O Deserto e o Si-Mesmo: um ensaio fotográfico
Prefácio
As viagens são sempre fascinantes oportunidades de conhecimento para o homem sobre si mesmo, sobre o mundo, e sobre o ‘Outro’ - a realidade numinosa não é o homem, não é uma coisa, não é a natureza, não é o ‘conhecido’.
A associação entre a viagem e a busca de si mesmo e de Deus é muito conhecida e é desnecessário aqui ampliar o tema. Basta olharmos para todas as religiões para constatarmos a presença e a importância da peregrinação como um dos pilares da fé de cada uma delas.
“A "viagem" é um dos grandes arquétipos espirituais encontrados em todas as grandes religiões e culturas.”[2] Encontramos o motivo no Hinduísmo (os rishis e os sanyasin), os bikkus do Budismo, os peregrinos cristãos rumo à São Tiago de Compostela, e os muçulmanos com sua peregrinação a Meca.
Famoso, o labirinto da catedral de Chartres representa, com seus meandros e circunvoluções, as dificuldades do caminho para aqueles que não podem realizar a peregrinação propriamente dita.
As imagens do peregrino e a do viajante se confundem e a identidade de buscador é geralmente recebida com respeito por aqueles que a reconhecem.
As andanças que envolvem o itinerário são oportunidades de meditação e contemplação e as paisagens exteriores têm efeito particular sobre a alma do andarilho, tocando-a, à semelhança do som de um instrumento sobre um copo de cristal que o faz vibrar.
Se seu coração estiver - e permanecer! - silencioso é possível ouvir os acordes da dimensão que transcende o mundano, revelando-lhe um verdadeiro continuum com o cotidiano.
Imagens antigas retratam a intuição de há bem mais ‘entre o céu e a terra’, como veremos nas imagens e nas sentenças que se seguem.
O intuito desse trabalho é dividir as impressões que o Deserto deixou em mim.
Introdução
A associação entre a viagem e a busca de si mesmo e de Deus é muito conhecida e é desnecessário aqui ampliar o tema. Basta olharmos para todas as religiões para constatarmos a presença e a importância da peregrinação como um dos pilares da fé de cada uma delas.
“A "viagem" é um dos grandes arquétipos espirituais encontrados em todas as grandes religiões e culturas.”[2] Encontramos o motivo no Hinduísmo (os rishis e os sanyasin), os bikkus do Budismo, os peregrinos cristãos rumo à São Tiago de Compostela, e os muçulmanos com sua peregrinação a Meca.
Famoso, o labirinto da catedral de Chartres representa, com seus meandros e circunvoluções, as dificuldades do caminho para aqueles que não podem realizar a peregrinação propriamente dita.
As imagens do peregrino e a do viajante se confundem e a identidade de buscador é geralmente recebida com respeito por aqueles que a reconhecem.
As andanças que envolvem o itinerário são oportunidades de meditação e contemplação e as paisagens exteriores têm efeito particular sobre a alma do andarilho, tocando-a, à semelhança do som de um instrumento sobre um copo de cristal que o faz vibrar.
Se seu coração estiver - e permanecer! - silencioso é possível ouvir os acordes da dimensão que transcende o mundano, revelando-lhe um verdadeiro continuum com o cotidiano.
Imagens antigas retratam a intuição de há bem mais ‘entre o céu e a terra’, como veremos nas imagens e nas sentenças que se seguem.
O intuito desse trabalho é dividir as impressões que o Deserto deixou em mim.
Introdução
Ainda agora, enquanto escrevo, o Deserto se faz presente e impõe sua imensidão à alma. Não sei se por conta de sua vastidão, do vento constante, da claridade que cega, da densidade de sua noite, da proximidade das estrelas, da estranheza do frio cortante, ou talvez, pela sua aridez e ausência do verde.
Não sei, não sei precisar.
Talvez a proximidade com o mistério da Vida e Morte?
Não sei, procuro palavras para expor o que hoje chamaria de uma ‘peregrinação’ - não a um sítio construído pelo homem para consagrar um deus de uma crença qualquer – mas, uma jornada para um estado de ‘despojamento’, da ilusão do conforto e dos falsos ‘eus’...
Não muito tempo após chegar à Suíça, período em que estudei a psicologia junguiana, me envolvi com um grupo que criava bonecos para o teatro e que agora utilizava essa técnica como um recurso para dar forma a uma personagem interior. A minha personagem era uma figura muito semelhante a são João Batista.
