domingo, 10 de maio de 2015

A Velha Árvore


Em algum dia de 2008.

Não me lembro bem quando foi que me avisaram que algum dia teria que derrubar o grande Fícus ao lado de minha casa, no sítio.

Sabia que suas longas raízes poderiam entrar nos encanamentos, além de ameaçarem as fundações da casinha. Fingi não ouvir. Não queria nem imaginar cortar uma árvore daquele porte, tronco de quase dois metros de espessura, copa frondosa, morada dos passarinhos que animavam o amanhecer e o entardecer. A árvore também dava sombra à cozinha, poupando-a do sol escaldante da tarde. Meu coração batia forte e me dizia que a casa é que tinha sido construída no lugar errado, ou que haviam plantado a árvore perto demais dela, desconhecendo suas particularidades... Adiei em alguns anos a decisão.

Num final de semana, mais de duas pessoas, independentemente de o saberem, me procuraram dizendo que estava na hora de pensar em cortar o Fícus, se eu sabia que suas raízes alcançavam de 100 à 150m, etc, etc. Achei a insistência importante, então decidi. Combinei com o caseiro o serviço e lhe pedi para cortar o tronco e os galhos para estocá-los como lenha. Fui para Campinas com o coração pesaroso.

Passei a semana toda pensando no assunto, não tinha como saber o que tinha acontecido – o sítio fica numa área de difícil acesso telefônico e eu não conseguiria ir para lá durante a semana.

Fui no sábado seguinte, com a esperança que o caseiro não tivesse a serra arrumada (vivia quebrada!), ou que estivesse sem gasolina, ou simplesmente, que ele quando me visse me dissesse _ “Dra. Sonia, num deu tempo ainda, mas essa semana eu faço!” para eu rapidamente emendar _ “Não tem problema, desisti de cortá-la!”.

Infelizmente, o Sr. Durval cumprira o combinado, sem os atrasos costumeiros...

Quase morri ao ver a árvore caída ao chão, as folhas ainda verdes, a paisagem aberta, deixando o sol da tarde passar por sobre a casa.

Não me consolou saber que “agora o pé de fruta-do-conde vai ter força para crescer”, nem que a casa estava salvaguardada, com seus fundamentos protegidos... A árvore tombada ao solo parecia uma rainha e seus súditos, agora dispersos, não mais teriam a roupagem de seus galhos para pousarem, e ocultos, cantarem e saudarem as horas que marcam o limite do dia e da noite. Eu havia chegado à civilização e, dolorosamente, tomava posse do que me cabia do viver e participar do progresso: havia matado um ser vivo!

O ano virou, passou e fui vendo os pequenos tocos (os galhos cortados na forma de lenha) secarem: o resto do tronco, no chão, se tornando cinza, as raízes pouco à pouco se desprendendo do solo... Há muita madeira na varanda, e o fogão será alimentado por muito tempo com a lenha do Fícus.
Na última sexta-feira, acendi o fogão usando sua madeira primeira vez.

Notei, ao apanhá-los do chão, que ainda existia em mim uma ponta de dor por tê-los nas mãos daquela forma. O dia findava e aproveitava o restinho de luz para catar as lenhas menores, as médias e as maiores, deixando-as ao lado do fogão. Como de costume, peguei as pinhas secas para iniciar o fogo, usei as lascas de eucalipto e só então coloquei a lenha do velho Fícus para queimar. Fiquei um tempinho olhando a lenha escurecer, até que pegasse fogo, sentindo seu cheiro.

Subitamente, me senti maravilhada, tomada pelo sentimento que a velha árvore continuava aquecendo a cozinha! E, estranho, o fogo parecia mais quente, mais vivo, mais luminoso. O silêncio que normalmente há no sítio se aprofundou e mergulhei no calor daquela vida que aquecia a minha.

Devo ter sentido tanta gratidão por aquela árvore ainda doar-se - se antes em frescor, agora em calor - que de noite sonhei com uma árvore muito velha, daquelas que são imensas.

Era alta, mas não muito e seu tronco poderoso. A copa quase fechada de tão rica e seus galhos, longuíssimos, dobravam-se, chegando bem perto do chão, como quando a gente se abaixa para pegar uma criança no colo. Sua seiva, gorda e verde, estava impregnada do magnetismo que povoa as florestas primárias.

Um de seus galhos chegava delicadamente até bem perto do meu rosto e - juro! - parecia me oferecer uma flor maravilhosa. Lembro-me de tocar o galho e trazê-lo para mais perto, para poder sentir o perfume daquela flor que não sabia o nome.

Enquanto fazia isso, me dava conta da presença da Velha Árvore em toda minha vida e do Amor que a Natureza sempre me fez sentir. Senti que minha alma voltava para casa.

Esse foi seu presente mais precioso para mim.


smmc