quarta-feira, 25 de abril de 2012




A Fotografia em dois tempos: Henri Cartier Bresson e Diane Arbus

Sonia Maria Marchi de Carvalho, Arquitec 5N - Março/2008

“Aprendo a ver. Sim, estou no começo. Ainda vai mal. Mas quero dedicar a isso meu tempo”.
 R. M. Rilke

O filme grego “Noivas” tem em Norman uma de suas personagens principais: fotógrafo, teve suas fotos recusadas por um jornal por serem ‘muito pessoais’ já que o momento de guerra pedia fotos mais sensacionalistas, menos poéticas, ou que levassem a sentir e pensar a guerra.  Desiludido, Norman decide abandonar a fotografia e retornar aos EUA.  No navio encontra Niki e as outras ‘noivas’, que estão indo para América para casar com alguém que nunca viram.  Niki as fotos de Norman e o Amor devolve-lhe o dom: ele fotografa as mulheres (700?), da terceira classe do navio, em seus vestidos de noiva. Norman recupera seu registro de mundo e, ao chegar aos EUA, publica as fotos, denunciando o drama vivido por elas.
Conto essa história porque esse filme reacendeu o impulso de me aventurar na fotografia: ao vê-lo olhando as cenas das crianças junto à ‘Árvore dos Desejos’, seu contato amoroso com a realidade que observava, e fixava através câmera, constatei uma linguagem cujo significado etimológico diz tudo: a grafia da luz!  Lugar de poesia, onde olhar e coração têm passagem comum e silenciosa.  Nada mais eloqüente e silencioso que uma fotografia!  Eu que sempre adorei o silêncio, e também a comunhão com o mundo, pensei - “Eis um canal!”.
Falar sobre mestres da fotografia requer humildade!  Vamos ver se consigo ‘brincar’ com as imagens, lembrando que todo testemunho é um pouco um testemunho de si mesmo!

Henri Cartier Bresson

"A gente olha e pensa: Quando aperto? Agora? Agora? Agora? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo, tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo ou o perdemos, e não podemos recomeçar. O desenho é uma meditação, enquanto que a foto é um tiro. Você pode apagar um desenho e fazer outro, você não está lutando contra o tempo. Mas, com a fotografia, há uma espécie de angústia constante, pelo fato de você estar presente em um momento que não mais se repetirá. Mas é uma angústia muito calma”.


Behind the Gare Saint Lazare,1932.

Essa foto me impressionou pelo momento mágico que Bresson conseguiu capturar: o toque do pé no chão.  A impressão que tenho é que a cena foi congelada, segundos antes da água se turvar, o que alteraria o espelho natural!  
O céu refletido dá a impressão que o homem ‘salta’ para essa imensidão especular, um paralelo do mundo concreto da cidade, que ali, também refletida na água, compõe o pano de fundo.
Há uma tensão e expectativa que une o lúdico com o desconhecido: do salto leve, mergulhará ele na água ou no céu?  Há a sugestão de um caminhar que seguirá solto no espaço, assim como a impressão de que ele afundará dentro de - um lago? 
‘Caminhar’, metáfora do viver, revela aqui seus prazeres, riscos, suas surpresas, seus espelhamentos...
 Não tenho dúvida que poder captar as dimensões da existência era atividade extremamente lúdica para Bresson. Um simples dia de chuva e suas poças transformam-se, em suas mãos, numa oportunidade de se pensar nosso viver!
Essa imagem me remeteu a outro espelho, o “Mar Português”, de Fernando Pessoa:

“... Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar perigo e o abismo deu,
“Mas nele é que espelhou o céu”.

 Adorei essa foto!  Acho que foi por isso que a escolhi para iniciar esse exercício...



Arizona, 1947

A paisagem dessa foto é a vastidão do deserto americano, lugar de passagem da famosa rota 66 e de todo o imaginário que o cinema explorou.
 O deserto está presente nos mais antigos westerns e em outros filmes que marcaram época como: ‘Easy Rider’, ‘Paris, Texas’, ‘Thelma and Louise’, e mais recentemente, ‘No country for Old Man’.  Em todos os filmes, a paisagem inóspita é uma personagem vital, compõe a história e a alma americana.
Selvagem e de difícil ocupação, o deserto é local de liberdade, oportunidade de solidão, lugar para o que quisermos de bom e de mau, lugar de arbítrio. É lugar de desafio: sua travessia é um longo teste de resistência e de sobrevivência, biológica e ética.  É lugar de encontro com o desconhecido de nós mesmos. Como o próprio nome parece sugerir – ari-zona – estamos no árido!
“Mesmo sem aparecer ninguém, ou exatamente por isso, é a solidão que corta essas paisagens, e não poderia ser diferente já que em um país tão grande como os Estados Unidos, tanto espaço, é esse desamparo o que mais comove. Os EUA, país com grande carga simbólica, onde sempre foi fácil criar lendas e forjar ícones, desde sua independência, e até antes, conseguiu atrair diversos povos em troca de um admirável mundo novo com trabalho, dinheiro e promessas. Essas esperanças e as conseqüentes desilusões são o motor principal de todo o imaginário americano”. [1]
No primeiro plano, encontramos o automóvel, mais novo que o trem, porém despedaçado.  Logo atrás, mais destroços e, ao fundo, vemos o trem vencendo as distâncias de maneira destemida e objetiva, num ‘non-stop movement’.
Sua linha contínua é paralela à do horizonte mais além: somos convidados a olhar um ‘horizonte que se move’, da esquerda para a direita, ao invés do ‘apenas’ e natural ‘olhar à frente’, como espontaneamente acontece quando olhamos o horizonte.  Ao invés de uma contemplação natural e pacífica da natureza, somos remetidos ao horizonte dinâmico da civilização e ao avanço da tecnologia que tanto caracterizaria os EUA nas décadas posteriores a essa foto.
Mas, não podemos esquecer que Bresson é europeu e as coisas de um ângulo diferente.  Há um quê de ironia a respeito das vantagens e superioridade da tecnologia, portanto do homem, sobre a natureza.
Completamente destroçado e no primeiro plano da foto, o estado do carro sugere que o Tempo vence até as mais avançadas e refinadas invenções humanas, enquanto que o deserto sobrevive ao carro, ele permanecerá...
Só o trem avança contra o Tempo, esse inexorável...  Quem é ele?
E me lembro de Raul Seixas:

“Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão
Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar
Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons
Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral
Amém”.



The Berlim Wall, 1963

“Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se... ofende os que desejam ir para onde lhes aprouver, não para um túmulo de massa, um povo de pensadores”.
Volker Braun, 1965

 A imagem dos três homens de pé tentando ver por sobre o muro tem, para mim, um quê de humor que tentarei seguir para descrever a cena.
 Não sei bem por quê eles ali em cima me lembram cenas circenses. Algo assim como Davi X Golias, ou o Bobo da Corte. Talvez porque só o grotesco, o impossível e o absurdo dos palhaços dêem conta da violência, como é a do autoritarismo, seja de direita ou esquerda. Mas, não importam os obstáculos, o homem (ou a vida?) vai tentar todos os meios para superá-la.
            A linha diagonal que os prédios formam, vinda lá do fundo em direção a margem direita, mostra claramente que a seqüência de prédios continua, mas é interrompida na margem da foto.
Bresson faz a linha horizontal do muro coincidir com a diagonal dos prédios exatamente na margem direita, reforçando essa impressão de interrupção: a construção do muro foi a reação abrupta e violenta da Rússia comunista no pós-guerra.
Os três homens de pé me fazem pensar na Inglaterra, EUA e França, os três outros ocupantes da Alemanha no pós-guerra. A três potências ocidentais vencedoras encontravam agora a parede comunista... Iniciava-se a Guerra Fria.
Toda a cena está carregada de muita perplexidade, o que nos aproxima um pouco daquilo que a população deve ter sentido na madrugada do dia 13 de agosto de 1961, quando o muro foi construído. Não há mais ninguém nas ruas, nem nas janelas, o que reforça a sensação de recolhimento e constrangimento, além do medo.
Os homens alinham-se e parecem utilizar a vertical do prédio, à esquerda, para somarem-se e sentirem-se maiores que o muro.  De fato, temos a impressão que eles conseguem ver além da altura do muro, num tocante gesto de ‘ver além do bloqueio’.  Talvez numa tentativa de ‘se esticar’ além da cisão que vivia a cidade-símbolo de um país já destroçado.
As dimensões das construções e o tamanho do homem, a ausência de pessoas ao redor, tudo deixa uma impressão esmagadora: um muro os separa?! Os detém?! Tem toda essa força?!
Difícil não perguntar “que fizemos?!”
As direções escritas no postinho ficam, de repente, sem função diante do muro atrás de si...


Rue Mouffetard, Paris – 1952

“O vinho é composto de humor, líquido e luz.”
Galileu

Essa foi a primeira fotografia de Bresson que vi.  Ganhei-a na forma de um cartão de aniversário.  Eu me apaixonei pelo orgulhoso menino carregando as duas pesadas garrafas de vinho, tarefa leve, leve, em suas mãos.  A expressão de seu rosto revela que ele sabe o que tem nos braços, com certeza um bom Bordeaux... 
Eu não ficaria surpresa se soubesse que, nessa idade, ele já conheça alguns dos bons segredos do cultivo da uva, sobre a terra, sobre a temperatura do sol no verão e no outono...
A profundidade do campo transforma a rua em sua caminhada, que parece ser o vir desde lá de trás até a esquina – ele está, aos poucos, deixando a infância...
Nós o vemos chegando à esquina, onde as ruas se encontram e a visão se expande: ele vê o mundo e pode ser visto também. As meninas, atrás, sorriem e admiram seu grande feito.
A cena toda festeja e celebra seu orgulho de menino que se sabe homem um dia, e as palavras do poeta - “o menino é o pai do homem” – ecoam em meus ouvidos... 
  Bresson captou um momento singular: toda força da cena concentra-se nos sentimentos desse garoto a quem tão importante tarefa foi designada – “Prendre le vin!”
Um vinho... Trazido com a honradez e êxtase dignos de um Dioniso...



