“Para onde tua estrela te guia?”
Há muito tempo que o
Evangelho tem intrigado os homens, funcionado mais como enigma do que como guia com
sua linguagem carregada de hermetismo. Incluo-me nessa lista de pessoas.
Minha
catequese foi terrível, aconteceu em meio à ditadura, onde os valores que
recebia eram dúbios: fazíamos de conta que seguíamos, mas conservávamos em
segredo o que se passava em nossos corações.
Como toda criança que gosta de coisa errada e proibida, adorávamos tomar o vinho, e mais um pouquinho, claro!, escondido das freiras e catequistas.
Como toda criança que gosta de coisa errada e proibida, adorávamos tomar o vinho, e mais um pouquinho, claro!, escondido das freiras e catequistas.
Particularmente, sentia fascinação pela figura de Jesus e achava
que em sua fala havia um convite para todos: nós poderíamos ser como Ele. E o
pior, achava que isso era natural... Falar sobre isso resultava em discussões
que não conseguia seguir, e reprimendas que não entendia. Guardava para mim, como
um segredo precioso, e cumpria o que me era pedido.
Passou-se muito tempo.
Ao longo dos anos a pergunta sem resposta ficou silenciosa.
Somente agora, com a
psicologia analítica e as questões que a ela se propõem,
leituras da área e alguns retiros, começo a tatear uma tradição que desconhecia:
a meditação e a contemplação!
Quem conhece um pouco
de psicologia analítica e alquimia, sabe que a meditação e a contemplação são complementos
fundamentais para o Opus. O
alquimista era fundamentalmente um monge!
Que meditação fazia?
Como era sua oração?
Vemos, principalmente
com os místicos, esses passos, suas dificuldades, os riscos, interiores e
exteriores, duma tradição que, além de ser considerada herética no século XV,
foi cedendo seu lugar para a ciência que nascia.
Conseguimos grandes avanços tecnológicos, mas passamos todo esse tempo sem uma tradição que nos ajude com as ciladas que a mente produz. O ‘religioso’ se tornou um lugar para uma política de poder, uma instituição a ser defendida e combatida, enquanto o homem ficou com sua vida interior esvaziada e fragmentada.
Conseguimos grandes avanços tecnológicos, mas passamos todo esse tempo sem uma tradição que nos ajude com as ciladas que a mente produz. O ‘religioso’ se tornou um lugar para uma política de poder, uma instituição a ser defendida e combatida, enquanto o homem ficou com sua vida interior esvaziada e fragmentada.
Mas, que significa
isso numa tradição tão confusa e complexa como a nossa atual? Não sei.
A tecnologia permite hoje que muitas dessas
questões possam ser divididas com aqueles que se interessam em fazê-lo.
Talvez a fase de vida -
a chegada dos 50 anos - ajude a falar e dizer um pouco do que tem sido esse
caminho. Talvez a ditadura interna tenha se democratizado e libertado o livre
pensar!
Pensei que talvez
pudesse deixar aqui alguma coisa que estimule a aproximação com um texto que é
tão fundamental para nossa cultura como é a Bíblia.
Assim, escolhi alguns
trechos, à medida que eles vão me fazendo mais sentido, mesclando-os com a psicologia analítica.
Adoração dos Magos
– Mt 2, 1-12
Temos uma indicação do
lugar (Jerusalém), para onde se dirigem os magos do oriente seguindo uma
estrela à procura do 'rei dos Judeus', que acabou de nascer. É o tempo de Herodes.
Ele fica sabendo da
procura dos magos e, secretamente, os procura e os manda a Belém, onde, segundo
a profecia de Miquéias 5, 2, sairá o Salvador: Ele virá da menor tribo
de Judá, Belém-Efrata.
Herodes os exorta a ir e voltar porque também quer reverenciá-lo.
A estrela volta a brilhar e os guia até Jesus, quando então, em reverência,
oferecem ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho, voltam por outro caminho que
não a Herodes.
Não há, nos outros
Evangelhos, o que se conta aqui: a presença desses magos do oriente.
É em Lucas 2, 8-20 que encontramos outro aviso da vinda de Jesus aos homens. Nele, vemos que aos
pastores - que vigiavam e guardavam o seu rebanho - é também revelada a localização de Jesus. Notemos que não parece um local muito distante! O anjo fala
para não terem medo, que traz boas novas!
Que pensamos disso
tudo? Como tudo isso nos toca? Que reação provoca?
Jerusalém era o centro
do poder político, Herodes é o rei, o poder. A estrela não brilha, ou aponta,
para esse lugar!
