domingo, 8 de julho de 2012
Coruja Buraqueira
A presença da natureza na vida de cada um nós é silenciosa, gratuita.
Esse sonho aconteceu num dia no ano de 2006 e compartilho com vocês suas imagens, mas principalmente, o afeto.
"É final de dia, quase noite. O sol já se pôs, o céu está azul, começando a se tornar escuro."
"Me encontro deitada na grama, no terreno bem mais à frente da porta da cozinha do sítio, que vai para o fundo, perto da mata."
"Bem à minha frente está uma coruja 'buraqueira', daquelas que fazem o ninho no chão. Ela está agitada, quer que seus filhotes entrem logo - eles estão voando baixo, acima dela, que olha, fixamente, para mim. Não tinha visto que deitara perto de um ninho!"
"Falo com ela silenciosamente, dizendo que não tenha medo, pois sou inofensiva, e que ela pode procurar em mim por qualquer traço de delito contra animais, que ela pode ver à vontade, sou como eles em meu coração."
"Um vira-latas está ao meu lado, vigilante, atento ao que acontece, nem ameaçador, nem amedrotado, mas pronto para me proteger, se assim for o caso."
"Em algum momento acordo, o cãozinho está deitado tranquilo, de costas para mim, para proteger, quando sinto que uma raposa se aconchega às minhas costas - mais a sinto do que vejo, com seu pêlo farto e dourado - ela aconchega suas costas às minhas e dorme tranquila, entregue ao porto seguro que encontrou, em plena noite e ao ar livre."
"Sinto sob a mão a respiração frágil e rápida de um pássaro, seu corpo quase todo sob minhas mãos...Olho e me surpreendo: era a coruja que tinha se aninhado e dormido junto à minha barriga..."
sábado, 7 de julho de 2012
Saracura
Como te contei, surgiu um pássaro desconhecido no sítio, que pousa duas vezes ao dia na árvore ao lado da minha casinha, anunciando a manhã e a noite.
Mesmo não sendo um canto melodioso e suave, é maravilhoso em sua estranheza e força. Ele me acorda e me mantem entre o sono e a vigília, e me faz viver o 'pressentimento' das coisas, pressentimento que some à luz do sol, para retornar ao final do dia.
Sinto-me gratificada que escolhesse essa árvore, tão perto da minha janela, como o lugar de canto dessas horas de transição e de passagem. Não quero que conheça minha presença, não o quero domesticado - quando ele canta, silencio, para que anunciação da hora seja cantada a plenos pulmões. Silencio para que a hora cantada possa adentrar o real e se manter viva...
Hoje, descobri que essa ave é a Saracura, que vive nos brejos e nas moitas. Aqui há muitos...
A vi passeando pela grama em frente à casa. Estava fazendo o almoço. Um pássaro lindo, de penas ferruginosas, semelhante a uma galinhazinha... Pernas finas, daí que entendi o dito popular 'pernas de saracura'!
Me acordou de madrugada, a danada, me fez sentir muito medo, principalmente porque não sabia o que era aquilo. Parecia uma premonição o que senti. Só fui melhorar quando amanheceu, tamanho o medo!
Passado um tempo olhando para ela andando, ali na grama, pensei na razão de meu medo: o desconhecido, cantando alto ao lado de minha janela... Ela continuava a saracura, ferruginosa e de pernas finas. Mantinha a estranheza, pelo menos para mim, de seu canto, ecoando nas horas mais silenciosas do dia...
Como um galo, anuncia alguma coisa - além de simplesmente viver e ciscar, ela adquiriu um significado para mim, qual seria?
Só consigo pensar se for juntamente com os 'sítios' e tudo que representam: um lugar, no caso, do inusitado, daquilo que não vejo usualmente, oposto à cidade onde vivo e trabalho.
Onde vejo as frutas amadurecerem, as formigas andarem em fila, os locais preferidos dos beija-flores, o som do riachinho que passa em frente à casinha, os bugios do fim de tarde, a revoada de maritacas, o andar mole dos bois, ou o ligeiro dos cavalos... Tudo cozido no fogão à lenha com quem gosta disso...
Ah, e tem o som do vizinho, que às vezes é um cantor chato qualquer cantando com toda a potencia e volume do aparelho de som! Eles moram ali, eu, só vou no final de semana...
Aí tem à noite com seu friozinho, sua magia de sapos, rãs, grilos, vaga-lumes e estrelas...
Céu sem a luz da cidade, onde a via Láctea se mostra com todo seu esplendor. É à noite que o fogão à lenha cede a vez para a fogueira lá fora, alta, quente, perigosa, aconchegante...
Acho que é um pouco isso tudo que a saracura me mostra e por isso tem a função de zelar pelo meu sono: para que eu não durma na rotina do dia à dia, para que veja e escute a natureza, que pinta com cores exuberantes, com todos os seus sabores e texturas, e que fala o idioma da alma, com o silencio que fica atrás de tudo isso...
segunda-feira, 4 de junho de 2012
O Tempo e a Alquimia
O Tempo e a Alquimia
Descrito ora
como devorador, em seu aspecto de Kronos, ora como momento oportuno, Kairos
, o Tempo sempre fascinou e desafiou quem dele se aproxima.
A música
abaixo, de Caetano Veloso, não é à toa chamada de ‘Oração ao Tempo’ – é necessário que tenhamos uma atitude devotada ao encontrar tão grande mistério a nos
rodear.
Olhe as
frutas no quintal. Duras e literalmente verdes, amadurecem devagar, e
acompanhamos sua maturação pelas cores que vão adquirindo: amarelo, rosa,
vermelho, no caso, por exemplo, do caju.
Adquirem mais sabor com o passar do tempo, adocicado, e estão prontas para serem comidas: é sua estação!
Adquirem mais sabor com o passar do tempo, adocicado, e estão prontas para serem comidas: é sua estação!
Tempo
gestacional: uma nova vida se prepara, se forma e, no tempo das águas que
correm, está pronta para vir ao mundo. Grita que chegou!
O Tempo
revela o movimento de um estado para outro - uma transformação? – mostra o
trânsito daquilo que chamamos ‘vida’.
Existem frutos que ficam verdes e duros
durante toda estação, nunca são apanhados e comidos, sua casca voltando a terra,
sobras para os passarinhos, sementes germinadas nos fios de alta tensão. O
Tempo está em todo lugar.
Alguns
frutos ficam amadurecidos no pé, são devorados por bichos, outros caem no chão
sem serem vistos, apodrecem e fertilizam a terra. Nessa hora são marrons, um
vermelho que já foi, fim de outono, começo do fim, início de uma outra coisa.
Quando
canta, o poeta faz um pedido, quer mais tempo, a tempo de ver a estação crescer
e passar?
A marcação
do tempo: alguém toca música, você sabe o ritmo que possui? Um ritmo que desenha o
destino, a marcação do tempo, a entrada no aqui e agora. A fixatio.
Entrar em
acordo com o Tempo e respeitar suas estações, será que ainda tenho essa
obediência, ou na pressa de meus anseios atropelo os refrões que me compõem?
É o Tempo
quem define a cor, quem dá luz ao que está dentro, que é transparente em si
mesmo, deixando a cor brilhar para anunciar o fruto. São os outros que lhe
provam o gosto.
Doce,
amargo, azedo, salgado, amarrento, fiapento, ácido, saboroso, delicioso,
gostoso, no ponto, um pouco verde, apimentado, passado, estragado... Todos, sinais
do Tempo.
E a mim?
Qual minha relação com todos esses sabores, cores, amores, que amadurecem, às vezes não, com a passagem dos anos?
Fotografias
amareladas, a prata que fixou para sempre o momento que passou.
E nunca se sabe o que de novo virá da estação. Sabe-se apenas que é tempo de morangos! A safra do vinho promete! A chuva foi farta para o suco! Ou não foi safra propícia...
E nunca se sabe o que de novo virá da estação. Sabe-se apenas que é tempo de morangos! A safra do vinho promete! A chuva foi farta para o suco! Ou não foi safra propícia...
“Tambor de
todos os ritmos”, não permanece num mesmo (mono)tom!
Como o coração, é irregular na regularidade, e quando pára, o seu som é único som, o de uma linha reta, um contínuo: morreu, não tem mais altos e baixos...
Como o coração, é irregular na regularidade, e quando pára, o seu som é único som, o de uma linha reta, um contínuo: morreu, não tem mais altos e baixos...
Um coração
que ‘não bate, nem apanha’, perdeu seu ritmo, está descompassado, e por isso
pede socorro. Está fora do Tempo. Arritmia: tambor que bate sem compor.
A 'oração do
coração' nos pede que o Tempo seja sentido como dádiva e não como algo à vencer.
Tempo para sentir, tempo que direciona e amadurece uma resposta, uma atitude, o ser.
Tempo para sentir, tempo que direciona e amadurece uma resposta, uma atitude, o ser.
Não é a toa
que para os antigos a ‘pressa’ era vista como vindo do diabo, do coisa-ruim.
Obedecer a a pressa retira todo o saborear, o sentir o Tempo com todos os seus matizes e nuances de cores e sabores.
