domingo, 22 de abril de 2012

Para onde tua estrela te guia?


“Para onde tua estrela te guia?”

Há muito tempo que o Evangelho tem intrigado os homens, funcionado mais como enigma do que como guia com sua linguagem carregada de hermetismo. Incluo-me nessa lista de pessoas. 

Minha catequese foi terrível, aconteceu em meio à ditadura, onde os valores que recebia eram dúbios: fazíamos de conta que seguíamos, mas conservávamos em segredo o que se passava em nossos corações.

 Como toda criança que gosta de coisa errada e proibida, adorávamos tomar o vinho, e mais um pouquinho, claro!,  escondido das freiras e catequistas.
Particularmente, sentia fascinação pela figura de Jesus e achava que em sua fala havia um convite para todos: nós poderíamos ser como Ele. E o pior, achava que isso era natural... Falar sobre isso resultava em discussões que não conseguia seguir, e reprimendas que não entendia. Guardava para mim, como um segredo precioso, e cumpria o que me era pedido.

Passou-se muito tempo. Ao longo dos anos a pergunta sem resposta ficou silenciosa.

Somente agora, com a psicologia analítica e as questões que a ela se propõem, leituras da área e alguns retiros, começo a tatear uma tradição que desconhecia: a meditação e a contemplação!


Quem conhece um pouco de psicologia analítica e alquimia, sabe que a meditação e a contemplação são complementos fundamentais para o Opus. O alquimista era fundamentalmente um monge!

Que meditação fazia? Como era sua oração?

Vemos, principalmente com os místicos, esses passos, suas dificuldades, os riscos, interiores e exteriores, duma tradição que, além de ser considerada herética no século XV, foi cedendo seu lugar para a ciência que nascia. 

Conseguimos grandes avanços tecnológicos, mas passamos todo esse tempo sem uma tradição que nos ajude com as ciladas que a mente produz. O ‘religioso’ se tornou um lugar para uma política de poder, uma instituição a ser defendida e combatida, enquanto o homem ficou com sua vida interior esvaziada e fragmentada.


Mas, que significa isso numa tradição tão confusa e complexa como a nossa atual? Não sei.

 A tecnologia permite hoje que muitas dessas questões possam ser divididas com aqueles que se interessam em fazê-lo.

Talvez a fase de vida - a chegada dos 50 anos - ajude a falar e dizer um pouco do que tem sido esse caminho. Talvez a ditadura interna tenha se democratizado e libertado o livre pensar!

Pensei que talvez pudesse deixar aqui alguma coisa que estimule a aproximação com um texto que é tão fundamental para nossa cultura como é a Bíblia.


Assim, escolhi alguns trechos, à medida que eles vão me fazendo mais sentido, mesclando-os com a psicologia analítica.

Adoração dos Magos – Mt 2, 1-12

Temos uma indicação do lugar (Jerusalém), para onde se dirigem os magos do oriente seguindo uma estrela à procura do 'rei dos Judeus', que acabou de nascer. É o tempo de Herodes.

Ele fica sabendo da procura dos magos e, secretamente, os procura e os manda a Belém, onde, segundo a profecia de Miquéias 5, 2, sairá o Salvador: Ele virá da menor tribo de Judá, Belém-Efrata.
 
Herodes os exorta a ir e voltar porque também quer reverenciá-lo. A estrela volta a brilhar e os guia até Jesus, quando então, em reverência, oferecem ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho, voltam por outro caminho que não a Herodes.


Não há, nos outros Evangelhos, o que se conta aqui: a presença desses magos do oriente.
É em Lucas 2, 8-20 que encontramos outro aviso da vinda de Jesus aos homens. Nele, vemos que aos pastores - que vigiavam e guardavam o seu rebanho - é também revelada a localização de Jesus. Notemos que não parece um local muito distante! O anjo fala para não terem medo, que traz boas novas!


Que pensamos disso tudo? Como tudo isso nos toca? Que reação provoca?


Jerusalém era o centro do poder político, Herodes é o rei, o poder. A estrela não brilha, ou aponta, para esse lugar!

A estrela guia os magos para um conhecimento que passa despercebido do rei. Este visa destruir o ‘futuro rei dos Judeus’. 

Em seu intuito de, secretamente, chamar os magos, comporta-se como aquele que tem algo a perder.

 Teme a perda do poder que mais tarde Jesus declarará que não veio para assumir, pois o reino que proclama se revela de outra natureza! Vale à pena lembrar que Pedro queria que ele assumisse ‘a luta’ com a espada! E fica desapontado ao ver que não é a esse tipo de combate que Jesus se referia!


Quem são os magos? O que representam?


Ouvi, num retiro, que estavam associados à procura da humanidade pelo ‘saber’. 

Estariam, assim, associados à procura da humanidade por esse ‘saber’ que, no caso, não está associado ao poder, mas sim à humildade e ao despojamento, pois a estrela não aponta pra ele, Herodes,  mas sim para o nascimento de Jesus, evento que acontece fora do contexto da cidade pois não há lugar para eles se hospedarem.

Em Miquéias 5, ficamos sabendo que da menor tribo sairá o ‘Salvador’. 

