segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Vermelho como o céu", filme de Cristiano Bortone, Itália, 2006



   “Per me la voce è lo specchio dell'anima”
                                           Mirco Mencacci

            O filme retrata muitos temas de um modo sensível, poético e claro, nos convidando delicadamente a pensarmos nossas vidas e, como o título sugere, o vermelho vai tonalizar o filme todo. Vermelho que simboliza a paixão, o calor, o afeto e o desejo, a criatividade. O apaixonado vermelho como a cor que tinge a espiritualidade azul, fria e distante do céu.

Nele, vemos motivos que se ramificam, como a década de 70 e o movimento estudantil e social que eclodiram nesse período, a força repressora que um estado ou uma pessoa, podem exercer, a passeata de estudantes, um método de ensino preconceituoso, jogos e manipulações que acontecem dentro das relações pessoais, o nascimento do Amor, o poder expansivo e germinativo da criatividade e da imaginação, a dor, a tragédia e a superação dos seus limites. Acredito que seja mais tocante por ser uma história verídica.

Somos convidados a ver e a participar de outro modo de nossa própria história pessoal, política, e social, perguntando-nos se é possível ter mais compromisso e mais envolvimento com os outros, testemunhar e colocar mais fé na criatividade humana e no que ela é capaz de vencer. E ser leal a ela.

Perguntamo-nos se vivenciamos a Verdade, vocação de cada um, presente, viva e atual, e que termina por ser a vencedora, mesmo que sua dinâmica não possua esse objetivo. ‘Vence’ porque é de seu feitio CRESCER E EXPANDIR, superando os obstáculos, num movimento semelhante ao que diz a música, “bendita onda que invade a casa do traidor[1]. Essa parece ser a dinâmica cujo testemunho é evidente na história de Mirco.

Proponho olhar o filme como nós, junguianos, olhamos e verificar se nessa história de vida nós podemos reconhecer a dinâmica e cor da Alma, seu movimento, sua paixão, seu fogo.

Fenômeno da vida, a Alma está presente e ativa em nós, pessoas comuns e desconhecidas que somos e que, sigilosamente, não poucas vezes somos resilientes e corajosas. 

Como a de Mirco, todas as histórias dariam um belo filme e, o que é mais fantástico, um filme baseado também em fatos verídicos. Que possamos sempre nos lembrar de que em nossas vidas acontecem temas UNIVERSAIS, e que JÁ são belas histórias!

Faremos um pouco como o filme, uma história conta, esclarece e complementa outra: contaremos a história de Mirco tentando testemunhar e clarificar alguns desses temas. Olharemos para sua história e destilaremos dela alguns temas que nos tocam, a maneira como foram colocados e enfocados. 

Cada um de nós teve uma impressão. A minha foi como se segue.

 Francesca criou junto com Mirco uma história que poderíamos chamar de ‘conto’ e que acaba sendo a história de todos os personagens. Vamos falar como se tudo estivesse ocorrendo dentro do fenômeno amoroso Mirco-Francesca para tentar olhar e compreender mais as forças que foram defrontadas e vencidas pelo Amor, onde todas as personagens são partícipes. Mirco é a fagulha que incendeia e causa a revolução na escola.

Primeiro: coloquemo-nos na situação do país.

O filme se passa nos anos 70, período de grandes revoluções, especialmente a estudantil mundial, referida como o simbólico ‘Maio de 68’. Ela aconteceu inicialmente na França repercutindo no mundo todo.

O mundo vivia as consequências da virada do pós-guerra, a morte de Kennedy, guerra do Vietnã, Nixon, a guerra fria, fim dos Beatles, etc. A tensão política gerada pela ditadura irá marcar a história política de vários países.

Vemos um traço importante desse período aqui no Brasil de hoje com a Comissão da Verdade, que investiga atos violentos ocorridos nesse momento da nossa história. Para quem é mais novo, talvez esse momento histórico não tenha tanto impacto como para aqueles que viveram o movimento estudantil da época. Os estudantes da década de 70 têm hoje a idade de Mirco, ao redor de 60-68 anos.

O movimento estudantil foi forte e fundante na Itália e importante na fundação do PCI, que marcará a política italiana de modo particular. Acredito que boa parte isso é devido ao perfil do italiano: poderíamos chamá-los de ‘briguentos’, afetivamente briguentos.  