O Tempo assim adquire sua pior face: a da velocidade excessiva. Tudo fica insosso.
Que eu saiba viver no Tempo, que eu saiba deixar o Tempo correr, que eu saiba me misturar com ele, até virar única com ele, até sumir...
“Que eu espalhe benefícios”, que outros possam se nutrir de mim.
Canibalismo ao contrário, vida que gera vida, destino de todos e de cada um.
Obedecer a a pressa retira todo o saborear, o sentir o Tempo com todos os seus matizes e nuances de cores e sabores.
O Tempo assim adquire sua pior face: a da velocidade excessiva. Tudo fica insosso.
Que eu saiba viver no Tempo, que eu saiba deixar o Tempo correr, que eu saiba me misturar com ele, até virar única com ele, até sumir...
“Que eu espalhe benefícios”, que outros possam se nutrir de mim.
Canibalismo ao contrário, vida que gera vida, destino de todos e de cada um.
Oração ao Tempo
Caetano
Veloso
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
domingo, 13 de maio de 2012
Algumas reflexões sobre Transtorno de Pânico
Algumas reflexões sobre o
Transtorno de Pânico
Sonia Maria Marchi de
Carvalho
Psiquiatra, analista membro
da AGAP/IAAP
São Pedro, outubro/09
Introdução
Quando fui convidada para aqui estar e falar sobre o Pânico, vieram-me
à mente vários aspectos que norteiam a nossa abordagem dessa condição extremamente
‘desagradável’ e que motiva as pessoas a procurar nossa clínica.
Invariavelmente, todas as pessoas abatidas por uma crise de pânico revelam grande sensação de fragilidade, desamparo, impotência, diante de ‘algo
súbito e agudo’ que as assola tão urgentemente que vão ao pronto socorro, de onde
saem sem qualquer diagnóstico médico que possa lhes dizer, ou localizar 'dentro
do corpo', alguma ‘doença’. Geralmente,
escutam que não têm ‘nada’, que não estão sofrendo de um ataque do coração, que não
há nada de errado com o organismo, mas talvez stress e falta de repouso. Hoje é
menos freqüente que não recebam o diagnóstico de ‘crises de pânico.
As descrições das crises variam e giram em torno da sensação de morte
iminente, aceleração súbita e inexplicável dos batimentos cardíacos, sudorese
intensa, mal estar físico geral, que acontece mesmo durante estados de repouso.
Há ainda a dificuldade em ficar sozinhos. A crises duram em média 20-30 minutos. É comum que após algum tempo, passem a
apresentar o medo antecipatório das crises. O resultado é uma condição
incapacitante com conseqüente perda da autonomia e dependência.
Vejamos o que o CID-10 nos diz a respeito do transtorno de pânico.
O CID-10 entende o Pânico como um transtorno ansioso que não é
desencadeado de modo exclusivo pela exposição a uma situação determinada, como
acontece, por exemplo, nas fobias. O diferencial para o CID-10 é seu caráter
imprevisível e não-dependente de situações que disparem as crises. Quando isso
acontece, temos o pânico com agorafobia, por exemplo, crises ao sair para uma
viagem de avião ou trem. As fobias todas podem desencadear crises de pânico.
Tenho me encontrado com a assim denominada Síndrome do Pânico em diferentes
etapas do processo de análise: pessoas que chegam apresentando as crises e que
procuram a terapia por essa razão, pessoas que já se acostumaram com as crises
e já as aceitaram, e aquelas que chegam por outros motivos, e algumas pessoas que
começam a desenvolver crises semelhantes ao pânico após um período de análise. Tentarei
delinear uma reflexão embasada nesses encontros, sabendo que nunca
conseguiremos esgotar o tema.
Há um aspecto mais coletivo do Pânico que tocarei apenas de leve,
somente para sugerir futuras reflexões, aspecto esse que está ligado ao
comportamento de pânico do tipo ‘reação em massa’, como as encontradas na
violência, nas guerras, ou nas situações de crises econômicas, como a recentemente
criada pelas especulações financeiras, e que geraram um ‘pânico’ no mercado.
Abordagem Teórica
Sabemos com Jung, que não é possível uma sistematização ‘de fora’ que
explique a dinâmica que acontece em cada processo individual. Desse modo, optamos por abordar alguns
aspectos do mito e da clínica, conscientes sempre da impossibilidade de se
esgotar uma condição. No dizer de Walter Otto, se explicamos um Deus é porque
ele não é um deus.
Aceitamos a condição da irracionalidade. À partir do que aprendemos
na clínica e com o progressivo desabrochar das dinâmicas que encontramos, com o
aparecimento de algum sentido e o confronto com a necessidade de respeito à presença
do grande Outro - nunca traduzido ou reduzido a uma explicação – é que
comprovamos a importância de uma relação adequada com o ‘imponderável’. O
imponderável parece ser a condição patognomônica contida em Pã. Somos convidados
à visitação de suas paragens. A leitura
e re-leitura sempre deixarão algo em aberto, assim esperamos, fazendo justiça
ao irracional.
Colocados os limites, então nos aventuramos em nossa reflexão, que se
dirige mais à compreensão da atitude consciente da pessoa sofrendo do pânico do
que ao irracional, aprioristicamente
irredutível.
Pã é um “deus, que de
acordo com o sentir dos Gregos era “a causa presente-ausente de tudo o que não
tem causa, a razão daquilo que não tem razão em particular; duas totalizações
paradóxicas nas quais uma coletividade pacífica se muda, subitamente, numa
horde selvagem”.[1]
Com é nosso costume, procuramos na etimologia e mitologia e sabemos
que ‘pânico’ é uma palavra que deriva do deus grego Pã.
Vejamos um pouco seu mito.
O Mito
Segundo
a mitologia, Pã era filho de Hermes e da ninfa Dríope. Dizem que era tão feio
ao nascer — o corpo inteiramente recoberto de pêlos, metade humano, metade
bode, chifres na testa, barba e cauda — que a mãe, em desespero e medo, fugiu
para bem longe. Hermes o teria levado para o Olimpo para divertimento dos
deuses.
Pã
freqüentava os pastos e os bosques da Arcádia e era a personificação da
fertilidade e do espírito fálico e selvagem da natureza indomada. Entretanto,
ocasionalmente era gentil com os homens cuidando dos rebanhos e das colméias.
Tomava
parte nos festejos das ninfas dos montes e auxiliava os caçadores a encontrarem
suas presas. Dizem que certa ocasião perseguiu a casta ninfa Siringe até o rio
Ládon. Para fugir dos abraços de Pã, a ninfa se transformou num feixe de
caniços. Como não a encontrasse, cortou os caniços e inventou a flauta de sete
tubos, que desde então foi chamada com o nome da famosa virgem ou como a flauta
de Pã.
"E nos contou como, em um dia Sirinx
De Pã fugiu, temendo, apavorada.
Desventurada ninfa! Pobre Pã!
Como chorou, ao ver que conquistara
Da brisa
apenas um suspiro doce! ”
(Keats)
É de
seu nome que deriva a palavra pânico, pois o irreverente deus se divertia
assustando os caminhantes solitários das florestas com gritos assustadores.
Embora desprezado pela maioria das divindades, quase todos os outros deuses
exploravam seus poderes.
Tornou-se
símbolo do mundo por ser associado à natureza e simbolizar o universo. Está
associado à astúcia bestial. Pan significa TUDO e esse nome está associado à
energia genésica do universo e da vida. Destituído da sensualidade primária,
ele personificará o Grande Todo.
“Os faunos são figurados como
gênios dos campos meio homens e meio-bodes Estes se assemelham, por sua vez,
aos sátiros helênicos, demônios campestres igualmente duplos – homens-cavalos
ou homens-bodes.”
“Todos esses seres costumam
serem associados ao antigo deus grego Pã, também de fisionomia híbrida e
relacionado à fertilidade. Amam o vinho, a dança, a música e principalmente o
sexo, fatores esses que lhes permitem integrarem-se ao cortejo de Dioniso.
“Por outro lado, e
contraditoriamente, tais entes detêm certo poder sobrenatural.”
“Esse poder se manifesta, por
exemplo, pelos dons artísticos – como o da música e o da dança – e oraculares
associados, sobretudo aos sátiros e a Pã, além de sua longevidade incomum, e
pela ascendência divina que por vezes lhes é atribuída”.[2]
Em
sua obra, Plutarco conta que, ao largo das ilhas do mar Egeu, nos tempos do
imperador Tibério, a tripulação de um navio ouviu uma estranha voz que gritou
por três vezes: "O grande Pã morreu". Em seguida, ouviram-se lamentos
e gemidos. Nesse exato momento, o cristianismo nascia na Judéia.
O
mito na clínica
Tentaremos
agrupar alguns elementos encontrados no mito para nortear nossa reflexão com os
aspectos da clínica:
-
Abandono, terror e rejeição associados a sua aparência;
-
Protetor dos campos e pastagens, deus da natureza;
-
Quando é amigo dos homens cuida dos rebanhos e das colméias;
-
Metade homem, metade animal, não pertence a uma categoria fixa;
-
Provoca risos nos deuses/é usado e abusado por eles;
- Associado à dança, à música (Flauta) e ao
cortejo de Dioniso;
-
Astúcia;
-
Energia genésica/sexualidade/fertilidade;
-
Associado à idéia de ‘TUDO’ e ‘TODO’;
-
Dom oracular;
-
Sua morte está associada ao final do paganismo e início do Cristianismo.