Vestido de pele de camelo com um cinto de couro na cintura, são João Batista alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre, pregando no deserto da Judéia. Lá, ele recebeu a Palavra para anunciar a vinda do Messias que traria o fim da escravidão anunciado pelas Escrituras.
Na tradição dos padres do deserto encontramos a seguinte leitura sobre são João Batista:
“Que mistério novo e admirável! João não nasceu ainda e já fala através dos seus saltos. Ainda não apareceu e já profere anúncios. Ainda não pode gritar e já se faz ouvir através dos seus actos. Ainda não começou a sua vida e já prega a Deus. Ainda não vê a luz e já aponta para o Sol. Ainda não foi dado ao mundo e já se apressa a agir como precursor."
"O Senhor está ali: ele não é capaz de se conter, não suporta os limites fixados pela natureza, esforça-se por romper a prisão do seio materno e procura dar a conhecer antecipadamente a vinda do Salvador. Ele diz: «Aquele que rompe as cadeias chegou e eu continuo em cadeias, sou forçado a continuar aqui? O Verbo vem para restabelecer tudo e eu permaneço cativo? Vou sair e vou correr diante d'Ele e proclamarei a todos: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!» (João 1, 29)."
“Mas, diz-nos, João: ainda retido na obscuridade do seio da tua mãe, como é que vês e ouves? Como contemplas as coisas divinas? Como podes tu saltar e exultar? Ele responde: «Grande é o mistério que se cumpre – é um feito que escapa à compreensão do homem. Tenho o direito de inovar na ordem natural por causa d'Aquele que deve inovar na ordem sobrenatural.""O Senhor está ali: ele não é capaz de se conter, não suporta os limites fixados pela natureza, esforça-se por romper a prisão do seio materno e procura dar a conhecer antecipadamente a vinda do Salvador. Ele diz: «Aquele que rompe as cadeias chegou e eu continuo em cadeias, sou forçado a continuar aqui? O Verbo vem para restabelecer tudo e eu permaneço cativo? Vou sair e vou correr diante d'Ele e proclamarei a todos: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!» (João 1, 29)."
"Vejo antes mesmo de nascer, porque vejo em gestação o Sol de Justiça (Ml 3, 20). Apercebo-me pelo ouvido porque, vindo ao mundo, sou a voz que precede o grande Verbo. Grito, porque contemplo revestido da Sua carne, o Filho único do Pai. Exulto, porque vejo o Criador do universo receber a forma humana. Salto de alegria porque penso que o Redentor do mundo tomou corpo. Sou o precursor da Sua vinda e antecipo o vosso testemunho com o meu.”
A interpretação de são Crisóstomo reverencia a força que está latente na escuridão do ventre de Isabel. João é a voz que precede o Verbo. Ele anuncia, como a aurora, a vinda do dia. Na escuridão ressoa retumbante a voz de são João. É essa a sua identidade!
Isso me fez lembrar o dito alquímico “quando a tua prima materia se tornar negra, rejubila-te, pois o Opus começou” e me pus a meditar na atitude de Maria e de Isabel: ambas nos revelando a postura contemplativa, silenciosa e de espera, enquanto algo se forma para adentrar o mundo e então iniciar a nova ordem.
A voz que clama do deserto nos chama, nos convoca à individuação, ao nascimento e à liberação do Si-mesmo e à vocação para a liberdade que habita o coração humano. Liberdade para ser, e ser para poder escolher. Poder dizer ‘não!’ a uma existência dirigida pela tendência à massificação que também nos habita e nos ameaça com a identificação em massa, com os ‘ismos’ que tão abertamente nos alertou Jung.
A voz que clama do deserto nos chama, nos convoca à individuação, ao nascimento e à liberação do Si-mesmo e à vocação para a liberdade que habita o coração humano. Liberdade para ser, e ser para poder escolher. Poder dizer ‘não!’ a uma existência dirigida pela tendência à massificação que também nos habita e nos ameaça com a identificação em massa, com os ‘ismos’ que tão abertamente nos alertou Jung.
Liberarmo-nos dessa tendência é processo doloroso que desafia nossa fé na jornada, pois somos tão identificados com nossos desejos que abandoná-los é sentido por nós como uma ‘morte’. É preciso vencer esse temor.
A jornada à individuação é cheia de ‘perigos’ e envolve o confronto com a nossa sombra, desafia nossa resiliência à dor quando “toda palha for queimada num fogo inextinguível." (Lucas, 3,17)
Por palha poderemos entender tudo o que nos dá conforto e, portanto, ‘identidade’. O apego àquilo que nos acostumamos...