Marilou Manzini-Covre em seu artigo chama de ‘laboratório político’ o povo italiano e sua luta para a criação de um Estado democrático. Vejamos o que ela fala: “o presente artigo discorre mais sobre a cultura participativa da sociedade civil, no caso a Italiana e ver como seu modelo pode inspirar a cultura brasileira.”

O laboratório político italiano pode ser caracterizado no cruzamento entre o que se pode chamar de cultura participativa institucional (que se assenta na democracia representativa oficial) e a cultura participativa da sociedade civil que inclui os movimentos sociais, o movimento dal basso: as organizações espontâneas, a política do cotidiano, a política do local (região, paese, bairro), que permite a democracia direta.”

 Utilizamos a ideia de laboratório político no sentido que as experiências italianas na construção do seu Estado social — apesar de todas as dificuldades que enfrenta hoje, decorrente grandemente das modificações internacionais, mantém uma base relativamente sólida conquistada pelas lutas e cultura da sociedade civil.”

A base do laboratório político da democracia italiana se faz primordialmente nos anos 70 (l968-l979, aproximadamente), isto é, nos dez anos dos “68 italiano”  e suas preciosas conquistas econômicas, sociais, em que reiteramos a da autonomia das regiões, pois em cada um dos paese (países) encontraremos, ainda hoje, um lócus possível para a democracia direta e representativa por excelência." 

"Foram nestes anos que se erigiu o Estado social italiano, que se fez com retardo, mas de forma sui generis, desde o seu início. Enquanto o movimento de l968 durou alguns meses na França, um ano na Alemanha, na Itália o movimento estudantil de 68 enganchou no movimento operário, as demandas das mulheres da classe média  acabaram por se cruzar com as demandas das mulheres trabalhadoras,  e o processo desencadeou-se num processo de dez anos revolucionários.” 
Lembremos que, coincidentemente, Mirco saiu da escola Cassoni depois de 10-12 anos em que lá estudou. Sua história pessoal é paralela à da Itália.

“No período revolucionário, a intensa participação dos componentes da sociedade civil, — a classe operária, os estudantes, as mulheres e os intelectuais - são pessoas que se fizeram cidadãos “superiores” e envolveram-se em instituições com ethos revolucionário que vai se entrecruzar com a atuação do PCI. Todos esses processos criam, ao nosso ver, uma figuração de trama política muito específica”.[2]

Sabemos, portanto, que Mirco está inserido num período político intenso, aonde os vários segmentos sociais vão se aderir ao movimento estudantil, como vemos no filme. “O tutti in piazza  é um comportamento tradicional da sociedade civil italiana que se deflagra a partir da rede de organizações, compondo um forte mecanismo de pressão popular.”[3]

Talvez não estejamos acostumados com movimentos sociais organizados e efetivos tão intensos como vemos no filme: lembremos que no auge da tensão, Francesca chama a pessoa que sente que tem o poder de fazer algo (no filme posto como “líder”)  como é a figura de Ettore, que traz não só a passeata de estudantes, mas toda a sociedade civil e a classe operária da fundição, demandando que o diretor fosse expulso e que a Mirco fosse dado o restabelecimento de seu direito em permanecer na escola. Lembremos que a Prefeitura estava pressionada com os operários (que ameaçavam fechar a fundição) e queria falar com o diretor.

Uma realidade bem diferente da nossa, onde nossa base social é outra, marcada que foi desde o início por um estado de subjugação. O resultado é um NÃO acreditarmos em nós mesmos como criadores de um potente, organizado e efetivo movimento social, o que não é verdade! Fiquemos com a lembrança do movimento dos caras pintadas no impeachment de Collor e da força revolucionária que essa idade tem. Nossa história contém muitos momentos revolucionários, convenientemente abafados e que não aparecem nos livros escolares do 1ª Grau.

 A força contida e que se revela de forma revolucionária não é partidária, mas Política, porque nos remete à relação social e ao espaço público COMUM. Não é partidária porque é livre, sua FORÇA É IMPREGNADA DO NOVO, por isso é perseguida, abafada e assassinada, o que testemunhamos em Estados autoritários.