O
Pânico é uma experiência numinosa, estamos diante de um evento tremendo, que
faz tremer toda a base da vida da pessoa: o corpo subitamente torna-se portador
de uma experiência global da irracionalidade nua e crua de ‘um outro’, estranho
e aterrorizador. A eclosão do pânico é a experiência da presença absoluta do
desconhecido, expressa pelo terror.
Iniciaremos nossa abordagem pelo nascimento
e abandono de Pã, o terror de sua compleição física.
Ele é um choque, e é abandonado. Sabemos que aqui estamos diante da
experiência arquetípica tão comum que nos mostram os mitos: o tema do abandono
e a criação e educação por outros que não os genitores, no caso, pelas ninfas,
a habitação nas cavernas, etc.
O fato de Pã não ser um olímpico, nem um mortal, nos coloca diante da
delicada questão do não-lugar, tão bem visualizado pela sua forma, metade
homem, metade animal.
Se por um lado, Pã, assim como outros seres mitológicos semelhantes ,
nos lembra quais intensidades nos dominam e nos denominam – os instintos e o
espírito – ele também nos faz conscientes de um não-lugar, tão característico
da condição existencial humana. Enquanto Pã não é nem olímpico, nem mortal, quem
somos nós enquanto seres e filhos da natureza? O que exatamente inaugura a
condição ímpar de sermos como somos? A que se destina? Existe algum sentido?
Em todas as situações em que me deparei com pessoas sofrendo do
Pânico, observei questionamentos existenciais que as atravessavam, sem qualquer
atenuação, até a completa transformação da atitude que bloqueava o
funcionamento do Si-mesmo.
A filosofia trata do não-lugar como a condição sine qua non da existência humana, lugar que o filósofo Juliano
Pessanha descreve com uma imagem contundente: que somos como uma aranha fixa em
sua teia, cujos fios não estão fixos em lugar nenhum. As angústias e intuições associadas
a esse não-lugar adquirem o caráter de crises de pânico como as descritas nos
manuais.
Esse não-lugar apriorístico e condição sine qua non do ser humano, pode
ser vivido de maneira ‘pior’ ou ‘melhor’ dependendo do acolhimento que a nova
vida tem.
Lemos em sua tese de mestrado, que o mundo instituído ao recusar
(1)
a poesia e o estranhamento do novo que o
nascimento de uma nova criança inaugura, e que rompe com a continuidade do
mundo conhecido até então,
Ou, (2) ao recusar a descoberta
que essa faz do mundo recriando-o e re-inaugurando-o, deixa o Si-mesmo ‘preso’ num lugar que não é o abismo do vácuo,
e também não é o mundo, mas uma ‘fenda’. E nessa condição se perguntará como é
possível a vida.
Novamente aqui, essa situação existencial adquire os contornos do
pânico.
Muito semelhante a Jung, o autor sugere que se explore esse não-lugar,
essa fenda, para a partir dali encontrar a história que inaugure sua vida.
Segundo ele, “o homem precisa ser incitado a sair de si, a cancelar o eu e
deixar-se escavar pela fenda, pelo corpo, pela terra, pelo outro, pela morte.
Incitá-lo a uma outra saúde. Uma saúde ampla que hospede alteridades banidas.”[3] A
alteridade banida, no caso que discutimos, é Pã.
“O humano não pertence nem só ao buraco onde não aparece e nem ao
instituído onde desaparece. Entre o ser domado e o não-ser se abre a região
comovida do agradecimento e do encontro.” [4]
Vejamos um pouco como a clínica vê a natureza desse encontro que no
caso de Pã, não ocorreu.
Sabemos pelas teorias das relações objetais que a sensação de
desamparo e a primeira experiência da gravidade vivida pelo ser humano ao
nascer podem ser fatores facilitadores do desenvolvimento de crises de pânico
no futuro, associadas que estão às angústias impensáveis, descritas por
Winnicott.
O autor inglês descreve com detalhes a importância da relação mãe-filho,
que ele denominou de holding para a
formação e criação de um ‘ambiente’ que irá permitir a estruturação do
psiquismo da criança e seu progressivo amadurecimento. Sabemos com Jung, que
nessa etapa a mãe – definida como toda a estrutura que cuida do bebê - constela
o arquétipo central do Si-mesmo.
A clínica confirma esses achados, e no relato das vivências fundantes
com as figuras parentais encontramos situações que esclarecem perfeitamente
essas crises.
Encontramos ‘marcas’ que ‘fundamentam’ o pânico, cuja ‘impressão’ na
psique é a de súbito vácuo, memória de um momento onde uma experiência de
separação e abandono foi vivida, quando o bebê ainda não possuía maturidade suficiente
e se viu só diante do mundo, e paradoxo, um mundo que ainda não existia, ou
seja, se viu diante do ‘nada’.
À perda da mãe, definida aqui pela perda do investimento afetivo,
segue-se a instalação do traumático, e a conseqüente perda do mundo, porque a ‘constituição’
do mundo e a ‘passagem para’ o mundo, ainda não haviam sido amadurecidas.
Esse ‘tipo’ de pânico está vinculado ao horror do vácuo, ao não-lugar,
pois se já não há mais a mãe, e ainda não há o bebê (enquanto unidade
psicossomática) nem o mundo plenamente constituído, onde habitar? Ou melhor,
quem habita? E, o que habita?
A formação do Self também acontece nos embates do instinto e sua
satisfação, o que gera o repouso que possibilita a progressiva integração e formatação
do ‘si-mesmo’. A satisfação incompleta, ou mal sincronizada, não permite esse
estado de repouso tão necessária à formação do Si-mesmo. É comum encontrarmos a dificuldade em relaxar
e repousar nas pessoas que sofrem de crises de pânico, e pensamos que aqui há a
falta é a de experimentar estados caóticos sustentados no tempo. Essa ‘duração’ no tempo é o que permite a
criação da ‘base’ que estruturará toda a personalidade, lugar para onde ela
poderá futuramente ir e voltar, e vivenciar os estados caóticos sem ficar preso
à agonia interminável do não-ser.
Poderíamos pensar na imagem de Pã, metade homem metade animal, como a
de um Self que ainda é ‘meio alguma coisa, meio outra’ e está existencial e
funcionalmente ‘preso’, ‘entre’, um mundo e outro, como sempre estaremos, mas
que não está completamente formado, não completamente nascido para o mundo, e
aquilo que em outros é mais ‘ameno’, nele é carne crua: experimenta o absurdo
da estrutura primitiva como seu próprio corpo e pele, sentindo-se um estranho
em sua própria essência, sentindo a vida como possível apenas para outros. Vida
aqui definida como uma vida sem ‘crises de pânico’.
Não sabemos aqui, se o medo sentido é da vida ou da morte.
Acredito que esse tipo de pânico esteja mais associado às vivências
das angústias impensáveis, primitivas, que arquetipicamente falam também do
início da vida psíquica, tão turbulenta e frágil em sua condição inicial.
Dificuldades nessa fase retardam a plena constituição do Self, fazendo
surgir o que Winnicott designou de falso Self e a pessoa experimenta uma
constante falta de base e a sensação permanente de que pode desabar a qualquer
momento.
Clinicamente, a fuga diante do filho, outro aspecto presente no mito, pode
estar associada a inúmeros eventos, como um luto ou depressão na mãe e na
família, no ambiente aonde chega o bebê, separação precoce, como doença ou
hospitalização prolongada por parte da mãe ou do bebê, etc, situações que
constelam a experiência da falta precoce de uma relação satisfatória entre mãe
e filho.
Acredito que Jung e Winnicott convergem aqui sobre a importância dos
fatores externos na facilitação da formação psíquica – lembramos que sem a
importante e determinante ‘relação humana’, as forças arquetípicas não se
humanizam, e o desenvolvimento e o amadurecimento naturais, enquanto processo
de individuação, ficam prejudicados.
O abandono também pode estar apontando para uma questão arquetípica
crucial: o irracional que Pã representa está fadado a ser sempre abandonado
devido ao horror que provoca. Podemos
então dizer que, arquetipicamente, nós estamos fadados a responder com atitudes
de fuga e rejeição a tudo aquilo que nos causa horror e temor, devido à
irracionalidade mobilizada. Mesmo que não tenhamos crises de pânico como a que
está descrita nos códigos internacionais de doenças, basta nos lembrarmos de
reações violentas nas quais rejeitamos alguma coisa horrível para observar o
fenômeno acontecendo em nós.
Nesse ponto, encontramos com outro elemento importante associado a Pã: a
energia geradora e criadora.
Como é esta experiência de
nos darmos conta de geramos e somos responsáveis pelo que criamos?
No mito, a mãe de Pã, foge
ao ver sua aparência grotesca. Ela foge
de seu próprio fruto.