Por palha poderemos entender tudo o que nos dá conforto e, portanto, ‘identidade’. O apego àquilo que nos acostumamos...
Uma a uma, cada zona de conforto é desmitificada, até o extremo do conforto que uma vida produtiva oferece quando, paradoxalmente, se torna fonte de estagnação – “Eu sou a videira e meu Pai é o agricultor. Todo o ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais.” (João, 15, 1-4)
Essa diferenciação é difícil e apenas acreditando que ambos são movimentos do Amor é que se tem força para prosseguir.
Todos os místicos afirmam que somente passando pela ‘noite escura’ dos sentidos (são João da Cruz) ou pela experiência da desolação (Exercícios Inacianos) é que progressivamente vamos distinguindo a Voz que nos leva ao âmago de nossa alma e ao profundo mistério da união mística - nós e o Si-mesmo, para então apenas Ser.
Todos os místicos afirmam que somente passando pela ‘noite escura’ dos sentidos (são João da Cruz) ou pela experiência da desolação (Exercícios Inacianos) é que progressivamente vamos distinguindo a Voz que nos leva ao âmago de nossa alma e ao profundo mistério da união mística - nós e o Si-mesmo, para então apenas Ser.
E foi num momento assim que me dirigi ao deserto: uma vital zona de conforto havia sido desmontada. E toda uma série de questões invadiu meu coração e senti a necessidade e o ‘chamado’ para desnudar-me ainda mais...
O Deserto me chamava e respondi ‘sim’...
O Deserto do Atacama
“O deserto do Atacama está localizado na região norte do Chile. Com cerca de 200 km de extensão, é considerado o deserto mais alto e mais árido do mundo, pois chove muito pouco na região, em conseqüência das correntes marítimas do Pacífico não conseguirem passar para o deserto, por causa de sua altitude. Assim, quando se evaporam, as nuvens úmidas descarregam seu conteúdo antes de chegar ao deserto, podendo deixá-lo durante épocas sem chuva. Isso o torna de aridez incrível. Já foi registrado como o menor índice pluviométrico do planeta. O deserto do Atacama é o lugar na Terra que passou mais tempo sem presenciar chuvas, sendo registrados 400 anos sem indícios de chuva. Possui clima quente durante o dia e frio à noite, mas ao longo do ano é seco, apresentando variações de temperatura que vão de 0 °C a 40 °C.”
O Deserto do Atacama
“O deserto do Atacama está localizado na região norte do Chile. Com cerca de 200 km de extensão, é considerado o deserto mais alto e mais árido do mundo, pois chove muito pouco na região, em conseqüência das correntes marítimas do Pacífico não conseguirem passar para o deserto, por causa de sua altitude. Assim, quando se evaporam, as nuvens úmidas descarregam seu conteúdo antes de chegar ao deserto, podendo deixá-lo durante épocas sem chuva. Isso o torna de aridez incrível. Já foi registrado como o menor índice pluviométrico do planeta. O deserto do Atacama é o lugar na Terra que passou mais tempo sem presenciar chuvas, sendo registrados 400 anos sem indícios de chuva. Possui clima quente durante o dia e frio à noite, mas ao longo do ano é seco, apresentando variações de temperatura que vão de 0 °C a 40 °C.”
“A região foi primeiramente habitada pelos atacamenhos, povo da região juntamente com a civilização dos nativos aymaras. Ambos deixaram um legado inestimável em termos arqueológicos, daí o seu nome deserto do Atacama.”
“O terreno da região é bastante diversificado tanto no aspecto de altitude como de formação, variando de altitudes quase ao nível do mar até 6 885 metros, como no caso do vulcão Ojos del Salado.Também encontram-se áreas marcadas por erosão, dunas e montanhas. O solo é diversificado, mas é composto basicamente de sal e areia.”
“A região, apesar de ser seca e não apresentar um índice pluviométrico relevante, apresenta alguns lagos com água quase todo o ano, servindo de fonte de vida tanto para os habitantes da região quanto para os animais os quais lá habitam.”
“A flora é formada basicamente por árvores de pequeno porte, como o Pimiento e o Algarrobo, arbustos como o Chanhar e plantas como a Anhanhuca e a Brea que crescem na sua maioria ao longo dos vales e na região da precordilheira e cactos que crescem principalmente nas serras próximas à costa mais ao sul. O Deserto do Atacama em geral apresenta um terreno rochoso muito seco e pouco propicio a brotar algumas plantas. Em alguns lugares próximos à região de Antofagasta existem grandes áreas de deserto absoluto, onde o solo é completamente desprovido de vegetação.”