Não consegui encontrar o título nem a data dessa foto.
Ela me entra com a mesma força e impacto de uma pintura abstrata. Sua textura, seus tons de cinza, seus contrastes, o enquadramento, e a figura do jovem e da carroça formam uma belíssima composição.
O jovem está no centro e ao fundo da foto, dando toda a profundidade da cena, que não fosse assim, seria bidimensional. 
O que é o homem senão a consciência da vida sobre si mesma?  Bresson nos lembra que não importa o tamanho de nossas construções é o ser humano que lhes impregna de profundidade e sentido.
A carroça lembra o cotidiano e suas tarefas, brevemente interrompidas para se observar – o que?  O jovem está no limite entre a sombra e a luz e desperta a curiosidade sobre o que estaria vendo...


Brie, France, 1968

Essa foto traz tantas associações sobre o viver e o criar, sobre caminho e caminhar, sobre o adentrar a vida e suas composições, que fica difícil escolher o que abordar...
No primeiro plano, na base, observamos a estrada ocupando as margens da foto de ponta a ponta.  Estamos no presente, no lugar mesmo do fotógrafo.  Sua objetiva aponta o caminho à frente: o futuro? A morte? 
O estreitamento natural rumo ao infinito e horizonte corroboram essa dupla impressão.  As árvores, compondo uma espécie de túnel, ‘agasalham’ o caminhante em sua jornada.  O campo vasto e largo sugere um momento pacífico de introspecção, de encontro com si mesmo e com o ‘Outro’, o desconhecido que se encontra ao caminhar, e o despojamento que esse caminhar encerra, caminho que se faz ao caminhar...

No chão de asfalto
Eco, um sapato
Pisa o silêncio
Caminhante noturno (...)
 Vai caminhante, antes do dia nascer
Vai caminhante, antes da noite morrer
Vai caminhante”.

                                               Caminhante Noturno – Rita Lee



Srinagar, Kashimir, 1948

Que horas serão?  Final de tarde ou início da manhã? 
As mãos estendidas são as de louvação.
Mãos que se estendem ao céu para receber a dádiva da Luz, da Terra e da Vida depositadas diante de si.  As outras comungam a contemplação da natureza em sua esplêndida luminosidade: consciência da criação da luz e do espaço, do mundo como habitação.
 No plano inferior da paisagem vemos um rio, a terra e, acima, a silhueta da montanha riscando o céu.  Água, terra, ar e fogo! O quinto elemento é o homem!
Salientadas no primeiro plano da foto, as mulheres estão muito bem delineadas em relação ao fundo. O resultado é uma espécie de espelho, onde a luz marca e revela as diferenças de grandeza do humano e da natureza: se somadas, compõem o sentido e a existência.
O fato de serem apenas mulheres (não me parecem serem homens) reforça a impressão de identidade entre o feminino e a devoção, característica que Bresson captou e registrou de forma delicada.  A alma devota encontra luz nas formas simples e cotidianas, e todo o viver é oportunidade de louvação!

“E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer”.
                 Louvação  –  Gilberto Gil / Torquato Neto



Le Lac des Signes, Bolshoi, 1954

O palco é realmente um lago povoado de cisnes!
 Há belos e marcantes contrastes entre a porção superior e inferior da fotografia.  O palco circular, a orquestra ao seu redor, tudo parece girar. Um círculo dentro de outro... Um registro que capta o próprio movimento do balé e da orquestra, como se víssemos um filme e não um instantâneo...
A divisão exata da cena com o corpo do balé acima e a orquestra abaixo, faz justiça ao casamento perfeito entre música e dança: uma é a complemento da outra!
Os músicos, que quase não aparecem, mas sim as partituras destacadas, as bailarinas de branco, reforçam a idéia do homem entregue à arte: sai de si mesmo, apaga-se, para dar lugar a tudo o que a Arte comunica.
 Vemos aqui um artista olhando a arte, ampliando-a de tal maneira que se mesclam o Movimento e o Instante, a Música e o Silêncio... E tudo mais que quisermos...

Diana Arbus

"Freaks was a thing I photographed a lot. It was one of the first things I photographed and it had a terrific kind of excitement for me. I just used to adore them. I still do adore some of them. I don't quite mean they're my best friends but they made me feel a mixture of shame and awe. There's a quality of legend about freaks. Like a person in a fairy tale who stops you and demands that you answer a riddle. Most people go through life dreading they'll have a traumatic experience. Freaks were born with their trauma. They've already passed their test in life. They're aristocrats.”

A primeira reação ao seu trabalho foi definir se gostava ou desgostava: que era o que sentia?


O que foi ficando evidente para mim é que eu não olhava as fotografias do mesmo modo que olhei as de Bresson.  Não me chamavam a atenção os detalhes ‘técnicos’, como enquadramento, luz, contrastes, a maestria, ou qualquer outra coisa relativa ao modo de olhar que começo a aprender, ou que costumei sempre a chamar de 'arte'. 
            Arte, para mim, sempre esteve associada à idéia de prazer, uma experiência que ampliasse meus sentidos para além do costumeiro, mesmo que fosse através de algo doloroso, como a Guernica de Picasso, por exemplo.  Percebo que essas obras despertam minha admiração por conta da transcendência que permitem.  Aqui outra coisa me toca.

