sábado, 7 de julho de 2012

Saracura



Como te contei, surgiu um pássaro desconhecido no sítio, que pousa duas vezes ao dia na árvore ao lado da minha casinha, anunciando a manhã e a noite.

 Mesmo não sendo um canto melodioso e suave, é maravilhoso em sua estranheza e força. Ele me acorda e me mantem entre o sono e a vigília, e me faz viver o 'pressentimento' das coisas, pressentimento que some à luz do sol, para retornar ao final do dia.

Sinto-me gratificada que escolhesse essa árvore, tão perto da minha janela, como o lugar de canto dessas horas de transição e de passagem. Não quero que conheça minha presença, não o quero domesticado - quando ele canta, silencio, para que anunciação da hora seja cantada a plenos pulmões. Silencio para que a hora cantada possa adentrar o real e se manter viva...

Hoje, descobri que essa ave é a Saracura, que vive nos brejos e nas moitas. Aqui há muitos...

A vi passeando pela grama em frente à casa. Estava fazendo o almoço. Um pássaro lindo, de penas ferruginosas, semelhante a uma galinhazinha... Pernas finas, daí que entendi o dito popular 'pernas de saracura'!

Me acordou de madrugada, a danada, me fez sentir muito medo, principalmente porque não sabia o que era aquilo. Parecia uma premonição o que senti. Só fui melhorar quando amanheceu, tamanho o medo!

Passado um tempo olhando para ela andando, ali na grama, pensei na razão de meu medo: o desconhecido, cantando alto ao lado de minha janela...  Ela continuava a saracura, ferruginosa e de pernas finas. Mantinha a estranheza, pelo menos para mim, de seu canto, ecoando nas horas mais silenciosas do dia...

Como um galo, anuncia alguma coisa - além de simplesmente viver e ciscar, ela adquiriu um significado para mim, qual seria?

Só consigo pensar se for juntamente com os 'sítios' e tudo que representam: um lugar, no caso, do inusitado, daquilo que não vejo usualmente, oposto à cidade onde vivo e trabalho.

Onde vejo as frutas amadurecerem, as formigas andarem em fila, os locais preferidos dos beija-flores, o som do riachinho que passa em frente à casinha, os bugios do fim de tarde, a revoada de maritacas, o andar mole dos bois, ou o ligeiro dos cavalos... Tudo cozido no fogão à lenha com quem gosta disso...

Ah, e tem o som do vizinho, que às vezes é um cantor chato qualquer cantando com toda a potencia  e volume do aparelho de som! Eles moram ali, eu, só vou no final de semana...

Aí tem à noite com seu friozinho, sua magia de sapos, rãs, grilos, vaga-lumes e estrelas...

Céu sem a luz da cidade, onde a via Láctea se mostra com todo seu esplendor. É à noite que o fogão à lenha cede a vez para a fogueira lá fora, alta, quente, perigosa, aconchegante...

Acho que é um pouco isso tudo que a saracura me mostra e por isso tem a função de zelar pelo meu sono: para que eu não durma na rotina do dia à dia, para que veja e escute a natureza, que pinta com cores exuberantes, com todos os seus sabores e texturas, e que fala o idioma da alma, com o silencio que fica atrás de tudo isso...




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