“A fauna é formada por animais pequenos como ratos, lagartos e cobras. Há a presença de lhamas, guanacos, flamingos e outros animais que com o tempo foram se adaptando ao clima.” [5]
Saí de Santiago rumo a Calama num vôo lotado. Dei sorte de sentar-me à janela, pois queria muito ver a paisagem.
De cima vê-se o aeroporto em meio às montanhas sem fim e já ali, perto das nuvens, dá para sentir a aridez e a ausência do verde e da água, tão acostumados que somos à mata e ao mar.
Estava entrando numa outra espécie de natureza, totalmente desconhecida e em meu coração palpitante de expectativa, sentia o compasso e a ansiedade por tudo o que havia assistido, ouvido, ou lido sobre o deserto – agora o experimentaria.
De cima vê-se o aeroporto em meio às montanhas sem fim e já ali, perto das nuvens, dá para sentir a aridez e a ausência do verde e da água, tão acostumados que somos à mata e ao mar.
Estava entrando numa outra espécie de natureza, totalmente desconhecida e em meu coração palpitante de expectativa, sentia o compasso e a ansiedade por tudo o que havia assistido, ouvido, ou lido sobre o deserto – agora o experimentaria.
Descer do avião diretamente para o chão – onde o deserto é a própria pista de pouso - saborear as cores, exuberantes ao final do dia, sentir a estranheza do frio diretamente no rosto, numa terra famosa por ser tão árida e abrasiva... E nenhum verde... Que experiência incomum! Sabia que viveria uma semana inesquecível.
Viajamos ainda mais 01h30min do aeroporto de Calama até São Pedro do Atacama, onde me hospedaria. Aproveitei a viagem para olhar o famoso céu do deserto.
Estávamos à 2400m de altitude e sem nenhuma luz, o que permite maior visibilidade para poder ver o brilho das estrelas.[6] Sentia frio, mas sentia-me muito bem em estar ali.
Primeiro dia

O programa de passeios incluía uma primeira visita, pela manhã, aos sítios arqueológicos, uma visitação ao passado do AtacamaEstávamos à 2400m de altitude e sem nenhuma luz, o que permite maior visibilidade para poder ver o brilho das estrelas.[6] Sentia frio, mas sentia-me muito bem em estar ali.
Primeiro dia


Ainda um tanto cansada da longa viagem, saí munida de protetor solar, frutas secas, castanhas e água. Levava minha câmera à tiracolo e, ao sentir o impacto das histórias do deserto, a identidade de ‘turista’ foi, progressivamente, ficando para trás...
Mais tarde e em outro local, comigo, outros subiam suas difíceis dunas. O esforço nos obrigava o silêncio. A aparente ausência de vida nos traz a sensação de que olhamos o mundo antes da vida acontecer e também depois dela desaparecer, restando apenas esse ‘contínuo’, e que na natureza aparece como o ‘deserto’. Não é a toa que um arrebatamento tome posse da alma.
Então o esforço vale à pena diante de tão bela paisagem que nos recebe. Nesse momento, nos é oferecido o espaço e o tempo para nos sentarmos para descansar os olhos e os ouvidos da rotineira concentração e foco de nossas vidas comum, saboreando no final do primeiro dia o infinito do espaço e a imensidão da pausa. Silêncio talvez seja isso: espaço e pausa.
Enquanto olhava a bela paisagem, o vento frio e cortante do final da tarde não nos dava muito sossego , e a areia soprada formava uma lente sutil deixando a impressão que a distância aumentava, deixando tudo muito mais além do que já parecia. E aos poucos, o silêncio foi ficando mais claro, mais agudo, mais perceptível... E no silêncio, percebia a verdadeira essência do deserto...A alma do Deserto
O Deserto é assim: seco, quente e, de repente, frio. Ouve-se o vento. Ele corre pelos cabelos, os olhos ardem. Em algum momento não há mais ninguém, apenas você e Ele, e olhamos os outros caminhando ao lado, perguntando: estarão com o Deserto ou não? Ou talvez seja porque o silêncio é tão impactante que é como se as pessoas se movessem sem gerar som?