            Aos poucos, fui ‘escutando’ uma espécie de ‘grito’, e à medida que fui me deixando levar pelo que sentia vi que as pessoas fotografadas revelavam o bizarro, o estranho, o diferente, e o grito passou a ser o grito de um surdo/mudo, a dor de um corcunda de Notre-Dame... Lembrei-me que numa de suas representações, o corcunda carrega um lampião de luz, e me vi tentando procurar luz nessa estranheza.  Mas, o incômodo continuou e me perguntei “será que é esse o caminho? Não seria isso uma forma de ‘enquadrar’ a estranheza, fazê-la ‘adequar-se’, para que ela pare de incomodar?”
E a estranheza foi me remetendo  a estranheza diante do inusitado da vida, dos outros e de mim mesmo... 


Seria essa a intenção de Diane Arbus?  Não sei.  Se é que é possível entender intenções... Acho que ir por aí - entender - seria outra forma de se evitar ficar com o que ela registrou com suas lentes: aquilo que não muda!  Talvez por isso seu trabalho ‘escape’ qualquer forma de interpretação, ‘favorável’ ou não...
Li que ela usava flash, mesmo à luz do dia, filme quadrado, para ressaltar ainda mais as características individuais, e que esperava aquele segundo mágico, quando o bizarro de cada um se revelava.
Só posso dizer o que ela revela de mim mesma: que o mundo que a fascinava não me fascina: me causa dor, desconforto, me faz perceber minha impotência diante do que não alcanço, nem compreendo.


Conhecer um pouco seu trabalho fez de suas palavras as minhas. Fui inserida em seu mundo ‘mítico’ e, ao adentrá-lo, encontrei-a! Percebi que ela se tornara a personagem mesma que descreveu:” Like a person in a fairy tale who stops you and demands that you answer a riddle”.
A reflexão que nasce a partir de suas fotos gera um som que continua ecoando, um cerne pulsante como a batida do coração, ela atinge algo REAL:
“Essas são (...) pessoas singulares que parecem metáforas de algum lugar além de onde estamos (...), são inventadas pela fé, autores e heróis de um sonho real através do qual nossa própria coragem e astúcia são testadas e provadas; tanto que nos perguntamos repetidas vezes o que é verdadeiro, inevitável e possível e o que é se tornar isso que nós somos (Diane Arbus)
                                                          

[1] *A Arquitetura Decisiva de um País Provisório.   Dafne de Souza Sampaio é aluno de graduação do curso de Ciências Sociais da FFLCH, na Universidade de São Paulo e editor da revista A nível d.
**Este artigo é resultado da pesquisa elaborada no curso “Antropologia Visual” ministrada pela Profa. Dra.
Sylvia Caiuby Novaes, pelo Depto. de Antropologia da FFLCH-USP, 1996

[2] EMY KURAMOTO,A REPRESENTAÇÃO DIRUPTIVA DE DIANE ARBUS;DO DOCUMENTAL AO ALEGÓRICO
Dissertação apresentada ao curso deMestrado em Multimeios do Institutode Artes da UNICAMP como requisito parcial para a obtenção do grau de mestre em Multimeios, sob a orientação do Prof. Dr. Mauricius Martins Farin, Campinas2006.

Todas as fotos foram retiradas das imagens em arquivos disponíveis da internet, tanto de H .C. Bresson, quanto de Diane Arbus

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Deserto e o Si-mesmo: um ensaio fotográfico


O Deserto e o Si-Mesmo: um ensaio fotográfico


Prefácio

As viagens são sempre fascinantes oportunidades de conhecimento para o homem sobre si mesmo, sobre o mundo, e sobre o ‘Outro’ - a realidade numinosa não é o homem, não é uma coisa, não é a natureza, não é o ‘conhecido’.

A associação entre a viagem e a busca de si mesmo e de Deus é muito conhecida e é desnecessário aqui ampliar o tema. Basta olharmos para todas as religiões para constatarmos a presença e a importância da peregrinação como um dos pilares da fé de cada uma delas.

“A "viagem" é um dos grandes arquétipos espirituais encontrados em todas as grandes religiões e culturas.”[2] Encontramos o motivo no Hinduísmo (os rishis e os sanyasin), os bikkus do Budismo, os peregrinos cristãos rumo à São Tiago de Compostela, e os muçulmanos com sua peregrinação a Meca. 

Famoso, o labirinto da catedral de Chartres representa, com seus meandros e circunvoluções, as dificuldades do caminho para aqueles que não podem realizar a peregrinação propriamente dita.

As imagens do peregrino e a do viajante se confundem e a identidade de buscador é geralmente recebida com respeito por aqueles que a reconhecem. 

As andanças que envolvem o itinerário são oportunidades de meditação e contemplação e as paisagens exteriores têm efeito particular sobre a alma do andarilho, tocando-a, à semelhança do som de um instrumento sobre um copo de cristal que o faz vibrar. 

Se seu coração estiver - e permanecer! - silencioso é possível ouvir os acordes da dimensão que transcende o mundano, revelando-lhe um verdadeiro continuum com o cotidiano.

Imagens antigas retratam a intuição de há bem mais ‘entre o céu e a terra’, como veremos nas imagens e nas sentenças que se seguem.