Sem querer ampliar esse
tópico para a figura humana de uma mãe, gostaria de refletir sobre nossa
relação com o que criamos, não voluntariamente, mas autonomamente, nossa
relação com aquilo que vem de nosso corpo, de nossos afetos, de nossos
instintos, de nossos pensamentos, nossos atos, sem que o queiramos, ou seja, toda
nossa produção autônoma que habita a sombra.
Díopre se espanta com o
aspecto duplo de Pã, assim como nós que renegamos aquela parte grotesca de
nosso ser, dizendo que não somos ou fomos nós que agimos como agimos, fenômeno
tão bem descrito por são Paulo quando
diz que ‘não faz o bem que quer, mas o mal que não quer’.
A psicologia analítica é
extensíssima no que se refere à necessidade de nos confrontarmos com a sombra.
Se é verdade que Pã
representa para os Gregos ‘a razão do que não tem razão’, estamos fadados a
sempre nos confrontarmos com o irracional. Ele impede nossa estagnação!
Tenho observado em algumas
pessoas sofrendo o pânico a presença de uma rigidez intelectual disfarçada numa
atitude de pseuda flexibilidade: talvez como uma forma de defesa, o psiquismo se
estrutura quase que integralmente nos patamares de uma racionalidade que diz de
si mesma que é ‘aberta e democrática’, mas que aprisiona o Si-mesmo numa
espécie de cordialismo, não permitindo a presença de afetos dissonantes ou
conflitantes a essa atitude cordial e civilizada.
Associada está uma
infantilização que abruptamente
transforma-se em fúria diante de uma decepção ou frustração.
As explosões afetivas
autônomas contém grau tremendo de energia que geram a própria base que a pessoa
procura, mas os afetos contradizem muito o que a pessoa gosta de ser, ou de
acreditar que é. Sua base, falsa, rejeita sua própria produção afetiva.
Essas explosões
aparentemente não tem vínculo algum com as crises de pânico, e no entanto, as
crises diminuem à medida que esses afetos são aceitos, permitindo uma expansão do si-mesmo trazeendo um embelezamento à
personalidade.
A energia criadora
associada à Pã, antes restrita ao terror, manifesta-se progressivamente como
uma indefinida e vaga sensação de que o que a pessoa vive é pouco: começam a
perceber as múltiplas escolhas que a vida oferece, aparece a dificuldade em
escolher e limitar essa multiplicidade e em descobrir o canal apropriado para a
expressão de sua singularidade. Esssa
questões anunciam as novas paisagens a serem descortinadas.
Nessas situações, parece que
a dinâmica de Pã é uma dinâmica iniciadora.
Seu incrustamento na vida de alguém parece dizer que algo precisa acabar
para uma outra vida poder iniciar-se. As forças genésicas se manifestam e
transformam o panorama psíquico.
Há aqui o encadeamento com um outro aspecto
importante de Pã que mais me surpreende: seu aspecto oracular. Os
intensos afetos antes apavorantes agora modulam uma nova postura. Dessa forma,
o pânico anuncia, como um oráculo, a possibilidade e necessidade de mudança.
Observei essa dinâmica acontecendo
de modo mais contundente com os usuários de maconha.
Permito-me dividir com
voces duas situações-limite que incitaram as pessoas a procurarem a análise.
Numa primeira situação, o
jovem usuário fumava maconha 2 a 3 vêzes por dia. Me procurou para análise
porque gostava de Jung.
Seus sonhos comumente apresentavam
cenas de perseguição que geravam típicas reações de ansiedade, que o
mobilizavam tanto a ponto de levá-lo a ir dormir com os pais. Devido ao
conhecido potencial das drogas desencadearem crises de ansiedade, por ativarem
núcleos afetivos inconscientes, sugeri que os sonhos pudessem ter ligação com o
uso crônico da maconha, o que foi franca e veementemente negado.
Em uma ocasião, quando o
jovem fumou seu cigarro, experimentou uma presença apavorante que lhe dizia que
ele, o jovem, teria 3 chances de fazer algo diferente, caso contrário algo
aconteceria. Na mesma semana, bebeu e fumou exageradamente e quando se
apresentou a terceira oportunidade de
fumar e beber, aconteceu o que ele chamou de vivência de horror: a mesma figura
apareceu às suas costas e o aprisionou com um abraço e ele experimentou um
terror e pânico que não conseguia controlar, e que só suavizou-se algumas horas
após o término do efeito da maconha.
Sugeri que o Pânico estava a ponto de estruturar-se se ele não re-avaliasse
sua atitude frente ao inconsciente.
Feito isso, as crises não retornaram.
Num outro jovem, a crise
começou quando usou a maconha antes da prática de um esporte radical. A crise em meio à execução do esporte poderia
tê-lo matado, não fosse o extremo controle que o jovem tinha adquirido em suas
práticas. Posteriormente, relatou que fumava maconha antes de todas as
atividades onde ele excedia o limite, e que gostava de desafiar esses limites,
insistindo sempre em alcançar um novo, e sempre em situações de risco, porque ‘dava
mais adrenalina’.
Nessas situações, fica
claro que o pânico é uma espécie de oráculo, pressagiando algo à pessoa. É interessante perceber que o pânico ao mesmo
tempo funciona como ‘um guardião das
pastagens do inconsciente’, pastagens que estão sendo visitadas de
modo desrespeitoso. Há algo de estranhamente ‘amoroso’, se é que
podemos dizer isso, nessa situação: há uma espécie de proteção à própria pessoa
em questão, que age sem saber onde está se colocando. Pã lembra-nos do limite, pois se adentrarmos
o irracional de uma forma abusiva, seremos dominados e aprisionados por ele.
Paradoxalmente, ele nos paralisa para nos proteger de nós mesmos.
Pã está associado a Dioniso, deus do êxtase e do entusiasmo, tão comum
nos estados alterados de consciência. No mito do deus Dioniso, encontramos a
experiência de terror, que acontece pouco tempo depois dos êxtases e orgias
conhecidos – as mênades ficam paralisadas pelo terror, o olhar fica estático, e
são envolvidas por terrível silêncio. O terror é um aspecto importantíssimo na
experiência numinosa.
Essa talvez seja uma bela imagem do quanto precisamos deixar a
ingenuidade e repensar que a manifestação das forças criativas pode ser
terrível experiência.
Nesse casos relatados, o
pânico apareceu para aqueles que negavam o medo associado ao limite, ou diziam-se superior a ele.
Não obstante essa vertente oracular ser clinicamente perceptível em
usuários de maconha, a encontramos também num outro enquadre: algumas pessoas
vivenciam as crises diante da enormidade da vida adulta, tarefa que lhes parece
pouco acessível. Nesses, a herança
familiar, não só paterna e materna, mas até anterior, é carregada de medo da
vida e o caminho para segurança reside em encontrar maneiras ‘normais’ de
viver, como um bom casamento, um bom emprego, etc.
Essa ‘receita’, não seria de toda má se a vocação individual não
tivesse outros planos... Então, a sensação e medo de ficar preso em um ambiente
(elevador, banheiro) revelam a contrição da alma que anseia por novas paragens,
mas que não tem força para lançar-se devido ao medo de fugir da herança
parental, pois há uma espécie de sensação de traição se abandoná-la.
Numa delas, a jovem tinha formação universitária e estava agora
prestes a seguir sua carreira, mas não conseguia, e atribuía a isso o fato de
ter pânico. A análise permitiu que ela
vislumbrasse que escolhia o caminho de um concurso público porque acreditava
que assim ‘agradaria aos pais’, pois isso lhe ofereceria segurança para o resto
da vida, uma boa aposentadoria, etc. Ficou claro que a necessidade de segurança
era um fator transgeracional muito marcante (seus antepassados eram
imigrantes). Temos aqui o desenraizamento da família de origem como um fator trans-geracional importante de ser pesquisado.
O pânico e o medo do aprisionamento eram a expressão atual de um Si-mesmo
que já vivia aprisionado, no caso não no corpo físico, mas no corpo herdado de
uma tradição familiar.
Mas, há aqueles casos em que a vivência de aprisionamento revela uma
relação preconceituosa com o corpo, preconceito onde há também certa anterioridade:
os padrões que estão relacionados ao ‘disparo’ de uma crise parecem provir de
um tempo que não é o tempo histórico da pessoa em questão, e que, no entanto, os
herdou para, quem sabe?, solucionar.
Na riqueza de sintomas e imagens que apresentam, encontramos imagens
de solidão, de impotência, de medo extremo, fantasias de que o corpo é doente
de uma forma inexplicável, há construção de defesas racionais aliadas à
necessidade de controle, há também a impossibilidade de abandonar-se aos
cuidados do outro, conjuntamente com o medo da perda e da separação, do
abandono e da solidão.
Não raro, já que as crises são mais comuns em mulheres, notamos que o
amadurecimento é mais sofrido: assumir a própria vocação, seja a profissional,
seja a emocional, a sexualidade, tudo é apavorante, e as fantasias que aparecem
é que se deixarem-se levar pelo que intuem ser o próprio desejo terão
comportamento permissivo, devasso e chocante.
Encontramos aqui a face mais conhecida de Pã: a sexualidade e a sensualidade, quando a intensidade do desejo é
apavorante.
