domingo, 8 de julho de 2012

Coruja Buraqueira


A presença da natureza na vida de cada um nós é silenciosa, gratuita.

Esse sonho aconteceu num dia no ano de 2006 e compartilho com vocês suas imagens, mas principalmente, o afeto.

"É final de dia, quase noite. O sol já se pôs, o céu está azul, começando a se tornar escuro."

"Me encontro deitada na grama, no terreno bem mais à frente da porta da cozinha do sítio, que vai para o fundo, perto da mata."

"Bem à minha frente está uma coruja 'buraqueira', daquelas que fazem o ninho no chão. Ela está agitada, quer que seus filhotes entrem logo - eles estão voando baixo, acima dela, que olha, fixamente, para mim. Não tinha visto que deitara perto de um ninho!"

"Falo com ela silenciosamente, dizendo que não tenha medo, pois sou inofensiva, e que ela pode procurar em mim por qualquer traço de delito contra animais, que ela pode ver à vontade, sou como eles em meu coração."

"Um vira-latas está ao meu lado, vigilante, atento ao que acontece, nem ameaçador, nem amedrotado, mas pronto para me proteger, se assim for o caso."

"Em algum momento acordo, o cãozinho está deitado tranquilo, de costas para mim, para proteger, quando sinto que uma raposa se aconchega às minhas costas - mais a sinto do que vejo, com seu pêlo farto e dourado - ela  aconchega suas costas às minhas e dorme tranquila, entregue ao porto seguro que encontrou, em plena noite e ao ar livre."

"Sinto sob a mão a respiração frágil e rápida de um pássaro, seu corpo quase todo sob minhas mãos...Olho e me surpreendo: era a coruja que tinha se aninhado e dormido junto à minha barriga..."

sábado, 7 de julho de 2012

Saracura



Como te contei, surgiu um pássaro desconhecido no sítio, que pousa duas vezes ao dia na árvore ao lado da minha casinha, anunciando a manhã e a noite.

 Mesmo não sendo um canto melodioso e suave, é maravilhoso em sua estranheza e força. Ele me acorda e me mantem entre o sono e a vigília, e me faz viver o 'pressentimento' das coisas, pressentimento que some à luz do sol, para retornar ao final do dia.

Sinto-me gratificada que escolhesse essa árvore, tão perto da minha janela, como o lugar de canto dessas horas de transição e de passagem. Não quero que conheça minha presença, não o quero domesticado - quando ele canta, silencio, para que anunciação da hora seja cantada a plenos pulmões. Silencio para que a hora cantada possa adentrar o real e se manter viva...

Hoje, descobri que essa ave é a Saracura, que vive nos brejos e nas moitas. Aqui há muitos...

A vi passeando pela grama em frente à casa. Estava fazendo o almoço. Um pássaro lindo, de penas ferruginosas, semelhante a uma galinhazinha... Pernas finas, daí que entendi o dito popular 'pernas de saracura'!

Me acordou de madrugada, a danada, me fez sentir muito medo, principalmente porque não sabia o que era aquilo. Parecia uma premonição o que senti. Só fui melhorar quando amanheceu, tamanho o medo!

Passado um tempo olhando para ela andando, ali na grama, pensei na razão de meu medo: o desconhecido, cantando alto ao lado de minha janela...  Ela continuava a saracura, ferruginosa e de pernas finas. Mantinha a estranheza, pelo menos para mim, de seu canto, ecoando nas horas mais silenciosas do dia...

Como um galo, anuncia alguma coisa - além de simplesmente viver e ciscar, ela adquiriu um significado para mim, qual seria?

Só consigo pensar se for juntamente com os 'sítios' e tudo que representam: um lugar, no caso, do inusitado, daquilo que não vejo usualmente, oposto à cidade onde vivo e trabalho.

Onde vejo as frutas amadurecerem, as formigas andarem em fila, os locais preferidos dos beija-flores, o som do riachinho que passa em frente à casinha, os bugios do fim de tarde, a revoada de maritacas, o andar mole dos bois, ou o ligeiro dos cavalos... Tudo cozido no fogão à lenha com quem gosta disso...

Ah, e tem o som do vizinho, que às vezes é um cantor chato qualquer cantando com toda a potencia  e volume do aparelho de som! Eles moram ali, eu, só vou no final de semana...

Aí tem à noite com seu friozinho, sua magia de sapos, rãs, grilos, vaga-lumes e estrelas...

Céu sem a luz da cidade, onde a via Láctea se mostra com todo seu esplendor. É à noite que o fogão à lenha cede a vez para a fogueira lá fora, alta, quente, perigosa, aconchegante...

Acho que é um pouco isso tudo que a saracura me mostra e por isso tem a função de zelar pelo meu sono: para que eu não durma na rotina do dia à dia, para que veja e escute a natureza, que pinta com cores exuberantes, com todos os seus sabores e texturas, e que fala o idioma da alma, com o silencio que fica atrás de tudo isso...