O intuito desse trabalho é dividir as impressões que o Deserto deixou em mim.

Introdução

Ainda agora, enquanto escrevo, o Deserto se faz presente e impõe sua imensidão à alma. Não sei se por conta de sua vastidão, do vento constante, da claridade que cega, da densidade de sua noite, da proximidade das estrelas, da estranheza do frio cortante, ou talvez, pela sua aridez e ausência do verde.

 Não sei, não sei precisar.

Talvez a proximidade com o mistério da Vida e Morte? 

Não sei, procuro palavras para expor o que hoje chamaria de uma ‘peregrinação’ - não a um sítio construído pelo homem para consagrar um deus de uma crença qualquer – mas, uma jornada para um estado de ‘despojamento’, da ilusão do conforto e dos falsos ‘eus’...

Não muito tempo após chegar à Suíça, período em que estudei a psicologia junguiana, me envolvi com um grupo que criava bonecos para o teatro e que agora utilizava essa técnica como um recurso para dar forma a uma personagem interior. A minha personagem era uma figura muito semelhante a são João Batista.

Vestido de pele de camelo com um cinto de couro na cintura, são João Batista alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre, pregando no deserto da Judéia. Lá, ele recebeu a Palavra para anunciar a vinda do Messias que traria o fim da escravidão anunciado pelas Escrituras.

Na tradição dos padres do deserto encontramos a seguinte leitura sobre são João Batista:

O menino saltou de alegria no meu seio[3]


“Que mistério novo e admirável! João não nasceu ainda e já fala através dos seus saltos. Ainda não apareceu e já profere anúncios. Ainda não pode gritar e já se faz ouvir através dos seus actos. Ainda não começou a sua vida e já prega a Deus. Ainda não vê a luz e já aponta para o Sol. Ainda não foi dado ao mundo e já se apressa a agir como precursor." 

"O Senhor está ali: ele não é capaz de se conter, não suporta os limites fixados pela natureza, esforça-se por romper a prisão do seio materno e procura dar a conhecer antecipadamente a vinda do Salvador. Ele diz: «Aquele que rompe as cadeias chegou e eu continuo em cadeias, sou forçado a continuar aqui? O Verbo vem para restabelecer tudo e eu permaneço cativo? Vou sair e vou correr diante d'Ele e proclamarei a todos: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!» (João 1, 29)."

“Mas, diz-nos, João: ainda retido na obscuridade do seio da tua mãe, como é que vês e ouves? Como contemplas as coisas divinas? Como podes tu saltar e exultar? Ele responde: «Grande é o mistério que se cumpre – é um feito que escapa à compreensão do homem. Tenho o direito de inovar na ordem natural por causa d'Aquele que deve inovar na ordem sobrenatural."

"Vejo antes mesmo de nascer, porque vejo em gestação o Sol de Justiça (Ml 3, 20). Apercebo-me pelo ouvido porque, vindo ao mundo, sou a voz que precede o grande Verbo. Grito, porque contemplo revestido da Sua carne, o Filho único do Pai. Exulto, porque vejo o Criador do universo receber a forma humana. Salto de alegria porque penso que o Redentor do mundo tomou corpo. Sou o precursor da Sua vinda e antecipo o vosso testemunho com o meu.”

A interpretação de são Crisóstomo reverencia a força que está latente na escuridão do ventre de Isabel. João é a voz que precede o Verbo. Ele anuncia, como a aurora, a vinda do dia. Na escuridão ressoa retumbante a voz de são João. É essa a sua identidade!

Isso me fez lembrar o dito alquímico “quando a tua prima materia se tornar negra, rejubila-te, pois o Opus começou” e me pus a meditar na atitude de Maria e de Isabel: ambas nos revelando a postura contemplativa, silenciosa e de espera, enquanto algo se forma para adentrar o mundo e então iniciar a nova ordem.

A voz que clama do deserto nos chama, nos convoca à individuação, ao nascimento e à liberação do Si-mesmo e à vocação para a liberdade que habita o coração humano. Liberdade para ser, e ser para poder escolher. Poder dizer ‘não!’ a uma existência dirigida pela tendência à massificação que também nos habita e nos ameaça com a identificação em massa, com os ‘ismos’ que tão abertamente nos alertou Jung.

Liberarmo-nos dessa tendência é processo doloroso que desafia nossa fé na jornada, pois somos tão identificados com nossos desejos que abandoná-los é sentido por nós como uma ‘morte’. É preciso vencer esse temor.

A jornada à individuação é cheia de ‘perigos’ e envolve o confronto com a nossa sombra, desafia nossa resiliência à dor quando “toda palha for queimada num fogo inextinguível." (Lucas, 3,17)

Por palha poderemos entender tudo o que nos dá conforto e, portanto, ‘identidade’. O apego àquilo que nos acostumamos...

Uma a uma, cada zona de conforto é desmitificada, até o extremo do conforto que uma vida produtiva oferece quando, paradoxalmente, se torna fonte de estagnação – “Eu sou a videira e meu Pai é o agricultor. Todo o ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais.” (João, 15, 1-4)

Essa diferenciação é difícil e apenas acreditando que ambos são movimentos do Amor é que se tem força para prosseguir.