Quando escavadas, as imagens nos levam às heranças familiares onde o
corpo, a sexualidade são tabus, não raro o corpo é fonte de doenças, câncer, no
corpo há algo que acontece e cresce sem você saber como... e a fuga e o pânico
são iguais à fuga do corpo, um querer sair de si mesmo.
Aqui é comum encontrarmos a sexualidade como o principal tabu. Mesmo
que a pessoa em questão não apresente queixas sobre a própria sexualidade, há
na história familiar relatos de tabus, segredos, envolvendo histórias de paixão
e sensualidade vivida numa época onde eram proibidas, mas a família não fala
sobre o assunto. Essa dinâmica apareceu mesclada com o medo constante de surgir
uma doença. Na situação em questão, logo que a história e os tabus puderam ser identificados
e os afetos associados foram reconhecidos, as crises retrocederam.
Aqui vemos papel do enigma e do tabu, e de tudo aquilo que não falamos,atuando
sobre a psique dos que estão chegando... Aquilo que é pressentido, mas não tem
possibilidade de ser nomeado e falado pode gerar pânico.
A fuga da Terra
Talvez a imagem mais interessante que encontrei associada ao Pânico foi
a imagem da Terra vista do espaço. A infinitude do universo, ou a Terra suspensa no
vasto escuro do infinito, desencadeavam crises de pânico.
Nesses
momentos, a pessoa se dava conta de uma ‘irracionalidade’ que fazia tremer o
chão. A pessoa sente-se tão desenraizada que a imagem da Terra vista de longe
dispara as crises.
É
interessante que a revolução sexual, a liberdade que desfrutamos, a
flexibilização das relações, a mudança dos papéis, não modificaram em nada a
dinâmica do Pânico.
Individualmente,
encontramos ainda tabus associados à sexualidade, mas tenho a impressão que
imagens contundentes como essa apontam para um aspecto mais coletivo, na
direção do poder.
Pã
representa a energia genésica e está ligado às energias de criação e reprodução
como vimos, o que nos leva a pensar que o pânico pode estar indicando uma inadequação
da consciência no que se refere aos processos criativos do qual a sexualidade
faz parte.
Sabemos
que a nossa relação desrespeitosa com a natureza desenvolveu-se quando o homem dela
se apossou para seu próprio benefício, um efeito colateral da cristandade que
atingiu grande importância na Idade Média e Renascimento: com o desenvolvimento
da razão, o homem outorgou-se o direito de ocupar e utilizar os recursos
naturais, incluindo a sexualidade, para seu próprio benefício sem pensar muito
profundamente no impacto que isso teria sobre a natureza, dentro e fora dele.
O Mito de Pã não oferece um pano de fundo que possibilite uma
abordagem direta dessa imagem onde o planeta aparece, e penso que a própria
imagem é a cena mítica moderna, após a conquista do espaço. Afinal, o desejo de ‘sair’ da Terra tornou-se
uma realidade e a imagem poderia conter alguma pista sobre a angústia, tão
característica da Síndrome de Pânico.
Nunca
compreendi muito bem essa dinâmica do Pânico com o planeta Terra, até encontrar
num texto uma reflexão maravilhosa que divido com vocês.
Hanna Arendt em seu livro “A Condição Humana” fala, em 1958:
“Em 1957, um objeto terrestre,
feito pela mão do homem, foi lançado ao universo (...). Este evento, que em
importância ultrapassa todos os outros, teria sido saudado com a mais pura
alegria não fossem suas incômodas circunstâncias militares e políticas. O
curioso, porém, é que essa alegria não foi triunfal; o que encheu o coração dos
homens(...) não foi orgulho nem assombro ante a enormidade da força e da
proficiência humanas. A reação imediata,
expressa espontaneamente, foi alívio ante o primeiro “passo para libertar o
homem de sua prisão na terra”.
“Essa estranha declaração
refletia, sem o saber, as extraordinárias palavras gravadas no obelisco fúnubre
de um dos grandes cientistas da Rússia: “A humanidade não permanecerá para
sempre presa à terra”.
“A banalidade da declaração não
deve obscurecer o fato de quão extraordinária ela é, pois embora os cristãos
tenham chamado essa terra de “vale de lágrimas” e os filósofos tenham visto o
próprio corpo do homem como a prisão da mente e da alma, ninguém na história da
humanidade jamais havia concebido a terra como prisão para o corpo dos homens
nem demonstrado tanto desejo de ir, literalmente, daqui a Lua”.
“Devem a emancipação e a
secularização da era moderna que tiveram início com um afastamento não
necessariamente de Deus, mas de um Deus que era Pai dos homens no céu, terminar
com um repúdio ainda mais funesto de uma terra que era a Mãe de todos os seres
vivos sob o firmamento?”
“A Terra é a própria
quintessência da condição humana e, ao que sabemos, sua natureza pode ser
singular no universo, a única capaz de oferecer aos seres humanos um habitat no
qual eles podem mover-se e respirar sem esforço nem artifício. O mundo –
artifício humano – separa a existência do homem de todo ambiente meramente
animal; mas a vida, em si, permanece fora desse mundo artificial, e através da
vida o homem permanece ligado a todos os outros organismos vivos.”
“Recentemente, a ciência vem-se
esforçando por tornar ‘artificial’ a própria vida, por cortar o último laço que
faz do próprio homem um filho da natureza.”
“O mesmo desejo de fugir da
prisão terrena manifesta-se na tentativa de criar a vida numa proveta, no
desejo de misturar o plasma seminal congelado de pessoas comprovadamente
capazes a fim de produzir seres humanos superiores (...).”
“Esse homem do futuro parece
motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um
dom gratuito vindo do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar por
algo produzido por ele mesmo.”[5]
“Um dom gratuito vindo do nada, que ele deseja trocar por algo
produzido por ele mesmo” – que nos permitamos saborear essa frase, lembrando
que Pã é para os gregos ‘a razão daquilo que não tem razão’. Chegamos à
irracionalidade, no mistério, e na nossa relação com ele.
Como nos relacionamos com o dom recebido? Sabemos reconhecê-lo?
Acolhemos ou rejeitamos a responsabilidade do dom recebido da vida?
Pã representa e apresenta uma espiritualidade associada à Natureza e
que não foi perdida, mas que está à sombra.
O
paganismo nunca foi uma religião e nunca existiu a não ser em contraste com o
cristianismo. Os cristãos inventaram não só o termo como o sistema, sempre em
comparação com o cristianismo.
O termo ‘pagão’ é um termo relacional que não
existe, e o pagão só existe à partir da comparação com um cristão.
A religião greca-romana é caracterizada exatamente
por sua falta de distinção, ou de um nome para si própria. Como reação à atitude cristã, tentou-se
alguma sistematização.
O conceito cristão de ‘pagão’ foi influenciado pela
tradição judaica que necessitva separar-se de outras nações para
constituir-se. Gôyîn, do hebraico, inicialmente neutra, refere-se ao
outro, ao estrangeiro, ou outra nação que não a hebraica. Adquire conotação negativa após o período do Exílio,
para designar todos que vivem fora da Lei judaica.
No Novo Testamento encontramos a palavra grega ethne, traduzida do
hebraico gôyîn, e que no Latim é gentes e gentiles – os gentios.[6]
É interessante notar uma contradição: na passagem bíblica "Caiminho a Emaús", os seguidores de Cristo conversam com um homem que é 'estranho', 'estrangeiro', sendo inclusive assim denominado. Somente depois reconhecem Cristo naquele que sumiu...
Vejamos agora, algumas características do assim chamado ‘paganismo’.
Gostaria que voces mantivessem a atenção sobre essas características, pensando
em tudo que a nossa herança coletiva judaico-cristã abafou e que pode contribuir para
nossa atual relação desbalanceada com o inconsciente:
1) " Sua principal característica é uma forte
ligação à terra, à Natureza, tida como sagrada e viva;
2) " Há um sentimento de corresponsabilidade
entre todos os membros da comunidade, ligados por laços de parentesco ou a um
ancestral comum;"
3) " Noção cíclica do tempo, a partir dos fenômenos naturais (estações do ano, lunação,
movimentos do sol,
etc), em contraste à noção linear das culturas de matriz abraâmica;"
4) " Desenvolvimento de uma medicina natural,
baseada nas qualidades curativas das ervas, e xamânica, baseada no poder fértil
da Natureza;"
5) "Adivindade se encontra na própria Natureza
(incluindo os seres humanos), manifestando-se
através dos seus fenômenos;"
6) "A ausência da noção de pecado, inferno e
mal absoluto;"
7) " Ausência de templos, o que, no entanto,
não impede a noção de sítios sagrados, em geral bosques, poços ou montanhas.
Templos Pagãos são um desenvolvimento muito posterior;"
8) " O calendário religioso se confunde com o
calendário sazonal e agrícola, o que lhe confere um carácter de fertilidade. As
festividades acontecem nos momentos de mudança e auge de ciclos naturais;"
9) " Ausência de dogmatismos ou estruturas
religiosas padronizadas, havendo, pois, uma grande liberdade individual de
culto, assim como há rituais comunitários;"
10) "A perspectiva cíclica do tempo dá a
certeza do eterno retorno."