Vejamos alguns dos significados da palavra ‘revolução’: ‘ato ou efeito de revolucionar(-se), de realizar ou sofrer uma mudança sensível’; ‘grande transformação, mudança sensível de qualquer natureza, seja de modo progressivo, contínuo, seja de maneira repentina’; ‘movimento circular ou elíptico no qual um móvel volta à sua posição inicial’. A etimologia da palavra ‘revolução’: palavra lat. revolutĭo,ōnis 'ato de revolver; giro; passagem sucessiva (de um corpo a outro)', der. do v.lat.revolvĕre 'rolar para trás; enrolar etc.'; ver vol-; f.hist. sXV revoluções, sXV revolucoes.[4]  
Essa FORÇA DO NOVO tem como sua ação característica o ‘revolver’, onde ‘realizar a passagem sucessiva (de um corpo a outro)’ é sua ação, é sua virtude

Alquimicamente falando, os elementos trabalhados na retorta alquímica eram visto como possuidores de ‘virtude’ (‘virs’), pois tinham a capacidade de afetar uns aos outros. Eram vistos como possuidores de um efeito uns sobre os outros, não isolados e distantes entre si.

Aqui o que vemos é que tanto em Mirco como nos estudantes, a Alma os mostra possuidores dessa ‘virtude’ aparecendo na forma de ‘revolução’, um giro, um movimento que resulta no revolver, o que vemos acontecer no movimento político italiano e, literal e necessariamente, na passagem para outro corpo, um novo e que a perda da visão cataliza em Mirco.

Tanto ele como os estudantes estão em ‘revolução’, estão ‘mudando sua órbita, quando voltam ao seu início’, outro sentido etimológico da palavra. Voltar ao início significa re-começar, porém de maneira radical, nunca como antes, o que seria um retrocesso.

Todo início implica em revolução que se traduz por conflitos com a antiga ‘ordem’.[5] O entorno social era sincrônico ao desafio vivido por Mirco.

Se esse é nosso ‘fio de meada’, olhemos agora como a atualização desse momento da Alma expresso em Mirco afeta os demais.

Ainda recém chegado à escola, Mirco enxerga vultos e está descrevendo as cores que viu para Felice, cego de nascença. Já descreve as cores com a imaginação e a sensação para alguém que nunca as vira antes.

Com a aproximação de Valério, o ‘mandão’ da escola, o deboche acontece e Felice se intimida, o que não acontece com Mirco, e passando por cima dos conselhos de Felice, desobedece a ‘ordem estabelecida’ e briga com Valério, mandando-o ‘va fan culo’. É punido por usar ‘palavrões. Fica de castigo, momento em que encontra o gravador. Note que ele não fica parado, deprimido, mas, revoltado, MOVE-SE, enquanto os outros, comportados e quietos, são monitorados na sala tecelagem.

Momento comovente é vê-lo a repetir sem parar ‘va fan culo’ enquanto as madres leem trechos ‘religiosos’ e pesados sobre atos do diabo para as crianças antes de dormir.

Primeira aula, e Don Giulio, vendo a resistência de Mirco em lidar com a nova situação, lhe pergunta porque Mirco não usava a tabuinha para escrever em Braille, “- porque enxergo!”, responde Mirco, ouvindo de Don Giulio sua descrição de como os músicos fecham os olhos quando vão tocar e que o som tem ‘uma sensação’... Temos então sua lapidar frase como resposta à Mirco “- temos cinco sentidos, porque ficar com só com um?”. E Mirco vai descobrir os efeitos das estações do ano nos homens, mas principalmente em si mesmo. Vai gravá-los na memória, descobri-los, para tecer um novo corpo que não será à maneira de quem vê o mundo com ‘os olhos da visão’.

As histórias contadas no rádio eram comuns numa época onde a T.V. estava começando. Elas são o elo no encontro de Mirco com Francesca: encontra-a e é encontrado por ela. A ela é dedicada sua primeira história sonora sobre as estações. Podemos pensar que ele a está dizendo o quanto foi importante em sua mudança tê-la encontrado? A história dele, com certeza, é fermento para a de Francesca!

Além disso, e bem importante, ela também é transgressora das normas - à filha da zeladora era vetado o contato com os alunos.  Apesar das reticências iniciais ela acompanha-o para FORA, ALÉM dos muros da escola.

Mirco vai guiando loucamente, e de maneira livre, a bicicleta com Francesca na garupa aos gritos, porque ela está VENDO os riscos a que estão sujeitos! Não é uma imagem linda do desejo de fazer coisas de menino e de uma maneira ‘normal’? 

Mirco vai descobrindo seus outros sentidos através das coisas que já sabia, mas agora as descobre pelo tato e, principalmente, sente-se fascinado com o som que as pessoas e as coisas têm. 