Todos os místicos afirmam que somente passando pela ‘noite escura’ dos sentidos (são João da Cruz) ou pela experiência da desolação (Exercícios Inacianos) é que progressivamente vamos distinguindo a Voz que nos leva ao âmago de nossa alma e ao profundo mistério da união mística - nós e o Si-mesmo, para então apenas Ser.

E foi num momento assim que me dirigi ao deserto: uma vital zona de conforto havia sido desmontada. E toda uma série de questões invadiu meu coração e senti a necessidade e o ‘chamado’ para desnudar-me ainda mais...

O Deserto me chamava e respondi ‘sim’...

O Deserto do Atacama


“O deserto do Atacama está localizado na região norte do Chile. Com cerca de 200 km de extensão, é considerado o deserto mais alto e mais árido do mundo, pois chove muito pouco na região, em conseqüência das correntes marítimas do Pacífico não conseguirem passar para o deserto, por causa de sua altitude. Assim, quando se evaporam, as nuvens úmidas descarregam seu conteúdo antes de chegar ao deserto, podendo deixá-lo durante épocas sem chuva. Isso o torna de aridez incrível. Já foi registrado como o menor índice pluviométrico do planeta. O deserto do Atacama é o lugar na Terra que passou mais tempo sem presenciar chuvas, sendo registrados 400 anos sem indícios de chuva. Possui clima quente durante o dia e frio à noite, mas ao longo do ano é seco, apresentando variações de temperatura que vão de 0 °C a 40 °C.”

“A região foi primeiramente habitada pelos atacamenhos, povo da região juntamente com a civilização dos nativos aymaras. Ambos deixaram um legado inestimável em termos arqueológicos, daí o seu nome deserto do Atacama.”

“O terreno da região é bastante diversificado tanto no aspecto de altitude como de formação, variando de altitudes quase ao nível do mar até 6 885 metros, como no caso do vulcão Ojos del Salado.Também encontram-se áreas marcadas por erosão, dunas e montanhas. O solo é diversificado, mas é composto basicamente de sal e areia.”

“A região, apesar de ser seca e não apresentar um índice pluviométrico relevante, apresenta alguns lagos com água quase todo o ano, servindo de fonte de vida tanto para os habitantes da região quanto para os animais os quais lá habitam.”

“A flora é formada basicamente por árvores de pequeno porte, como o Pimiento e o Algarrobo, arbustos como o Chanhar e plantas como a Anhanhuca e a Brea que crescem na sua maioria ao longo dos vales e na região da precordilheira e cactos que crescem principalmente nas serras próximas à costa mais ao sul. O Deserto do Atacama em geral apresenta um terreno rochoso muito seco e pouco propicio a brotar algumas plantas. Em alguns lugares próximos à região de Antofagasta existem grandes áreas de deserto absoluto, onde o solo é completamente desprovido de vegetação.”

“A fauna é formada por animais pequenos como ratos, lagartos e cobras. Há a presença de lhamas, guanacos, flamingos e outros animais que com o tempo foram se adaptando ao clima.” [5]

Saí de Santiago rumo a Calama num vôo lotado. Dei sorte de sentar-me à janela, pois queria muito ver a paisagem. 

De cima vê-se o aeroporto em meio às montanhas sem fim e já ali, perto das nuvens, dá para sentir a aridez e a ausência do verde e da água, tão acostumados que somos à mata e ao mar. 

Estava entrando numa outra espécie de natureza, totalmente desconhecida e em meu coração palpitante de expectativa, sentia o compasso e a ansiedade por tudo o que havia assistido, ouvido, ou lido sobre o deserto – agora o experimentaria.

Descer do avião diretamente para o chão – onde o deserto é a própria pista de pouso - saborear as cores, exuberantes ao final do dia, sentir a estranheza do frio diretamente no rosto, numa terra famosa por ser tão árida e abrasiva... E nenhum verde... Que experiência incomum! Sabia que viveria uma semana inesquecível.

Viajamos ainda mais 01h30min do aeroporto de Calama até São Pedro do Atacama, onde me hospedaria. Aproveitei a viagem para olhar o famoso céu do deserto. 

Estávamos à 2400m de altitude e sem nenhuma luz, o que permite maior visibilidade para poder ver o brilho das estrelas.[6] Sentia frio, mas sentia-me muito bem em estar ali.

Primeiro dia


O programa de passeios incluía uma primeira visita, pela manhã, aos sítios arqueológicos, uma visitação ao passado do Atacama



Ainda um tanto cansada da longa viagem, saí munida de protetor solar, frutas secas, castanhas e água. Levava minha câmera à tiracolo e, ao sentir o impacto das histórias do deserto, a identidade de ‘turista’ foi, progressivamente, ficando para trás...



 Mais tarde e em outro local, comigo, outros subiam suas difíceis dunas. O esforço nos obrigava o silêncio. 
A imensidão das dunas, o vento cortante e a total ausência do verde é experiência de difícil descrição. O subir uma duna para olhar o por do sol, algo aparentemente comum, adquire o caráter de uma visita ao desconhecido, e agora enquanto escrevo, percebo que é por que penetramos numa dimensão temporal, que me atrevo em dizer, é a própria ‘atemporalidade’. 