O encontro com a Deidade se dá sempre na comunhão
com a Natureza, e não no Outro Mundo, ou seja no presente e no aqui-agora da
experiência – em outras palavras, no planeta Terra!!
- "A partir do século IV, o Cristianismo
se tornou religião oficial em Roma. A primeira proibição efectiva dos cultos
pagãos foi decretada no Império
Romano em 392.[3]"
- "Em 435 as medidas contra
o paganismo foram reforçadas com a pena de morte para quem continuasse a fazer
rituais pagãos, que envolviam sacrificios humanos e de animais.[4].
As dificuldades da Igreja ainda cresceram com as invasões bárbaras do século V.
A maioria dos invasores eram pagãos, mas verificou-se um ponto de viragem à
volta do ano 500, quando os Francos se converteram do paganismo ao
cristianismo."
- "Com a conversão dos
Lombardos arianos e dos pagãos anglo-saxónicos em 680, o cristianismo passou a
dominar quase por completo o espaço cultural da Europa ocidental."
- "Entre os habitantes do
campo e nos estratos mais baixos da sociedade, porém, o paganismo continuou de
forma mais ou menos mitigada. Os pagãos não se tornaram cristãos do dia para a
noite."
- "Os sacerdotes cristãos
passaram a cristianizar muitas festas pagãs, dando-lhes um novo sentido. A
maioria dos templos Pagãos foram sendo derrubados e no seu lugar erigidas
igrejas da nova fé. O que a Igreja não conseguia destruir das antigas práticas
religiosas, adaptava, transformando-as em práticas cristãs."
-" Durante um longo período,
houve uma fé dupla: acreditavam em Jesus, mas não abandonavam inteiramente as
suas crenças e práticas pagãs. Isso foi mais claro nas regiões germânicas onde
a influência do cristianismo faz-se sentir nas inscrições em que se nota uma
clara mistura das duas crenças quando lemos em uma mesma pedra a invocação de
proteção ao deus e, ao mesmo tempo, ao Cristo."
- "Não vamos pensar que tal
dominação ocorreu de forma pacífica ou rápida. Na verdade, a Igreja Católica
nunca conseguiu extinguir, de fato, as crenças classificadas pagãs."
- "No final do século XIV, a
perseguição aos "hereges" assumiu também a forma de perseguição a
cultos e práticas pagãs. Durante quase 400 anos, muitas pessoas morreram
acusadas de prática de bruxaria. Muitos dos acusados eram denunciados por
médicos, tentando implantar a medicina científica contra os curandeiros e
"bruxos" adeptos das medicinas naturais."
- "Desde finais do século VII
e até 1789 - ano da Revolução Francesa - o paganismo esteve
praticamente ausente nas altas esferas intelectuais e políticas do mundo
ocidental", mas não necessariamente ausente do inconsciente, como demonstraram
as duas grandes guerras mundiais, como fala Jung em seu trabalho ‘Wotan’, onde
explicita a não-completa cristianização da Europa, a projeção disso sobre os
judeus e sobre outras minorias e a consequente
prática do extermínio em massa, a outra face do pânico, “que transforma uma
nação inteira numa horde selvagem...”
Que estamos observando aqui
senão o fenômeno do comportamento em massa?
Calazans em seu artigo
sobre a influência da mídia nos movimentos de massa é tocante. Descreve como um
grupo movido por um sentimento comum passa se comportar como uma horde.
Lembremos que quando é
amigo dos homens, Pã cuida dos rebanhos e das colméias. Alguém já esteve em meio a um estouro de
boiada ou num enxame de abelhas? Ou num 'arrastão'? Onde não há uma singularidade, uma responsabilidade individual, uma consciência?
Pã é representado como aquela força presente em nossas funções subcorticais, nosso cérebro reptiliano, que quando
está no comando abole todo o livre-arbítrio, a ponto de ser uma questão
jurídica sobre a responsabilidade do ato praticado ser das pessoas ou não.
Aldoux Huxley, no mesmo artigo de Calazans, diz que esse
estado é um estado de férias para a responsabilidade de nossas vidas... Ora,
percebemos que é possível que Pã coopere com o homem, mas ele, Pã, não muda
seu modo de ser por isso.
Apesar de Plutarco ter
afirmado que Pã morreu quando Cristo nasceu, a História e a clínica mostram que
não.
Há uma lenda cristã que
apresenta a morte de Pã junto com a morte de Cristo[7]. Segundo
Otto, um deus apenas substituiu o outro, mas a divindade permanece a mesma.
Para ele, três grandes
revoluções aconteceram e mudaram o mundo num mundus saecularis, lideradas por Darwin - a Teoria da evolução - , Marx,
- a natureza social do homem - e Freud, - o Inconsciente. O homem intelectual de nosso século
divorciou-se de sua identidade de homo
religious e adotou a filosofia do não-transcendente.
“O Homem não-religioso assume uma nova situação existencial: rejeita a transcendência e insiste em se olhar como o único
agente e sujeito da História. Continua a
não aceitar qualquer outro modelo de humanidade além daquela pensada e
construída por ele mesmo. O homem
fabrica ele mesmo, e ele somente o faz na medida em que se dessacraliza e
dessacraliza a natureza. O sagrado é o principal obstáculo a sua
liberdade. Ele se tornará ele mesmo
apenas quando ele for totalmente desmitificado. Ele não se tornará livre a não
ser quando ele matar o último deus.” [8]
Se a experiência clínica
tem alguma validade na atual conjuntura econômica, política e social, podemos
dizer enfaticamente com Otto que a divindade não se modificou e que os deuses
continuam ativos, como a clínica do Pânico demonstra.
E Pã continua,
incansavelmente, a nos salvar de nós mesmos...
“Pã não morreu...”
O Deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra Aos sorrisos de Apolo Os peitos nus de Ceres— Cedo ou tarde vereis por lá aparecer O deus Pã, o imortal. Não matou outros deuses O triste deus cristão. Cristo é um deus a mais, Talvez um que faltava. Pã continua a ciar Os sons da sua flauta Aos ouvidos de Ceres Recumbente nos campos. Os deuses são os mesmos, Sempre claros e calmos, Cheios de eternidade E desprezo por nós, Trazendo o dia e a noite E as colheitas douradas Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo Mas por outro e divino Propósito casual. |
O Deus Pã não morreu Ricardo Reis, Odes
[1]Dupuy, Jean Pierre. El Panico. Edit. Gedisa,
Barcelona, 1999, pag. 30, citado por Luís Humberto H. Flórez, pag.11. http://www.javeriana.edu.co/biblos/tesis/derecho/dere5/TESIS18.pdf.
Acessada em 03/10/09
1 O “Fauno” de
Mallarmé e o mito de Pã e Siringe: olhares cruzados
entrevistas entre a representação do mito sobre a origem da flauta de Pã, Relações intermidiáticas.
www.inventario.ufba.br/07/OFaunoDeMallarme.pdf - acessado em 13/09/09
entrevistas entre a representação do mito sobre a origem da flauta de Pã, Relações intermidiáticas.
www.inventario.ufba.br/07/OFaunoDeMallarme.pdf - acessado em 13/09/09
[3]
Pessanha, J.G., Instabilidade Perpètua,
Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica na PUC de São Paulo, 2009, pag.9.
[4]
Ibid, pag. 15.
[5]
Arendt, Hanna, A Condição Humana, Forense Universitária, paginas 9 e 10.
[6] Kahlos, Maijastina, Debate and Dialogue:Christian and Pagan
Cultures c. 360-430. Ashgate Publishing,University of Helsinki, Finland.
Pag.20.
[7] Otto, Walter F.. Dionysus - Myth and Cult.Spring Publications, Dallas, Texas. Pag. 10 e notas.
[8]
Ibid, Pág. 11
quarta-feira, 25 de abril de 2012
A Fotografia em dois tempos: Henri Cartier Bresson e Diane Arbus
Sonia Maria Marchi de Carvalho, Arquitec 5N - Março/2008
“Aprendo
a ver. Sim, estou no começo. Ainda vai mal. Mas quero dedicar a isso meu tempo”.
R. M. Rilke
O filme grego “Noivas” tem em Norman
uma de suas personagens principais: fotógrafo, teve suas fotos recusadas por um
jornal por serem ‘muito pessoais’ já que o momento de guerra pedia fotos mais sensacionalistas,
menos poéticas, ou que levassem a sentir e pensar a guerra. Desiludido, Norman decide abandonar a
fotografia e retornar aos EUA. No navio
encontra Niki e as outras ‘noivas’, que estão indo para América para casar com
alguém que nunca viram. Niki vê as fotos de Norman e o Amor
devolve-lhe o dom: ele fotografa as mulheres (700?), da terceira classe do navio, em seus vestidos de noiva. Norman recupera seu registro de mundo e, ao chegar aos
EUA, publica as fotos, denunciando o drama vivido por elas.