Repete-se na tradição judeu-cristã algo que nos é conhecido: desconhecemos e desprezamos o valor de algo que não bate com o conhecido, e do menor sai o que não esperávamos!

Estamos falando de modelos arquetípicos?


 Para mim, os magos representam uma força que é trinitária. Ela ocorre num momento muito delicado, como é a passagem da mente coletiva para a mente mais individuada. A nova consciência é honrada como sendo a de um ‘rei’ (ouro), como a de um ‘sacerdote’ (incenso) e como sendo ‘eterna’ (mirra).


Ela, instaurada no coração dos homens, os liberta da escravidão dada pelo medo, gerado pela mente coletiva e seus padrões.

Encontramos no Salmo 23 o versículo que identifica o salmista como fazendo parte de um rebanho. 
Ele diz que o ‘Senhor é meu pastor’; assim como vemos alguns pastores cuidando e vigiando o rebanho na vigília da noite, enquanto nascia Jesus. Eles são avisados por anjos que os exortam a não terem medo! Em júbilo, e na noite, vão à procura de Jesus recém-nascido.


Para nós, essa cena parece uma contraposição a Pã, também pastor dos rebanhos e que costumava causar pânico nas pessoas. Hoje em dia, uma pessoa possuída por crises de pânico é completamente irracional. Como sabemos, nada adianta falar com ela em termos de 'bom senso'! Está possuída por medos provenientes de camadas mais primitivas da psique coletiva.


O novo líder dessa massa acolhe-os, não usa do medo como uma forma de poder e opressão. Pede apenas o ‘arrependimento’, isso é, uma 'mudança de direção', significado etimológico da palavra original grega, metanoia. 

A estrela, que guiava os magos, parou de brilhar quando eles chegaram a Herodes, voltando a aparecer, guiando-os e  parando para lhes mostrar o local onde estava Jesus.  

A isso a estrela brilha, parece estar nos guiando: primeiro a humildade e um reconhecimento diante das forças que atuam no interior do ser humano, segundo, a uma nova potencialidade, a um 'ser' diferente, uma consciência diferente da submissão dada pelo medo.

Olhemos o medo.


Parece haver uma correspondência entre a psique e a vida, que vem se desenvolvendo nesses anos milenares: nosso cérebro parece repetir a evolução e a psique reflete isso em suas imagens.

Encontramos o chamado cérebro reptiliano, assim como camadas antigas do cerebelo, associadas a reflexos e às emoções mais primitivas.

Em seu artigo, Calazans (1) demonstra a ausência de um indivíduo nas ‘multidões’, citando um arrastão como exemplo. 

Uma força explosiva toma conta de várias pessoas e elas não são mais responsáveis pelo que fazem. 

Não há “ninguém”, não há uma pessoa que irá se responsabilizar pelo o que acontece, não há um in-divíduo, como dizemos na psicologia analítica. 

Eles são conduzidos por uma ‘força’ que anula a individualidade, a responsabilidade. Observe que o verbo funciona de modo ativo e passivo, ao mesmo tempo que os define!

Que força é essa?


A  tendência à massificação, inerente em cada ser humano.

Na nossa história é constante. Mais recentemente, apareceu nos alemães (‘a ameaça vindo do norte’) e nas atrocidades das guerras posteriores, como se isso não fosse responsabilidade de cada um nós!


Tomemos o exemplo dos alemães, que é o mais citado por Jung, tendo em mente que a violência diz respeito a todos nós!

Estavam abatidos pelos resultados da I Guerra, eram pagãos, com um verniz cristão e uma violência que eclodiu na II Guerra contra as minorias, principalmente os hebreus, porque, diz a história, teriam negado Cristo.

Sabemos que não foi bem assim. Quem de nós pode dizer, hoje, que permite essa consciência, ou o que ela significa, se manifestar?

Jung dizia, na época, que teríamos que responder a um estranho que nos perguntasse sobre os acontecimentos ocorridos na Europa: atrevo-me em dizer que cada ser humano traz em si essa tendência à violência e necessita se conscientizar disso, confrontando-a e lidando com ela, respondendo e sendo responsável, em cada relação que possui.


Parece ser característica da atual fase da humanidade nos encontrarmos entre essas duas forças: de um lado o impulso a nos tornarmos únicos, juntamente com o fato que trazemos tantos aspectos comuns a todas às espécies.Sem contar com os padrões que a cultura nos faz carregar!

Essa nova consciência que Jesus traz e significa é uma consciência alegre, transgressora, que compartilha com o outro e que, fundamentalmente, não cede ao medo, fruto da mente coletiva; nem faz concessões a ele, por isso essa consciência é e será sempre combatida: sua lealdade é para com aquele que É, sua causa e sua própria origem. 

Jesus chama Deus de Pai, mostrando-nos a intimidade que possuí com a Consciência que o anima, que é a essa Fonte que é e será leal, apesar de tudo o que acontece em contrário!

Por isso ficou associado à defesa dos excluídos sociais: os pobres, as crianças, as mulheres, os idosos, os bandidos, ou seja, os marginalizados em geral.

A pergunta parece ser essencial: 'para onde tua estrela te guia?'


(1) Calazans, Flávio Mário de Alcântara – Biomidiologia do arrastão e linchamento: A mente coletiva da multidão segundo a bioética.

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