Seuss talentos de ‘montador’ e ‘desmontador’ são observados desde o conserto da bicicleta de Francesca, o reconhecimento da Beleza de uma pessoa pela voz, até a descoberta de que as fitas podiam ser emendadas e coladas, - seu começo de editor de som.

Mirco e Francesca se encontram com a passeata dos estudantes e com Ettore, um jovem cego, que também estudou na mesma escola. Um igual, alguém que compreende o que é ser cego, mas que apesar disso, participa de um movimento de protesto, de não conformismo com normas, elas mesmas cegas e autoritárias. Um jovem cego que trabalha com um elemento perigoso como é o fogo, ele mesmo alimento da vida e sinal de vida: trabalha na fundição da cidade. Enfrenta o que arde, o que queima, o que transmuta.

Na imaginação das crianças, o ser capaz de lidar com o fogo - o Dragão devorador e capaz de voar - mesmo sem poder vê-lo e ainda saber manuseá-lo, é mágico e poderoso. É ele a referencia: o jovem que faz passeata, que representa o futuro e que se utiliza do fogo-Dragão-devorador para transmutar o cotidiano e voar. Ettore, o caminho futuro, a flecha tornada possível para Mirco. Mas, antes,o Dragão precisa ser confrontado!

Francesca já havia confessado a Mirco seu temor do diretor com ‘aqueles óculos escuros’, enquanto Mirco o considerava velho e fraco. Vemos aqui a velha e cega ordem, pesada e com seus valores morais religiosos ultrapassados, versus a nova ordem jovem que revolve a terra dos valores ‘sagrados’, “avançando com a força da aurora” (Ct, 6,10). Figura do ser humano que porta a alma movida pelo dinamismo fogoso do Espírito. O velho e o novo se encontram, dá-se a tensão e por fim a luta. Mirco soma à herança amorosa dada pelos pais uma sucessão de encontros felizes: Don Giulio, Francesca e Ettore.

Fixemo-nos na polaridade exemplificada pelo eixo diretor-Ettore.

Ele não tem nome, é apenas um eco, não há substância, não há um ‘indivíduo’, porque foi pego e aprisionado pela função ‘diretor’: reflete regras e condutas rígidas, negro como um morcego, vampirizando a energia imaginadora de todos, abafando-a, cegando-a, preso que está à regra, onde há tempos existem regras, acima de tudo, regras. Foice de Cronos, o deus grego que comia e devorava os filhos, Saturno para os romanos.

De outro lado, o Ettore, rico em imaginação e coragem, quem lida criativamente com um elemento vital como é o fogo, e voa: faz faculdade, trabalha no forno, participa dos movimentos sociais dos estudantes. Seguindo a seta do futuro, transmuta sua realidade/limites de cego para possibilidades/ inclusão.

Atualmente, a psicologia junguiana entende essa polaridade como uma polaridade que acontece num eixo identificado com o vertical, onde o crescimento da consciência tende a se pneumatizar quando dirige-se ao polo espiritual através do Amor (do Logos), ganhando expansão ao tonar flexível as conexões que perdem a vitalidade com o passar do tempo, ficando rígidas e apertadas. Afrouxa-as, sem que haja perda de tensão. O corpo transforma-se, se sutilizando, e as relações se tornam mais flexíveis quando a lógica amorosa é reconhecida como o vetor e motor.

Na falta do efeito organizador do Amor, temos um movimento perdido, sem foco, volatizado, sem ‘corpo’, o que, paradoxalmente, clama por nova forma, um novo continente. Sem sua dinâmica vetorial - voltada ao futuro como revolução/renovação, estagna e apodrece, resultando na ausência da estrutura que lhe dá base. Paradoxalmente, isso é condição necessária para sua morte. Há então calor proveniente da resultante podridão, mostrando-nos que o fogo retorna dessa forma, sendo capaz de incendiar quando bem acolhido.

Não há como ‘escapar’ da polaridade contida nesse eixo, onde o ‘abaixo’ estaria Saturno-Senex e sua estrutura e, ‘acima’, Mercúrio-Puer com seu voo. Dinâmicas contrárias, inseparáveis, dentro do próprio Amor e que precisamos enfrentar e integrar. São ‘fatores’ que fazem parte da dinâmica da própria tessitura de Consciência, que é assim, aprioristicamente, ‘dual’.