A aparente ausência de vida nos traz a sensação de que olhamos o mundo antes da vida acontecer e também depois dela desaparecer, restando apenas esse ‘contínuo’, e que na natureza aparece como o ‘deserto’. Não é a toa que um arrebatamento tome posse da alma.

Então o esforço vale à pena diante de tão bela paisagem que nos recebe. Nesse momento, nos é oferecido o espaço e o tempo para nos sentarmos para descansar os olhos e os ouvidos da rotineira concentração e foco de nossas vidas comum, saboreando no final do primeiro dia o infinito do espaço e a imensidão da pausa. Silêncio talvez seja isso: espaço e pausa.

Enquanto olhava a bela paisagem, o vento frio e cortante do final da tarde não nos dava muito sossego , e a areia soprada formava uma lente sutil deixando a impressão que a distância aumentava, deixando tudo muito mais além do que já parecia. E aos poucos, o silêncio foi ficando mais claro, mais agudo, mais perceptível... E no silêncio, percebia a verdadeira essência do deserto...

A alma do Deserto

O Deserto é assim: seco, quente e, de repente, frio. Ouve-se o vento. Ele corre pelos cabelos, os olhos ardem. Em algum momento não há mais ninguém, apenas você e Ele, e olhamos os outros caminhando ao lado, perguntando: estarão com o Deserto ou não? Ou talvez seja porque o silêncio é tão impactante que é como se as pessoas se movessem sem gerar som? 


Uma vez, enquanto ouvia um concerto, o movimento dos violinos e das violas me hipnotizou e já não ouvia a música vinda dos instrumentos, mas do próprio ar, do espaço, e os músicos pareciam estar fazendo movimentos sem som algum. Acontecia a mesma coisa ali.

Alguns cenhos franzidos revelavam o incômodo. “Sim, o deserto está presente neles também. Não sei se plenamente percebido, mas presente!” E ao passar ao meu lado ouço alguém murmurando – “Nossa! Que lugar seco!”

A alternância da temperatura pode ser brutal pois, por volta da 16hs esfria e a sensação térmica é de frio mais intenso, devido ao vento cortante, cheio de fina areia a pinicar o rosto.

A claridade excessiva cede aos poucos à noite, densa e escura, seu papel de guia. Uma grande excitação preenche o coração ao cair da noite e, mesmo depois de jantar, enquanto andava na pequena vila de São Pedro, podia ouvir a silenciosa presença do deserto.


E entrei só em seu Silêncio, em seu Frio noturno. Em seu Vento de areia. Em seu difícil caminhar.

O Deserto ruge como um leão silencioso. Seu bafo quente gela o coração daquele que deseja a amizade simples de um animal doméstico. 

Não é assim! Em seu interior não há distrações.

 Apesar dos olhos descansarem na vastidão do espaço, a alma se apaziguar, a ausência do verde, das plantas, dos animais, do ser humano, causa um cansaço difícil de definir. 

O deserto exige a atenção exclusiva para suas paragens e ausências de tudo aquilo a que estamos acostumados. 

À medida que nos aprofundamos em sua ‘pausa’, entramos em contato com a ‘estagnação’ que nos habita, e nesse momento a viagem se torna também uma viagem interior...

Em algum momento me dei conta que meu incômodo provinha da aridez que habitava meu coração: as dores e perdas que vivenciara ao longo dos últimos meses se alongaram para os períodos de minha vida, até se tornarem perdas sem data, sem origem aparente, temas da alma humana... 

Nada nascia desse lugar desértico em mim, e a pausa já não era pacífica, mas era a própria morte, o não movimento, a estagnação absoluta.

Percebia também um movimento de fuga, queria sair daquele desconforto, e sem saber por que, sorri. Depois compreendi que teria que me desapegar também de minhas dores e aceitar o tecido ferido que meu coração havia se transformado.

Não sei se drogada de sono ou de medo, olhei sua face seca, a luz ofuscante de seus olhos noturnos, e aos poucos, fui me acostumando, sem saber se isso era bom ou não...

Meu coração revelou-se: sangrava. As cordas esticadas arrebentaram e eu sangrava plenamente.
 

Sangrava no seco do Deserto. De que cor era o sangue? A lua Nova tornava-o escuro. Apenas escuro.

Em algum momento parei de resistir. Larguei-me no colo seco e quente do Deserto. Desisti de resistir ao seu incomensurável tamanho. E me deixei ali. Como a Prima materia na forja do alquimista, o deserto me queimava.

Aos poucos, o deserto entrou em mim. Secou-me completamente. As lágrimas, que antes arredondavam a alma, já não fluíam, como se nunca mais fosse ser possível chorar.


Que queria Deus de mim, afinal?


-"Coragem para tudo sentir!" Foi o que ouvi...

A Calcinação: a Mortificação dada pelo Fogo

Como era quente! Como era frio! Seco. Tão seco. Nada lhe resistia. Ia derretendo aos poucos, tudo desintegrando. O Deserto me calcinava, secava toda a umidade de meu corpo e eram as cinzas que agora me cobriam e invadiam meus pulmões.
“Uma voz clama no deserto...” [7]

O Profeta... falava a minha memória sobre a Voz que habita o deserto. 

