrou de forma delicada. A alma devota encontra luz nas formas simples
e cotidianas, e todo o viver é oportunidade de louvação!
“E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer”.
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer”.
Louvação –
Gilberto Gil / Torquato Neto
Le Lac des Signes, Bolshoi, 1954
O palco é realmente um lago povoado
de cisnes!
Há belos e marcantes contrastes entre a porção
superior e inferior da fotografia. O
palco circular, a orquestra ao seu redor, tudo parece girar. Um círculo dentro
de outro... Um registro que capta o próprio movimento do balé e da orquestra,
como se víssemos um filme e não um instantâneo...
A divisão exata da cena com o corpo
do balé acima e a orquestra abaixo, faz justiça ao casamento perfeito entre
música e dança: uma é a complemento da outra!
Os músicos, que quase não aparecem,
mas sim as partituras destacadas, as bailarinas de branco, reforçam a idéia do
homem entregue à arte: sai de si mesmo, apaga-se, para dar lugar a tudo o que a Arte comunica.
Vemos aqui um artista olhando a arte,
ampliando-a de tal maneira que se mesclam o Movimento e o Instante, a Música e
o Silêncio... E tudo mais que quisermos...
Diana Arbus
"Freaks
was a thing I photographed a lot. It was one of the first things I
photographed and it had a terrific kind of excitement for me. I just used to
adore them. I still do adore some of them. I don't quite mean they're my best
friends but they made me feel a mixture of shame and awe. There's a quality of
legend about freaks. Like a person in a fairy tale who stops you and demands
that you answer a riddle. Most people go through life dreading they'll have a
traumatic experience. Freaks were born with their trauma. They've already
passed their test in life. They're
aristocrats.”
A primeira reação ao seu trabalho foi definir se gostava ou desgostava: que era o que sentia?
O que foi ficando evidente para mim é que eu não olhava as fotografias do mesmo modo que olhei as de Bresson. Não me chamavam a atenção os detalhes ‘técnicos’, como enquadramento, luz, contrastes, a maestria, ou qualquer outra coisa relativa ao modo de olhar que começo a aprender, ou que costumei sempre a chamar de 'arte'.
A primeira reação ao seu trabalho foi definir se gostava ou desgostava: que era o que sentia?
O que foi ficando evidente para mim é que eu não olhava as fotografias do mesmo modo que olhei as de Bresson. Não me chamavam a atenção os detalhes ‘técnicos’, como enquadramento, luz, contrastes, a maestria, ou qualquer outra coisa relativa ao modo de olhar que começo a aprender, ou que costumei sempre a chamar de 'arte'.
Arte, para mim,
sempre esteve associada à idéia de prazer, uma experiência que ampliasse meus
sentidos para além do costumeiro, mesmo que fosse através de algo doloroso,
como a Guernica de Picasso, por
exemplo. Percebo que essas obras
despertam minha admiração por conta da transcendência que permitem. Aqui outra coisa me toca.
Aos poucos, fui
‘escutando’ uma espécie de ‘grito’, e à medida que fui me deixando levar pelo
que sentia vi que as pessoas
fotografadas revelavam o bizarro, o estranho, o diferente, e o grito passou a
ser o grito de um surdo/mudo, a dor de um corcunda de Notre-Dame... Lembrei-me que numa de suas representações, o corcunda carrega um lampião de luz, e me vi tentando procurar luz nessa estranheza. Mas, o incômodo continuou e me perguntei
“será que é esse o caminho? Não seria isso uma forma de ‘enquadrar’ a
estranheza, fazê-la ‘adequar-se’, para que ela pare de incomodar?”
E a estranheza foi me remetendo a estranheza diante do inusitado da vida, dos outros e de mim mesmo...
Seria essa a intenção de Diane
Arbus? Não sei. Se é que é possível entender intenções...
Acho que ir por aí - entender - seria outra forma de se evitar ficar com o que ela registrou
com suas lentes: aquilo que não muda!
Talvez por isso seu trabalho ‘escape’ qualquer forma de interpretação,
‘favorável’ ou não...
Li que ela usava flash, mesmo à luz
do dia, filme quadrado, para ressaltar ainda mais as características individuais, e que
esperava aquele segundo mágico, quando o bizarro de cada um se revelava.
Só posso dizer o que ela revela de
mim mesma: que o mundo que a fascinava não me fascina: me causa dor,
desconforto, me faz perceber minha impotência diante do que não alcanço, nem
compreendo.
Conhecer um pouco seu trabalho fez
de suas palavras as minhas. Fui inserida em seu mundo ‘mítico’ e, ao
adentrá-lo, encontrei-a! Percebi que ela se tornara a personagem mesma que
descreveu:” Like a person in a fairy
tale who stops you and demands that you answer a riddle”.
A reflexão que nasce a partir de suas
fotos gera um som que continua ecoando, um cerne pulsante como a batida do
coração, ela atinge algo REAL:
“Essas
são (...) pessoas singulares que parecem metáforas de algum lugar além de onde
estamos (...), são inventadas pela fé, autores e heróis de um sonho real
através do qual nossa própria coragem e astúcia são testadas e provadas; tanto
que nos perguntamos repetidas vezes o que é verdadeiro, inevitável e possível e
o que é se tornar isso que nós somos (Diane
Arbus)
[1] *A Arquitetura Decisiva de um País
Provisório. Dafne de Souza
Sampaio é aluno de graduação do curso de Ciências Sociais da FFLCH, na
Universidade de São Paulo e editor da revista A nível d.
**Este
artigo é resultado da pesquisa elaborada no curso “Antropologia Visual”
ministrada pela Profa. Dra.
Sylvia Caiuby Novaes, pelo Depto. de
Antropologia da FFLCH-USP, 1996
Dissertação apresentada ao curso deMestrado em
Multimeios do Institutode Artes da UNICAMP como requisito parcial para a
obtenção do grau de mestre em Multimeios, sob a orientação do Prof. Dr.
Mauricius Martins Farin, Campinas2006.
Todas as fotos foram retiradas das imagens em arquivos disponíveis da internet, tanto de H .C. Bresson, quanto de Diane Arbus
Todas as fotos foram retiradas das imagens em arquivos disponíveis da internet, tanto de H .C. Bresson, quanto de Diane Arbus




