Uma vez, enquanto ouvia um concerto, o movimento dos violinos e das violas me hipnotizou e já não ouvia a música vinda dos instrumentos, mas do próprio ar, do espaço, e os músicos pareciam estar fazendo movimentos sem som algum. Acontecia a mesma coisa ali.
Alguns cenhos franzidos revelavam o incômodo. “Sim, o deserto está presente neles também. Não sei se plenamente percebido, mas presente!” E ao passar ao meu lado ouço alguém murmurando – “Nossa! Que lugar seco!”
A alternância da temperatura pode ser brutal pois, por volta da 16hs esfria e a sensação térmica é de frio mais intenso, devido ao vento cortante, cheio de fina areia a pinicar o rosto.
A claridade excessiva cede aos poucos à noite, densa e escura, seu papel de guia. Uma grande excitação preenche o coração ao cair da noite e, mesmo depois de jantar, enquanto andava na pequena vila de São Pedro, podia ouvir a silenciosa presença do deserto.
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O Deserto ruge como um leão silencioso. Seu bafo quente gela o coração daquele que deseja a amizade simples de um animal doméstico.
Não é assim! Em seu interior não há distrações.
Apesar dos olhos descansarem na vastidão do espaço, a alma se apaziguar, a ausência do verde, das plantas, dos animais, do ser humano, causa um cansaço difícil de definir.
O deserto exige a atenção exclusiva para suas paragens e ausências de tudo aquilo a que estamos acostumados.
À medida que nos aprofundamos em sua ‘pausa’, entramos em contato com a ‘estagnação’ que nos habita, e nesse momento a viagem se torna também uma viagem interior...
Em algum momento me dei conta que meu incômodo provinha da aridez que habitava meu coração: as dores e perdas que vivenciara ao longo dos últimos meses se alongaram para os períodos de minha vida, até se tornarem perdas sem data, sem origem aparente, temas da alma humana...
Nada nascia desse lugar desértico em mim, e a pausa já não era pacífica, mas era a própria morte, o não movimento, a estagnação absoluta.
Percebia também um movimento de fuga, queria sair daquele desconforto, e sem saber por que, sorri. Depois compreendi que teria que me desapegar também de minhas dores e aceitar o tecido ferido que meu coração havia se transformado.
Não sei se drogada de sono ou de medo, olhei sua face seca, a luz ofuscante de seus olhos noturnos, e aos poucos, fui me acostumando, sem saber se isso era bom ou não...
Meu coração revelou-se: sangrava. As cordas esticadas arrebentaram e eu sangrava plenamente.
Sangrava no seco do Deserto. De que cor era o sangue? A lua Nova tornava-o escuro. Apenas escuro.
Em algum momento parei de resistir. Larguei-me no colo seco e quente do Deserto. Desisti de resistir ao seu incomensurável tamanho. E me deixei ali. Como a Prima materia na forja do alquimista, o deserto me queimava.
Aos poucos, o deserto entrou em mim. Secou-me completamente. As lágrimas, que antes arredondavam a alma, já não fluíam, como se nunca mais fosse ser possível chorar.
Que queria Deus de mim, afinal?
-"Coragem para tudo sentir!" Foi o que ouvi...
A Calcinação: a Mortificação dada pelo Fogo
“Uma voz clama no deserto...” [7]
O Profeta... falava a minha memória sobre a Voz que habita o deserto.
Quero ouvi-la. Mas só ouço o oco de suas areias sem fim. Desisto de tentar ouvir. Só há o Deserto. Uma estranha suavidade seca. De cinzas e areia fofa.
Sou vagarosamente reduzida a pó. Até meus ossos viram poeira fina. Confundem-se com a areia ao redor. E abandonando a lucidez fui envolvida pela Escuridão das entranhas daquela terra de vulcões. Os pensamentos silenciaram e conheci a escuridão sem adormecer...
E sob o testemunho único das estrelas, o vento riscava a areia criando uma nova linguagem. E no lugar mais improvável e temido conheci o verdadeiro Silêncio, o Silêncio do não-ver, do não-saber, o Silêncio da pura temperatura do Amor.
Luz e Trevas, um mistério a se experimentar...
Um novo dia
Tolice nossa pensar que ficaremos na pausa aconchegante... Até o dia vir com uma nova estrada que agora apontava para outra dimensão, para outro frio, para outra luz, que a montanha ao horizonte prometia. A estrada branca era mais suave, mas não duraria para sempre...
Agora era a vez da íngreme subida, da estrada sinuosa, novamente seca... cheia de pedras, muito frio, e outros desafios...