A estrela guia os
magos para um conhecimento que passa despercebido do rei. Este visa destruir o ‘futuro
rei dos Judeus’.
Em seu intuito de, secretamente, chamar os magos, comporta-se como aquele que tem algo a perder.
Teme a perda do poder que mais tarde Jesus declarará que não veio para assumir, pois o reino que proclama se revela de outra natureza! Vale à pena lembrar que Pedro queria que ele assumisse ‘a luta’ com a espada! E fica desapontado ao ver que não é a esse tipo de combate que Jesus se referia!
Em seu intuito de, secretamente, chamar os magos, comporta-se como aquele que tem algo a perder.
Teme a perda do poder que mais tarde Jesus declarará que não veio para assumir, pois o reino que proclama se revela de outra natureza! Vale à pena lembrar que Pedro queria que ele assumisse ‘a luta’ com a espada! E fica desapontado ao ver que não é a esse tipo de combate que Jesus se referia!
Quem são os magos? O
que representam?
Ouvi, num retiro, que
estavam associados à procura da humanidade pelo ‘saber’.
Estariam, assim, associados à procura da humanidade por esse ‘saber’ que, no caso, não está associado ao poder, mas sim à humildade e ao despojamento, pois a estrela não aponta pra ele, Herodes, mas sim para o nascimento de Jesus, evento que acontece fora do contexto da cidade pois não há lugar para eles se hospedarem.
Estariam, assim, associados à procura da humanidade por esse ‘saber’ que, no caso, não está associado ao poder, mas sim à humildade e ao despojamento, pois a estrela não aponta pra ele, Herodes, mas sim para o nascimento de Jesus, evento que acontece fora do contexto da cidade pois não há lugar para eles se hospedarem.
Em Miquéias 5, ficamos
sabendo que da menor tribo sairá o ‘Salvador’.
Repete-se na tradição judeu-cristã algo que nos é conhecido: desconhecemos e desprezamos o valor de algo que não bate com o conhecido, e do menor sai o que não esperávamos!
Repete-se na tradição judeu-cristã algo que nos é conhecido: desconhecemos e desprezamos o valor de algo que não bate com o conhecido, e do menor sai o que não esperávamos!
Estamos falando de modelos arquetípicos?
Para mim, os magos representam uma força que é
trinitária. Ela ocorre num momento muito delicado, como é a passagem da mente
coletiva para a mente mais individuada. A nova consciência é honrada como sendo a de
um ‘rei’ (ouro), como a de um ‘sacerdote’ (incenso) e como sendo ‘eterna’
(mirra).
Ela, instaurada no
coração dos homens, os liberta da escravidão dada pelo medo, gerado pela mente
coletiva e seus padrões.
Encontramos no Salmo 23 o versículo que identifica o salmista como fazendo parte de um
rebanho.
Ele diz que o ‘Senhor é meu
pastor’; assim como vemos alguns pastores cuidando e vigiando o rebanho na
vigília da noite, enquanto nascia Jesus. Eles são avisados por anjos que os
exortam a não terem medo! Em júbilo, e na noite, vão à procura de Jesus recém-nascido.
Para nós, essa cena parece uma contraposição
a Pã, também pastor dos rebanhos e que costumava causar pânico nas pessoas. Hoje
em dia, uma pessoa possuída por crises de pânico é completamente irracional. Como sabemos, nada adianta falar com ela em termos de 'bom senso'! Está possuída por medos
provenientes de camadas mais primitivas da psique coletiva.
O novo líder dessa
massa acolhe-os, não usa do medo como uma forma de poder e opressão. Pede
apenas o ‘arrependimento’, isso é, uma 'mudança de direção', significado etimológico da palavra original grega, metanoia.
A estrela, que guiava os magos, parou de brilhar quando eles chegaram a Herodes, voltando a aparecer, guiando-os e parando para lhes mostrar o local onde estava Jesus.
A isso a estrela brilha, parece estar nos guiando: primeiro a humildade e um reconhecimento diante das forças que atuam no interior do ser humano, segundo, a uma nova potencialidade, a um 'ser' diferente, uma consciência diferente da submissão dada pelo medo.
A estrela, que guiava os magos, parou de brilhar quando eles chegaram a Herodes, voltando a aparecer, guiando-os e parando para lhes mostrar o local onde estava Jesus.
A isso a estrela brilha, parece estar nos guiando: primeiro a humildade e um reconhecimento diante das forças que atuam no interior do ser humano, segundo, a uma nova potencialidade, a um 'ser' diferente, uma consciência diferente da submissão dada pelo medo.