Mirco representa o potencial, o futuro. Ettore, alguém que já viveu as dificuldades iniciais que Mirco hoje enfrenta, e as superou. Sua luta agora é em outro patamar. Lida com o fogo, seus calores e vapores sem o ver, sem o temer, o que talvez sentisse como apelo secundário aos pensamentos associados ao MEDO. Permite guiar-se pela imaginação e criatividade. Faz faculdade, estuda o que escolheu. Transmuta o destino trágico. Como diz Bachelard “imaginar é ausentar-se, é lançar-se a uma vida nova.”[6]

Ettore está concretamente cego, mas vê através dos olhos da imaginação porque a morte da visão equivaleu-se, nele, à morte da visão egóica, a visão muito literal do mundo. Vê agora com cor-agens, com ‘os olhos do coração’, sem ser piegas, nem sentimental. Não precisa mais ser guiado (pela amiga, ou namorada, quem viu as crianças na passeata), ele mesmo acompanhando as crianças até a escola. Sabe o caminho, anda sozinho, tem autonomia, modelo de futuro para Mirco.

 A presença da criatividade em Mirco funciona como um fole, um catalisador, para incandescer a chama do mesmo anseio por transformação que se encontra latente em todos: primeiro em Francesca, depois no zangão-Felice e no aluno que diz “mas, eu gostei!”, até explodir em Don Giulio, que dá a Mirco um gravador, desobedecendo de forma silenciosa – ainda! - o diretor que reprovara a criação de Mirco. Cego, o diretor não vê a nascente e poderosa força presente em Mirco ou, inconscientemente ameaçado, tenta reprimi-la de todas as formas possíveis.

Como diz Alina Torres Monteiro, “esta força é a presença do Verbo em seu espírito, tomando todo seu ser. A essa força, “não há quem se lhe possa opor”.”[7]

Pouco a pouco vão se agregando mais e mais alunos na composição da história sonora, agora possível. Esvazia-se quase que por completo o evento organizado pelas freiras e o diretor. Lá, a história baseada em outro martírio, a de Jesus, está sendo estruturada de uma forma piegas e sem imaginação e que o diretor, as freiras e os meninos mecanicamente seguem sem lembrar do conselho do próprio Salvador: tomam sua própria cruz e a vão contar de maneira criativa.

A história é simples: uma mãe-rainha não quer mais os filhos após a morte do pai-rei, e eles são expulsos. A irmã encontra-se prisioneira de um Dragão.

Podemos entender aqui a EXPULSÃO como não-pessoal. A mãe-rainha como a natureza experimentada antes, através da ‘normalidade’, e a simultânea morte estrutural dada pela morte do pai-rei (o que a ‘normalidade’ propiciava como caminho e possibilidade).

Os irmãos encontram-se numa floresta escura, literalmente, até chegar ao castelo-escola, onde agora está a vida-alma aprisionada pelo Dragão, cujo guardião é personalizado pelo diretor e as regras institucionais.

Eles vão contar SUA própria história, todos e cada um participando de um trecho da história. Falam do que experimentam: a escuridão do quarto coletivo cheio de folhas mortas e caídas no chão, o medo, a brincadeira, e de repente o despertar: a lembrança da irmã! O sucessivo e infrutífero encontro com o Dragão e sua resposta negativa assustadora: ele não vai libertar a irmã assim facilmente e sem luta. O dragão ainda encontra-se na forma do diretor-escola.

Francesca vacila diante das dificuldades quando Mirco comenta que ela não pode ser a mesma voz da princesa e da narradora. Murcha rápido, necessitando de mais ar, como a chama inicial num fogão à lenha: ainda não encontrou o vento-Espírito que alimenta a chama em si mesma, ainda não se descobriu combustível, necessitando do fogo que anima Mirco.

Os novos participantes do conto encontram Francesca e gritam, dizendo que ela dá azar, ela, a representante da tênue chama em cada um, a que fala da condição da alma ‘presa’, e a que vai motivar a saída de todos à liberdade através de Mirco. A alma em cada um precisa contemplar a si mesma, como num espelho, e é o que ocorre quando Mirco apresenta os alunos para Francesca. Ele, já aceso, incendeia os demais.

Há o conhecimento da verdadeira Beleza e se conscientizam Dela ao perceberem que ela é viva neles também. São seres almados, mesmo sem poderem enxergar, marginalizados que estão pelo status quo e que se quedaram inconscientes sobre seu próprio potencial. 