Mas, já não ia só. Uma Voz me fazia companhia...
E sob o frio de 4500m, à solidão insuspeitada é revelado um segredo inusitado: a água cristalina seria, enfim, oferecida.
Tão generosa é a Vida que, insatisfeita, resolveu, Ela mesma, numa nova forma se anunciar: não mais pelas paisagens e cores, ou pelo silêncio de Eras, nem só pelo frio ou pelo calor, com suas dores e sabores...
Não, era em ligeiro Movimento, na forma de uma espiral de vento, que Ela passaria, dançando e saudando, o longo caminhar...
E ligeiro, depois de outro rodopiar, o vento já era Luz à estrada iluminar!
"Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado e para quilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma. "[8]
(E amigos a acompanhar!)
Quem sou eu:
Nasci na cidade de Tatuí - SP, em 1962. Cresci em Capivari e em Bauru. Herdei de meu pai o espírito e o gosto pelas viagens. O medo e o anseio pelo desconhecido já habitavam meu pequenino coração, tenho certeza, desde que abri os olhos para o Mundo. Herança de minha mãe. À ambos tento dar meu toque, continuamente. Tornei-me médica e psiquiatra longe de casa, e analista junguiana longe de meu país, para tentar compreender o ser humano, suas dores, suas alegrias... Isso às vezes acontece, principalmente quando deixo de ‘tentar’... Em minhas andanças acertei e errei, procurando as pessoas e Deus. A paisagem mais bela ainda é o sorriso de uma criança e a mais triste continua a ser a de uma floresta queimada...
Testemunho
"Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio…
Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.
Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor, e a outra metade…também."
(Ferreira Gullar)
[2] http://alinaesquina.tripod.com/peregrino.shtml. Página acessada em 30/01/2010, às 17:19hs.
[3] Lucas 1,39-45 – Comentário ao Evangelho do dia feito por são João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero em Antioquia e depois Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja. Homilia atribuída a partir da trad. de Solesmes, Leccionário, t. 3, p. 1039 rev. http://www.evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT página acessada em 20/12/2009.
[4] O deserto do Atacama visto do espaço. http://labgeo.blogspot.com/2007/07/terra-vista-do-espao-chile-deserto-de.htm. Página acessada em 20/12/2009.
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Deserto_do_Atacama. Página acessada em 20/12/2009.
[6] “Em todo o hemisfério sul, o lugar favorito dos astrônomos é o deserto do Atacama e seus arredores. A falta de umidade impede a formação de nuvens, e a altitude favorece o posicionamento dos observatórios. Por isso tudo estão instalados ali os melhores telescópios do hemisfério. Também fica no Atacama o projeto mais ambicioso da história da observação terrestre do espaço. Quando estiver instalado, em 2011, o Atacama Large Millimeter Array terá 64 antenas que, somadas, vão funcionar como um único radiotelescópio gigantesco.” Fernanda Nogueira. http://super.abril.com.br/ciencia/deserto-atacama-446503.shtml. Página acessada em 20/12/2009.
[7] Isaías (40,3ss) – “Uma voz clama no deserto; Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todo vale será aterrado, e todo monte arrasado; tornar-se-á direito o que estiver torto, e os caminhos escabrosos serão aplanados. Todo homem verá a salvação de Deus.”
*Maria Bethania canta uma cantiga popular cuja letra segue assim: “Meu pai São João Batista é Xangô. É o dono de meu destino até o fim. Quando me faltar a fé em meu Senhor, derrube essa pedreira sobre mim. Subi a serra acompanhando pai Xangô. No lugar onde ele passa, corre água e nasce flor.” Álbum Brasileirinho, gravadora Quitanda/Biscoito Fino, 2003.
[8] Fernando Pessoa, “Poesia Completa de Alberto Caeiro”, Companhia de Bolso, 1997.
**Fotos realizadas por Sonia Maria Marchi de Carvalho, com uma Nikon D 40 no deserto do Atacama, Chile, entre os dias 06 e 11 de setembro de 2009.














Shoen,
ResponderExcluirQue delícia poder compartilhar o que vc viveu em sua "viagem" ao Deserto!!! Dá vontade de ir tb!!! Adorei seu texto, suas fotos, as citações e o poema do Ferreira Gullar!!!! Parabéns e OBRIGADA!!!!
Bj gde da prima,
Dri
Obrigada, Dri!!
ResponderExcluirVale à pena ir, o lugar é lindo!! Eu adorei!!
Bj gde!!