Olhemos o medo.
Parece haver uma
correspondência entre a psique e a vida, que vem se desenvolvendo nesses anos
milenares: nosso cérebro parece repetir a evolução e a psique reflete isso em suas imagens.
Encontramos o chamado cérebro reptiliano, assim como camadas antigas do cerebelo, associadas a reflexos e às emoções mais primitivas.
Encontramos o chamado cérebro reptiliano, assim como camadas antigas do cerebelo, associadas a reflexos e às emoções mais primitivas.
Em seu artigo,
Calazans (1) demonstra a ausência de um indivíduo nas ‘multidões’, citando um arrastão como exemplo.
Uma força explosiva toma conta de várias pessoas e elas não são mais responsáveis pelo que fazem.
Não há “ninguém”, não há uma pessoa que irá se responsabilizar pelo o que acontece, não há um in-divíduo, como dizemos na psicologia analítica.
Eles são conduzidos por uma ‘força’ que anula a individualidade, a responsabilidade. Observe que o verbo funciona de modo ativo e passivo, ao mesmo tempo que os define!
Uma força explosiva toma conta de várias pessoas e elas não são mais responsáveis pelo que fazem.
Não há “ninguém”, não há uma pessoa que irá se responsabilizar pelo o que acontece, não há um in-divíduo, como dizemos na psicologia analítica.
Eles são conduzidos por uma ‘força’ que anula a individualidade, a responsabilidade. Observe que o verbo funciona de modo ativo e passivo, ao mesmo tempo que os define!
Que força é essa?
A tendência à massificação, inerente em cada ser
humano.
Na nossa história é constante. Mais recentemente, apareceu nos alemães (‘a ameaça vindo do norte’) e nas atrocidades das guerras posteriores, como se isso não fosse responsabilidade de cada um nós!
Na nossa história é constante. Mais recentemente, apareceu nos alemães (‘a ameaça vindo do norte’) e nas atrocidades das guerras posteriores, como se isso não fosse responsabilidade de cada um nós!
Tomemos o exemplo dos
alemães, que é o mais citado por Jung, tendo em mente que a violência diz respeito a todos nós!
Estavam abatidos pelos
resultados da I Guerra, eram pagãos, com um verniz cristão e uma
violência que eclodiu na II Guerra contra as minorias, principalmente os
hebreus, porque, diz a história, teriam negado Cristo.
Sabemos que não foi
bem assim. Quem de nós pode dizer, hoje, que permite essa consciência, ou o que ela significa, se
manifestar?
Jung dizia, na época,
que teríamos que responder a um estranho que nos perguntasse sobre os
acontecimentos ocorridos na Europa: atrevo-me em dizer que cada ser humano traz
em si essa tendência à violência e necessita se conscientizar disso,
confrontando-a e lidando com ela, respondendo e sendo responsável, em cada relação
que possui.
Parece ser
característica da atual fase da humanidade nos encontrarmos entre essas duas forças: de um lado o impulso a nos tornarmos únicos, juntamente com o fato
que trazemos tantos aspectos comuns a todas às espécies.Sem contar com os
padrões que a cultura nos faz carregar!
Essa nova consciência
que Jesus traz e significa é uma consciência alegre, transgressora, que compartilha com o outro e que, fundamentalmente,
não cede ao medo, fruto da mente coletiva; nem faz concessões a ele, por isso essa consciência é e será sempre combatida: sua
lealdade é para com aquele que É, sua causa e sua própria origem.
Jesus chama Deus de Pai, mostrando-nos a intimidade que possuí com a Consciência que o anima, que é a essa Fonte que é e será leal, apesar de tudo o que acontece em contrário!
Por isso ficou associado à defesa dos excluídos sociais: os pobres, as crianças, as mulheres, os idosos, os bandidos, ou seja, os marginalizados em geral.
Jesus chama Deus de Pai, mostrando-nos a intimidade que possuí com a Consciência que o anima, que é a essa Fonte que é e será leal, apesar de tudo o que acontece em contrário!
Por isso ficou associado à defesa dos excluídos sociais: os pobres, as crianças, as mulheres, os idosos, os bandidos, ou seja, os marginalizados em geral.
A pergunta parece ser essencial: 'para onde tua estrela te guia?'
(1) Calazans, Flávio Mário de Alcântara – Biomidiologia
do arrastão e linchamento: A mente coletiva da multidão segundo a bioética.
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