O que vemos na cena onde os meninos encontram Francesca é a alma (ainda frágil) sendo reconhecida como Beleza original, onde Mirco, artesão iniciante, abrasa a centelha de todos através da Beleza contida em sua sensibilidade e imaginação. Francesca tem a história, Mirco, com sua engenhosidade, atualiza-a.

A partir daí, temos movimento na forma de desejo, natural e pessoal dos meninos em atualizar essa Beleza, o que se expressa em seus trajetos individuais de uma forma criativa, imaginativa e lúdica e inclui a sexualidade de forma saudável, e não como um tabu, como vemos na cena em que eles estão tomando banho de cuecas.

O impulso é intrínseco, passional e ascensional para a Beleza e que a alma comunica. O processo é gradual, até atingir toda a trama contida pelo texto: atinge a intensidade num ritmo que beira o crescendo musical.

Entendemos que a alegoria é a única forma de entrar nessa dimensão velada. Esse processo ocorre pouco a pouco, até expor a Verdade por completo - Verdade que foi sua essência desde o começo, onde o Amor ao fundar-se constitui a via de acesso para o conhecimento e apreensão da mesma Verdade. 

Incognoscível pelos sentidos físicos, não o é pela imaginação. Não é a toa que a mira recai toda em Mirco, com a sentença e condenação de expulsão e retorno à casa dos pais.

Mirco é o ‘expansor’, ele é o Príncipe Herdeiro, “assim sua Palavra, assim sua vida[8], exemplo vivo do ardor passional e amoroso que o possui.  “Um expansor de volume é um dispositivo do amplificador de fonógrafos, toca-discos etc., que visa a amplificar as notas fortes, compensando a limitação de amplitude inerente ao processo de gravação”.[9]

Não é à toa também que Francesca vai buscar Ettore, dono do mesmo fervor expansivo e o capaz de lidar diretamente com o fogo-Dragão. Salvar Mirco é vital para aquilo que ainda está frágil e potencial neles: sua própria porção mais forte, a alma. Mirco é o portador do sopro que alimenta a chama em suas vidas e que arde em direção ao que intuitivamente sentem ser a Verdade.

Um pouco antes de serem ‘des-cobertos’, o diretor e a freira discutem o papel de um anjo. Surge a ideia do anjo de ser Felice. Não deixo de rir da ironia ao pensar em Felice fazendo seu zangão e tendo força e pulmões suficientes para soprar o enorme latão que faz às vezes de Dragão com seus ruídos metálicos...

Nesse momento o diretor e a freira se dão conta que uma boa parte dos alunos não se encontra ali. Tão obsecados por suas ideias não percebem o que ocorre ao redor deles! No paralelo, os meninos descobrem o segredo para enfrentar o Dragão: de olhos fechados já não caem prisioneiros do medo despertado pelo diretor-Dragão. E a luta se inicia.

Num contra-ataque quase letal, o diretor-Dragão cerca Francesca e nocauteia Mirco, todos se vendo impotentes diante dele. Don Giulio toma ciência da situação e ainda tenta apelar para a razoabilidade do diretor entregando-lhe as fitas gravadas, considerado um dos melhores trabalhos.

Pela primeira vez vemos que os meninos têm seu direito à liberdade exposto e defendido frente ao diretor. O diretor não escuta as fitas, não tem tempo para isso e nos deixa evidente que não foi capaz de transmutar sua nova realidade de cego de forma criativa. Aferrou-se às regras e, tirânico, vem impondo condição igual a todos há vários anos (100!). Isso não é muito difícil de ver e entender, não é?

Mas, vemos que à Francesca, apesar de cativa, lhe foi abrasado o dom da criatividade e liberdade. Capaz de fugir, porque agora acessa seus próprios dons incandescidos por Mirco, lembra-se: Ettore! E sai correndo, agora na condição de pessoa que vai atrás do que considera justo.

Paralelo a isso, vemos Don Giulio encontrar com Concettina, uma funcionária antiga da escola que o incita a se manifestar, a sair de sua posição cômoda para conscientizar o diretor de sua ‘cegueira’. 

Vemos aqui a capacidade do fogo em incandescer outros, queimar e se espalhar, como o fogo presente no campo. Don Giulio precisa expressá-lo, deixar-se queimar por ele.