Conto essa história porque esse
filme reacendeu o impulso de me aventurar na fotografia: ao vê-lo olhando as
cenas das crianças junto à ‘Árvore dos Desejos’, seu contato amoroso com a realidade
que observava, e fixava através câmera, constatei uma linguagem cujo significado
etimológico diz tudo: a grafia da luz! Lugar
de poesia, onde olhar e coração têm passagem comum e silenciosa. Nada mais eloqüente e silencioso que uma
fotografia! Eu que sempre adorei o
silêncio, e também a comunhão com o mundo, pensei - “Eis um canal!”.
Falar sobre mestres da fotografia
requer humildade! Vamos ver se consigo
‘brincar’ com as imagens, lembrando que todo testemunho é um pouco um
testemunho de si mesmo!
Henri
Cartier Bresson
"A gente olha e pensa: Quando aperto? Agora?
Agora? Agora? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo,
tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo ou o perdemos, e não
podemos recomeçar. O desenho é uma meditação, enquanto que a foto é um tiro.
Você pode apagar um desenho e fazer outro, você não está lutando contra o
tempo. Mas, com a fotografia, há uma espécie de angústia constante, pelo fato
de você estar presente em um momento que não mais se repetirá. Mas é uma
angústia muito calma”.
Behind the Gare Saint Lazare,1932.
Essa foto me impressionou pelo
momento mágico que Bresson conseguiu capturar: o toque do pé no chão. A impressão que tenho é que a cena foi
congelada, segundos antes da água se turvar, o que alteraria o espelho
natural!
O céu refletido dá a impressão que o
homem ‘salta’ para essa imensidão especular, um paralelo do mundo concreto da
cidade, que ali, também refletida na água, compõe o pano de fundo.
Há uma tensão e expectativa que une
o lúdico com o desconhecido: do salto leve, mergulhará ele na água ou no
céu? Há a sugestão de um caminhar que
seguirá solto no espaço, assim como a impressão de que ele afundará dentro de -
um lago?
‘Caminhar’, metáfora do viver,
revela aqui seus prazeres, riscos, suas surpresas, seus espelhamentos...
Não tenho dúvida que poder captar as dimensões
da existência era atividade extremamente lúdica para Bresson. Um simples dia de
chuva e suas poças transformam-se, em suas mãos, numa oportunidade de se pensar
nosso viver!
Essa imagem me remeteu a outro
espelho, o “Mar Português”, de Fernando Pessoa:
“...
Quem quer passar além do Bojador
Tem
que passar além da dor.
Deus
ao mar perigo e o abismo deu,
“Mas
nele é que espelhou o céu”.
Adorei essa foto! Acho que foi por isso que a escolhi para
iniciar esse exercício...
Arizona, 1947
A paisagem dessa foto é a vastidão
do deserto americano, lugar de passagem da famosa rota 66 e de todo o
imaginário que o cinema explorou.
O deserto está presente nos mais antigos westerns e em outros filmes que marcaram
época como: ‘Easy Rider’, ‘Paris, Texas’,
‘Thelma and Louise’, e mais recentemente, ‘No country for Old Man’. Em
todos os filmes, a paisagem inóspita é uma personagem vital, compõe a história
e a alma americana.
Selvagem e de difícil ocupação, o
deserto é local de liberdade, oportunidade de solidão, lugar para o que
quisermos de bom e de mau, lugar de arbítrio. É lugar de desafio: sua travessia
é um longo teste de resistência e de sobrevivência, biológica e ética. É lugar de encontro com o desconhecido de nós
mesmos. Como o próprio nome parece sugerir – ari-zona – estamos no árido!
“Mesmo sem aparecer ninguém, ou
exatamente por isso, é a solidão que corta essas paisagens, e não poderia ser diferente já que em um país tão grande como os
Estados Unidos, tanto espaço, é esse desamparo o que
mais comove. Os EUA, país com grande carga simbólica, onde sempre foi fácil criar lendas e forjar ícones, desde sua
independência, e até antes, conseguiu atrair diversos povos em troca de um
admirável mundo novo com trabalho, dinheiro e promessas. Essas esperanças e as
conseqüentes desilusões são o motor principal de todo o imaginário americano”. [1]
No primeiro plano, encontramos o
automóvel, mais novo que o trem, porém despedaçado. Logo atrás, mais destroços e, ao fundo, vemos
o trem vencendo as distâncias de maneira destemida e objetiva, num ‘non-stop
movement’.
Sua linha contínua é paralela à do
horizonte mais além: somos convidados a olhar um ‘horizonte que se move’, da
esquerda para a direita, ao invés do ‘apenas’ e natural ‘olhar à frente’, como
espontaneamente acontece quando olhamos o horizonte. Ao invés de uma contemplação natural e
pacífica da natureza, somos remetidos ao horizonte dinâmico da civilização e ao
avanço da tecnologia que tanto caracterizaria os EUA nas décadas posteriores a
essa foto.
Mas, não podemos esquecer que
Bresson é europeu e vê as coisas de
um ângulo diferente. Há um quê de ironia a respeito das vantagens e superioridade da tecnologia, portanto do homem,
sobre a natureza.
Completamente destroçado e no
primeiro plano da foto, o estado do carro sugere que o Tempo vence até as mais
avançadas e refinadas invenções humanas, enquanto que o deserto sobrevive ao
carro, ele permanecerá...
Só o trem avança contra o Tempo,
esse inexorável... Quem é ele?
E me lembro de Raul Seixas:
“Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão
Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar
Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons
Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral
Amém”.
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão
Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar
Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons
Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral
Amém”.
“Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se... ofende os que desejam ir para onde lhes aprouver, não para um túmulo de massa, um povo de pensadores”.
Volker Braun, 1965
A imagem dos
três homens de pé tentando ver por sobre o muro tem, para mim, um quê de humor
que tentarei seguir para descrever a cena.
Não sei bem por quê eles ali em cima me
lembram cenas circenses. Algo assim como Davi X Golias, ou o Bobo da Corte.
Talvez porque só o grotesco, o impossível e o absurdo dos palhaços dêem conta
da violência, como é a do autoritarismo, seja de direita ou esquerda. Mas, não importam
os obstáculos, o homem (ou a vida?) vai tentar todos os meios para
superá-la.
A linha
diagonal que os prédios formam, vinda lá do fundo em direção a margem direita,
mostra claramente que a seqüência de prédios continua, mas é interrompida na
margem da foto.
Bresson faz a linha horizontal do
muro coincidir com a diagonal dos prédios exatamente na margem direita,
reforçando essa impressão de interrupção: a construção do muro foi a reação
abrupta e violenta da Rússia comunista no pós-guerra.
Os três homens de pé me fazem pensar
na Inglaterra, EUA e França, os três outros ocupantes da Alemanha no
pós-guerra. A três potências ocidentais vencedoras encontravam agora a parede
comunista... Iniciava-se a Guerra Fria.
Toda a cena está carregada de muita
perplexidade, o que nos aproxima um pouco daquilo que a população deve ter
sentido na madrugada do dia 13 de agosto de 1961, quando o muro foi construído.
Não há mais ninguém nas ruas, nem nas janelas, o que reforça a sensação de
recolhimento e constrangimento, além do medo.
Os homens alinham-se e parecem
utilizar a vertical do prédio, à esquerda, para somarem-se e sentirem-se
maiores que o muro. De fato, temos a
impressão que eles conseguem ver além da altura do muro, num tocante gesto de
‘ver além do bloqueio’. Talvez numa
tentativa de ‘se esticar’ além da cisão que vivia a cidade-símbolo de um país já destroçado.
As dimensões das construções e o
tamanho do homem, a ausência de pessoas ao redor, tudo deixa uma impressão
esmagadora: um muro os separa?! Os detém?! Tem toda essa força?!
Difícil não perguntar “que
fizemos?!”
As direções escritas no postinho
ficam, de repente, sem função diante do muro atrás de si...
Rue
Mouffetard, Paris – 1952
“O vinho é composto de humor, líquido e luz.”
Galileu
Essa foi
a primeira fotografia de Bresson que vi.
Ganhei-a na forma de um cartão de aniversário. Eu me apaixonei pelo orgulhoso menino
carregando as duas pesadas garrafas de vinho, tarefa leve, leve, em suas
mãos. A expressão de seu rosto revela
que ele sabe o que tem nos braços, com certeza um bom Bordeaux...
Eu não
ficaria surpresa se soubesse que, nessa idade, ele já conheça alguns dos bons
segredos do cultivo da uva, sobre a terra, sobre a temperatura do sol no verão
e no outono...
A
profundidade do campo transforma a rua em sua caminhada, que parece ser o vir
desde lá de trás até a esquina – ele está, aos poucos, deixando a infância...
Nós o
vemos chegando à esquina, onde as ruas se encontram e a visão se expande: ele
vê o mundo e pode ser visto também. As meninas, atrás, sorriem e admiram seu
grande feito.
A cena
toda festeja e celebra seu orgulho de menino que se sabe homem um dia, e as
palavras do poeta - “o menino é o pai do homem” – ecoam em meus ouvidos...
Bresson captou um momento singular: toda
força da cena concentra-se nos sentimentos desse garoto a quem tão importante
tarefa foi designada – “Prendre le vin!”