Quero ouvi-la. Mas só ouço o oco de suas areias sem fim. Desisto de tentar ouvir. Só há o Deserto. Uma estranha suavidade seca. De cinzas e areia fofa.

Sou vagarosamente reduzida a pó. Até meus ossos viram poeira fina. Confundem-se com a areia ao redor. E abandonando a lucidez fui envolvida pela Escuridão das entranhas daquela terra de vulcões. Os pensamentos silenciaram e conheci a escuridão sem adormecer...

E sob o testemunho único das estrelas, o vento riscava a areia criando uma nova linguagem. E no lugar mais improvável e temido conheci o verdadeiro Silêncio, o Silêncio do não-ver, do não-saber, o Silêncio da pura temperatura do Amor.

Luz e Trevas, um mistério a se experimentar...


Um novo dia

Tolice nossa pensar que ficaremos na pausa aconchegante... Até o dia vir com uma nova estrada que agora apontava para outra dimensão, para outro frio, para outra luz, que a montanha ao horizonte prometia. A estrada branca era mais suave, mas não duraria para sempre...





Agora era a vez da íngreme subida, da estrada sinuosa, novamente seca... cheia de pedras, muito frio, e outros desafios...



Mas, já não ia só. Uma Voz me fazia companhia...

E sob o frio de 4500m, à solidão insuspeitada é revelado um segredo inusitado: a água cristalina seria, enfim, oferecida.

Tão generosa é a Vida que, insatisfeita, resolveu, Ela mesma, numa nova forma se anunciar: não mais pelas paisagens e cores, ou pelo silêncio de Eras, nem só pelo frio ou pelo calor, com suas dores e sabores...

Não, era em ligeiro Movimento, na forma de uma espiral de vento, que Ela passaria, dançando e saudando, o longo caminhar...

E ligeiro, depois de outro rodopiar, o vento já era Luz à estrada iluminar!

"Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva

Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado e para quilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma. "[8]
(E amigos a acompanhar!)














Quem sou eu
Nasci na cidade de Tatuí - SP, em 1962. Cresci em Capivari e em Bauru. Herdei de meu pai o espírito e o gosto pelas viagens. O medo e o anseio pelo desconhecido já habitavam meu pequenino coração, tenho certeza, desde que abri os olhos para o Mundo. Herança de minha mãe. À ambos tento dar meu toque, continuamente. Tornei-me médica e psiquiatra longe de casa, e analista junguiana longe de meu país, para tentar compreender o ser humano, suas dores, suas alegrias... Isso às vezes acontece, principalmente quando deixo de ‘tentar’... Em minhas andanças acertei e errei, procurando as pessoas e Deus. A paisagem mais bela ainda é o sorriso de uma criança e a mais triste continua a ser a de uma floresta queimada...

Testemunho

"Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio…

Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.
Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor, e a outra metade…também." 
(Ferreira Gullar)

[2] http://alinaesquina.tripod.com/peregrino.shtml. Página acessada em 30/01/2010, às 17:19hs.
[3] Lucas 1,39-45 – Comentário ao Evangelho do dia feito por são João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero em Antioquia e depois Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja. Homilia atribuída a partir da trad. de Solesmes, Leccionário, t. 3, p. 1039 rev. http://www.evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT página acessada em 20/12/2009.
[4] O deserto do Atacama visto do espaço. http://labgeo.blogspot.com/2007/07/terra-vista-do-espao-chile-deserto-de.htm. Página acessada em 20/12/2009.
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Deserto_do_Atacama. Página acessada em 20/12/2009.
[6] “Em todo o hemisfério sul, o lugar favorito dos astrônomos é o deserto do Atacama e seus arredores. A falta de umidade impede a formação de nuvens, e a altitude favorece o posicionamento dos observatórios. Por isso tudo estão instalados ali os melhores telescópios do hemisfério. Também fica no Atacama o projeto mais ambicioso da história da observação terrestre do espaço. Quando estiver instalado, em 2011, o Atacama Large Millimeter Array terá 64 antenas que, somadas, vão funcionar como um único radiotelescópio gigantesco.” Fernanda Nogueira. http://super.abril.com.br/ciencia/deserto-atacama-446503.shtml. Página acessada em 20/12/2009.
[7] Isaías (40,3ss) – “Uma voz clama no deserto; Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todo vale será aterrado, e todo monte arrasado; tornar-se-á direito o que estiver torto, e os caminhos escabrosos serão aplanados. Todo homem verá a salvação de Deus.
*Maria Bethania canta uma cantiga popular cuja letra segue assim: “Meu pai São João Batista é Xangô. É o dono de meu destino até o fim. Quando me faltar a fé em meu Senhor, derrube essa pedreira sobre mim. Subi a serra acompanhando pai Xangô. No lugar onde ele passa, corre água e nasce flor.” Álbum Brasileirinho, gravadora Quitanda/Biscoito Fino, 2003.

[8] Fernando Pessoa, “Poesia Completa de Alberto Caeiro”, Companhia de Bolso, 1997.
**Fotos realizadas por Sonia Maria Marchi de Carvalho, com uma Nikon D 40 no deserto do Atacama, Chile, entre os dias 06 e 11 de setembro de 2009.