Uma vez uma amiga bióloga comentou sobre o trabalho que fazia à respeito de uma semente característica do cerrado e que precisa ser queimada para poder germinar. Não é preciso só soltar o que está rígido, afrouxar as amarras, mas é necessário transmutar a ordem, mudar as estruturas fundantes em outras! É necessário ser radical, radical como só o fogo pode ser!

Quanto tempo vem ensinando Don Giulio? Nele também é acesa, e de maneira particular, a chama da revolução. E ele se vê obrigado a tomar uma decisão: sair de seu comodismo e impotência, e se manifestar.

Ele mesmo, o professor, pede agora pela visão de Concettina. Ela, a pessoa que cuida da manutenção, que mantém as coisas funcionando, que não é ‘estudada’ e que ‘não entende nada ‘desses assuntos’.

Não tem essa função, pois claro está que isso pertence a outro plano (o espiritual-vertical). Mas ela vê com clareza a necessidade dele se manifestar se está indignado. Claro está que ela não se importa - nem se intimida! - com a hierarquia. Poderíamos pensar que Concettina aqui fala através da ordem matriarcal, a natureza que é assim e caminha assim.

O ganho em consciência é um trabalho que os alquimistas chamaram de um ‘opus contra natura’, não para ‘acabar’ com ela, mas seguir numa direção outra que não o ritmo que a vida já possui e lhe é característico, como é o reino fisiológico, do instinto e da manutenção da vida. Isso já está dado. O desafio é a ascensional, é vertical, à outro que não o eixo horizontal à que ela responde. Esse eixo vertical pode ser visto funcionando nas pessoas de Mirco e os meninos, Ettore, Don Giulio e o diretor. Cada uma de suas fases tem sua contrapartida em Francesca, a namorada, Concettina e as freiras.

Vemos logo a seguir cenas dos tutti in piazza, protesto dos estudantes e da comunidade e um comitê da fundição conclamado por Ettore à favor de Mirco. Ameaçam fechar a fundição – coração da cidade, pressionando assim a prefeitura a agir. Mesmo atrás da porta de ferro, Francesca, contida ainda pela mãe-zeladora, sorri, frente à manifestação.

Don Giulio assume a peça de fim de ano nos anunciando o fim do reinado do diretor. Morte do regente para que a ‘novidade’ possa assumir a cena.

Os meninos agora podem chamar Francesca livremente, ocupam e exploram a escola de modo diferente e lúdico, montando a peça de fim de ano sob a batuta de Don Giulio.

A nova ordem, representada por Don Giulio, reconhece que nem sempre são os adultos que sabem o que é o certo, afirmando que a imaginação é algo pela qual nunca se deve desistir... ”A imaginação é o princípio de uma eterna juventude. Rejuvenesce o espírito devolvendo-lhe as imagens dinâmicas primeiras. Nada simboliza mais a imaginação do que as asas”.[10]

 A zeladora finalmente tira o avental, todos são convidados a vedar os olhos e escutar a história sonora criada para entrar (um pouco que seja) no universo dos meninos. Ettore reconhece a extensão fundante de seu papel como aquele que executou a maneira de enfrentar o Dragão, e os meninos conquistam o poder de voar junto ao dragão e saem voando como gaivotas brancas.

Os pais se sentem felizes, talvez pela primeira vez, e sentem reacender a esperança de que seus filhos podem continuar sonhando e seguir. Têm futuro!

Em 1975 o governo abole a escola para cegos e as crianças são admitidas no ensino público. E, Mirco, volta a brincar com os antigos amigos!

Agora, perguntamos:

- “Tenho usado meus dons e insistido neles?”
- “Tenho valorizado, sentido e saboreado todos os meus sentidos?”.
-“Tenho aproveitado as pessoas que, providencialmente, surgem em meu caminho?”[11].

Fica aí como reflexão para cada um!








[1] “Louvação a Oxum” música cantada por Maria Bethânia.
[3] IBID
[5] Ver Mircea Eliade em seu livro  “The Myth of Eternal Return”.
[6] Bachelard, G., O Ar e os Sonhos, Martins Fontes, 2009.
[7] Monteiro, Al. T., Os sentidos espirituais no comentário ao Cântico dos Cânticos de Orígenes, Universidade Católica Editora, 2004, pag. 19.
[8] IBID
[10] Bachelard, G., O Ar e os Sonhos, Martins Fontes, 2009.
[11] Comentário do mesmo filme por Manoela Montero, pseudônimo de Maria Teresa Moreira Rodrigues, psicanalista membro da SBPSP.

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