Um
vinho... Trazido com a honradez e êxtase dignos de um Dioniso...
Não
consegui encontrar o título nem a data dessa foto.
Ela me
entra com a mesma força e impacto de uma pintura abstrata. Sua textura, seus
tons de cinza, seus contrastes, o enquadramento, e a figura do jovem e da
carroça formam uma belíssima composição.
O jovem
está no centro e ao fundo da foto, dando toda a profundidade da cena, que não
fosse assim, seria bidimensional.
O que é o
homem senão a consciência da vida sobre si mesma? Bresson nos lembra que não importa o tamanho
de nossas construções é o ser humano que lhes impregna de profundidade e
sentido.
A carroça
lembra o cotidiano e suas tarefas, brevemente interrompidas para se observar –
o que? O jovem está no limite entre a
sombra e a luz e desperta a curiosidade sobre o que estaria vendo...
Brie, France, 1968
Essa foto traz tantas associações
sobre o viver e o criar, sobre caminho e caminhar, sobre o adentrar a vida e
suas composições, que fica difícil escolher o que abordar...
No primeiro plano, na base,
observamos a estrada ocupando as margens da foto de ponta a ponta. Estamos no presente, no lugar mesmo do
fotógrafo. Sua objetiva aponta o caminho
à frente: o futuro? A morte?
O estreitamento natural rumo ao
infinito e horizonte corroboram essa dupla impressão. As árvores, compondo uma espécie de túnel,
‘agasalham’ o caminhante em sua jornada.
O campo vasto e largo sugere um momento pacífico de introspecção, de
encontro com si mesmo e com o ‘Outro’, o desconhecido que se encontra ao
caminhar, e o despojamento que esse caminhar encerra, caminho que se faz ao
caminhar...
”No chão de asfalto
Eco, um sapato
Pisa o silêncio
Caminhante noturno (...)
Vai caminhante, antes do dia nascer
Vai caminhante, antes da noite morrer
Vai caminhante”.
Caminhante
Noturno – Rita Lee
Srinagar, Kashimir, 1948
Que horas serão? Final de tarde ou início da manhã?
As mãos estendidas são as de
louvação.
Mãos que se estendem ao céu para
receber a dádiva da Luz, da Terra e da Vida depositadas diante de si. As outras comungam a contemplação da natureza
em sua esplêndida luminosidade: consciência da criação da luz e do espaço, do
mundo como habitação.
No plano inferior da paisagem vemos um rio, a
terra e, acima, a silhueta da montanha riscando o céu. Água, terra, ar e fogo! O quinto elemento é o
homem!
Salientadas no primeiro plano da
foto, as mulheres estão muito bem delineadas em relação ao fundo. O resultado é
uma espécie de espelho, onde a luz marca e revela as diferenças de grandeza do
humano e da natureza: se somadas, compõem o sentido e a existência.
O fato de serem apenas mulheres (não
me parecem serem homens) reforça a impressão de identidade entre o feminino e a
devoção, característica que Bresson captou e registrou de forma delicada. A alma devota encontra luz nas formas simples
e cotidianas, e todo o viver é oportunidade de louvação!
“E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer”.
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer”.
Louvação –
Gilberto Gil / Torquato Neto
Le Lac des Signes, Bolshoi, 1954
O palco é realmente um lago povoado
de cisnes!
Há belos e marcantes contrastes entre a porção
superior e inferior da fotografia. O
palco circular, a orquestra ao seu redor, tudo parece girar. Um círculo dentro
de outro... Um registro que capta o próprio movimento do balé e da orquestra,
como se víssemos um filme e não um instantâneo...
A divisão exata da cena com o corpo
do balé acima e a orquestra abaixo, faz justiça ao casamento perfeito entre
música e dança: uma é a complemento da outra!
Os músicos, que quase não aparecem,
mas sim as partituras destacadas, as bailarinas de branco, reforçam a idéia do
homem entregue à arte: sai de si mesmo, apaga-se, para dar lugar a tudo o que a Arte comunica.
Vemos aqui um artista olhando a arte,
ampliando-a de tal maneira que se mesclam o Movimento e o Instante, a Música e
o Silêncio... E tudo mais que quisermos...
Diana Arbus
"Freaks
was a thing I photographed a lot. It was one of the first things I
photographed and it had a terrific kind of excitement for me. I just used to
adore them. I still do adore some of them. I don't quite mean they're my best
friends but they made me feel a mixture of shame and awe. There's a quality of
legend about freaks. Like a person in a fairy tale who stops you and demands
that you answer a riddle. Most people go through life dreading they'll have a
traumatic experience. Freaks were born with their trauma. They've already
passed their test in life. They're
aristocrats.”
A primeira reação ao seu trabalho foi definir se gostava ou desgostava: que era o que sentia?
O que foi ficando evidente para mim é que eu não olhava as fotografias do mesmo modo que olhei as de Bresson. Não me chamavam a atenção os detalhes ‘técnicos’, como enquadramento, luz, contrastes, a maestria, ou qualquer outra coisa relativa ao modo de olhar que começo a aprender, ou que costumei sempre a chamar de 'arte'.
A primeira reação ao seu trabalho foi definir se gostava ou desgostava: que era o que sentia?
O que foi ficando evidente para mim é que eu não olhava as fotografias do mesmo modo que olhei as de Bresson. Não me chamavam a atenção os detalhes ‘técnicos’, como enquadramento, luz, contrastes, a maestria, ou qualquer outra coisa relativa ao modo de olhar que começo a aprender, ou que costumei sempre a chamar de 'arte'.
Arte, para mim,
sempre esteve associada à idéia de prazer, uma experiência que ampliasse meus
sentidos para além do costumeiro, mesmo que fosse através de algo doloroso,
como a Guernica de Picasso, por
exemplo. Percebo que essas obras
despertam minha admiração por conta da transcendência que permitem. Aqui outra coisa me toca.
Aos poucos, fui
‘escutando’ uma espécie de ‘grito’, e à medida que fui me deixando levar pelo
que sentia vi que as pessoas
fotografadas revelavam o bizarro, o estranho, o diferente, e o grito passou a
ser o grito de um surdo/mudo, a dor de um corcunda de Notre-Dame... Lembrei-me que numa de suas representações, o corcunda carrega um lampião de luz, e me vi tentando procurar luz nessa estranheza. Mas, o incômodo continuou e me perguntei
“será que é esse o caminho? Não seria isso uma forma de ‘enquadrar’ a
estranheza, fazê-la ‘adequar-se’, para que ela pare de incomodar?”
E a estranheza foi me remetendo a estranheza diante do inusitado da vida, dos outros e de mim mesmo...
Seria essa a intenção de Diane
Arbus? Não sei. Se é que é possível entender intenções...
Acho que ir por aí - entender - seria outra forma de se evitar ficar com o que ela registrou
com suas lentes: aquilo que não muda!
Talvez por isso seu trabalho ‘escape’ qualquer forma de interpretação,
‘favorável’ ou não...
Li que ela usava flash, mesmo à luz
do dia, filme quadrado, para ressaltar ainda mais as características individuais, e que
esperava aquele segundo mágico, quando o bizarro de cada um se revelava.
Só posso dizer o que ela revela de
mim mesma: que o mundo que a fascinava não me fascina: me causa dor,
desconforto, me faz perceber minha impotência diante do que não alcanço, nem
compreendo.
Conhecer um pouco seu trabalho fez
de suas palavras as minhas. Fui inserida em seu mundo ‘mítico’ e, ao
adentrá-lo, encontrei-a! Percebi que ela se tornara a personagem mesma que
descreveu:” Like a person in a fairy
tale who stops you and demands that you answer a riddle”.
A reflexão que nasce a partir de suas
fotos gera um som que continua ecoando, um cerne pulsante como a batida do
coração, ela atinge algo REAL:
“Essas
são (...) pessoas singulares que parecem metáforas de algum lugar além de onde
estamos (...), são inventadas pela fé, autores e heróis de um sonho real
através do qual nossa própria coragem e astúcia são testadas e provadas; tanto
que nos perguntamos repetidas vezes o que é verdadeiro, inevitável e possível e
o que é se tornar isso que nós somos (Diane
Arbus)
[1] *A Arquitetura Decisiva de um País
Provisório. Dafne de Souza
Sampaio é aluno de graduação do curso de Ciências Sociais da FFLCH, na
Universidade de São Paulo e editor da revista A nível d.
**Este
artigo é resultado da pesquisa elaborada no curso “Antropologia Visual”
ministrada pela Profa. Dra.
Sylvia Caiuby Novaes, pelo Depto. de
Antropologia da FFLCH-USP, 1996
Dissertação apresentada ao curso deMestrado em
Multimeios do Institutode Artes da UNICAMP como requisito parcial para a
obtenção do grau de mestre em Multimeios, sob a orientação do Prof. Dr.
Mauricius Martins Farin, Campinas2006.
Todas as fotos foram retiradas das imagens em arquivos disponíveis da internet, tanto de H .C. Bresson, quanto de Diane Arbus
Todas as fotos foram retiradas das imagens em arquivos disponíveis da internet, tanto de H .C. Bresson, quanto de Diane Arbus
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